1 de novembro de 2026

1 de novembro de 2026

Enquanto alguns ainda vão em romagem aos cemitérios a distribuir flores pelas campas dos seus mortos, a juventude vive o drama de um horizonte sem futuro. E manifesta-se.

Entretanto, o Governo decide usar a polícia para carregar sobre manifestantes pacíficos para criar o ambiente de crispação que justifique a repressão e permita reduzir direitos, liberdades e garantias que tínhamos por adquiridos.

Ouvir os políticos do atual governo, podemos ignorar até os apóstolos do 4.º Pastorinho, é sentir o fascismo a regressar de mansinho.

Pensando nos que negam o fascismo em Portugal e que consideram Trump, Netanyahu, Erdogan, Marine Le Pen ou Ventura democratas diferentes, é impossível não recordar os presídios da ditadura, a polícia de choque, a Pide, os bufos e o ambiente repressivo de 48 anos de ditadura, a «república corporativa, democrático-orgânica e antiparlamentar», como a Constituição de 1933 definiu o fascismo salazarista.

Pensando no que ora estamos a viver, vem-me à memória o presídio do Tarrafal e um poema soberbo de Ary dos Santos:

AO CABO DE CABO VERDE

Ao cabo de Cabo Verde

dobrado o cabo da guerra

quando o mar sabia a sede

e o sangue sabia a terra

acabou por ser mais forte

a esperança perseguida

porque aconteceu a morte

sem que se acabasse a vida.

 

Ao cabo de Cabo Verde

no campo do Tarrafal

é que o futuro se ergue

verde-rubro Portugal

é que o passado se perde

na tumba colonial,

ao cabo de Cabo Verde

não morreu o ideal.

 

Entre o chicote e a malária

entre a fome e as bilioses

os mártires da classe operária

recuperam suas vozes.

 

E vêm dizer aqui

do cabo de Cabo Verde

que não morreram ali

porque a esperança não se perde.

 

Bento Gonçalves torneiro

ainda trabalhas o ferro

deste povo verdadeiro

sem a ferrugem do erro.

 

Caldeira de nome Alfredo

fervilham no teu caixão

contra o ódio e contra o medo

gérmens de trigo e de pão.

 

E tu também Araújo

e tu também Castelhano

e também cada marujo

que morreu a todo o pano.

 

Todos vivos! Todos nossos!

vinte trinta cem ou mil

nenhum de vós é só ossos

sois todos cravos de Abril!

 

No campo do Tarrafal

no sítio da frigideira

hasteava Portugal

a sua maior bandeira.

 

Bandeira feita em segredo

com as agulhas das dores

pois o tempo do degredo

mudava o sentido ás cores:

 

o verde de Cabo Verde

o chão da reforma agrária

e o Sol vermelho esta sede

duma água proletária.

 

Do cabo de Cabo Verde

chegam tão vivos os mortos

que um monumento se ergue

para cama dos seus corpos.

 

Pois se o sono é como o vento

que motiva um golpe de asa

é a vida o monumento

dos que voltaram a casa.

José Carlos Ary dos Santos

(poema feito quando da trasladação para Portugal dos restos mortais dos 32 resistentes assassinados no Tarrafal)

Imagem: Cortejo da trasladação dos corpos dos tarrafalistas (1978) – União de Resistentes Antifascistas Portugueses.



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