Confesso que vivi – o problema da Catalunha

Tomo de empréstimo o título do excelente livro autobiográfico de Pablo Neruda, sem a amargura do Nobel nas últimas páginas onde a esperança se dissipa na violência militar de Pinochet e na saudade de Salvador Allende, o amigo perdido no golpe fascista.

Trago na vida a lembrança de várias vidas, quase sempre feliz e a receber mais do que dei, dos avós, pais e amigos e da companheira da minha vida. Não posso queixar-me.

Confesso que vivi. Por isso, gosto de ler, sobre cada assunto, opiniões divergentes para formar a minha. Convivo bem com as divergências e tornei-me atento às duas partes em confronto, repudiando o maniqueísmo e, sobretudo, os radicalismos que envenenam a convivência e comprometem a paz.

Conheço todas as províncias espanholas e habituei-me a amar o país na sua diversidade. Aprendi a conviver com os que lutaram de um lado e doutro da guerra civil, irmãos que não se falaram mais, primos de meu pai, jovem de vinte e poucos anos, que lhes levava, durante a guerra, sacos de pão para matarem a fome e que todos estimaram.

Vivi a guerra civil de Espanha em conversas com o meu pai, no testemunho de André Malraux e na memória dolorosa de um jovem capitão de 24 anos, condenado à morte, refugiado em França. Teve mais sorte do que os que fugiram para Portugal, entregues pela GNR para fuzilamento. Regressou após tardia amnistia deixando educar os filhos na propaganda clerical-fascista do franquismo, sem lhes comunicar o seu agnosticismo religioso e republicanismo.

Era o meu tio Angel, tratamento deste filho do primo-irmão da esposa, Maria Luísa, tratando por primas as irmãs casadas em Portugal. O tio Angel, um homem de enorme coerência e coragem, temeu desgraçar os filhos com as ideias que só me revelou depois de Portugal e Espanha voltarem à democracia. Temia, segundo me disse, que eu tivesse a educação dos seus filhos. Compreendi então o seu silêncio quando me albergava na sua casa, em Salamanca, nas vezes em que, no verdor da adolescência, aí maldisse a ditadura portuguesa.

Por conhecer os horrores da guerra civil espanhola, pela literatura, pelos testemunhos do pai e de familiares espanhóis de ambos os lados, pelas feridas da guerra colonial que me acompanham e pela memória dos mutilados no anexo de Campolide do HMP, corpos de jovens decepados, cegos e desfigurados, sou avesso à desintegração de Espanha.

Surpreende-me a coragem dos pensadores de sofá, aquele entusiasmo dos que defendem a secessão catalã, galega ou basca, talvez embrutecidos, ou não, pelo anti-castelhanismo da propaganda salazarista, ainda a babarem-se de gozo com a batalha de Aljubarrota.

Quem sofreu a guerra colonial, até os convencidos de que estiveram ao serviço da Pátria e os que ainda rumam a Fátima a agradecer à Senhora o regresso das pátrias alheias, não gostará de ver, aqui ao lado, um país dilacerado em outra guerra.

Acompanho com particular atenção as eleições catalãs e penso no sofrimento de metade dos catalães que temem o independentismo e os perigos do aventureirismo nacionalista.

Ah, esta coragem belicista de quem jamais ouviu explodir uma granada, deu um tiro ou viu morrer amigos de vinte e poucos anos numa guerra injusta, criminosa e condenada ao fracasso!

Não desejo a independência da Catalunha, quero a paz de Espanha, se possível com uma República Federal capaz de federalizar as nações que integram o maior país ibérico.

Apostila – Entrou hoje em vigor a lei espanhola da eutanásia, contra a vontade da direita e extrema-direita. É o reconhecimento dos direitos individuais. Viva Espanha!

Comentários

Jaime Santos disse…
Também não desejo a independência da Catalunha e torço nariz às fanfarronadas secessionistas de quem nunca pegou em armas para ir para a Guerra.

Não sofro, republicano que sou, do anti-castelhanismo de que sofrem muitos dos monárquicos que querem o fim da Espanha, para vingar velhas ofensas, esquecendo eles que se Portugal perdeu a independência foi primeiro porque teve um tolo como Rei (não deixou sequer descendência quando rumou a Alcácer Quibir) e depois porque a nobreza portuguesa se vendeu a Filipe de Castela. 'Herdei-o, comprei-o e conquistei-o', dizia ele.

Vale a pena lembrar que essa Espanha que gerou Franco, por atraso e por tolerância preservou as línguas e as nacionalidades que a constituem. Já na França, o Provençal é uma língua morta. Unidade nacional assim, também eu.

Mas saúdo a coragem de Sanchez, que não ganhará um voto com o indulto e àqueles que dizem que isto para nada serve, digo que serve para libertar pessoas que estão na cadeia por motivos políticos e quem sabe encetar um dialogo que talvez permita preservar a unidade da Espanha, que é um grande País...

Espana, manana será republicana!

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