Um dia de cada vez – Crónica do quotidiano em tempos de coronavírus

Mitigo as saudades dos filhos e netos, com visitas previstas e anuladas, por telemóvel e videochamadas. Faltam-me os amigos da tertúlia do Café Bossa Nova e o delicioso café do lote que mantém há muitos anos, e os da reunião noturna no Alma Shopping.

Tenho o privilégio da afetuosa e dedicada companhia que me coube nos dias que temos de enfrentar, mas a minha intimidade não interessa aos leitores e preservo-a.
No que só a mim respeita, direi como passo os dias, sem azedume ou ansiedade, sem a mais leve tristeza a acrescentar às previsões do futuro, onde os empregos e os bens vão escassear, com a fatura de muitos zeros a pagar por todos, num mundo empobrecido.

Levanto-me às 9h30 e deito-me às 2h00 do dia seguinte. Demoro nas abluções matinais e pequeno almoço, não muito pequeno, 1 hora. Às 10h30 parto para a minha caminhada de 6 km, 1 hora e 15 minutos. Ido do corredor, entro na sala de jantar, contorno a mesa pelo lado direito e curvo para a esquerda na sala de estar, passando tangentes à mesa da televisão que separa as salas, seguindo para a biblioteca onde contorno a mesa redonda do computador para voltar ao corredor e entrar de novo na sala de jantar ou de estar, a fazer circuitos pedonais repetidos, sucessivos oitos assimétricos, com a argola mais pequena, na biblioteca, ora pela esquerda, ora pela direita.

São 75 minutos, com duas voltas iniciais em passeio e, a seguir, em ritmo de quem vai a algum lado, ligeiro, a entregar a carta a Garcia, usando a sala de estar para fazer torções do tronco, do pescoço e flexões dos braços, à frente, atrás, acima, abaixo, insiste, insiste,  respirar fundo, expirar, sem quebra de ritmo. Com as deslocações da tarde percorro cerca de 8 km diários, por obrigação autoimposta ao sedentário habitual, sem ninguém a dizer-me para acertar o passo e os movimentos pelos outros.

No PC tenho o Público diário (pdf) e os jornais El País, Público.es e Le Monde.fr, com os artigos que me deixam ler e interessam. Em papel, disponho da Visão, semanal, e dos mensários Courrier Internacional, Tempo Livre (INATEL), com excelentes artigos, e o Praça Alta e Alto da Raia, jornais do concelho de Almeida, onde sou colaborador.

Fiz pausa em novos livros, talvez por ter chegado a vez de “As Benevolentes”, de Jonathan Littell, com letra miúda e novecentas páginas a intimidarem-me. Distribuí a dúzia de livros que me aguardavam pelos espaços vazios sobre outros livros. Substituí-os por outros de que posso reler um ou mais textos diários. Vieram preencher o espaço, à esquerda, Príncipes de Portugal, de Aquilino, Textos Políticos, de A. Almeida Santos, Uma Campanha Alegre, de Eça, Pensatempos, de Mia Couto, Objecto Quase, de Saramago e Novos Contos da Montanha, de Torga. À direita, estão Alegre, Ary, José Gomes Ferreira, Neruda, Natália e Sofia. Bastam para muito tempo e leio o que quero, levando para o quarto, no dia seguinte, outro autor, em prosa ou verso. E durmo bem.

No Faceboock, leio textos admiráveis, nacos de boa prosa saída do humor ou amargura de amigos, distintos em várias áreas, agora com literatura de primeira e cristalina água.
Escrevo para amigos e adversários no FB, e recuso olhar as páginas que me pedem para ‘gostar’, vídeos que me enviam, apelos para “repassar” e o lixo que me chega sem uma palavra pessoal. Gasto tempo precioso a apagar emails com anexos que não tenho tempo para abrir e mensagens impessoais cujo conteúdo ignoro.

A Páscoa cristã foi martírio maior do que subir o Gólgota com a cruz às costas, sem um Cireneu que me afastasse os ovos de chocolate do mesmo fabricante, vindos de centenas de pessoas, a procurarem afetuosamente fazer-me diabético.

Acaba por ser exíguo o tempo. Vigio a chegada dos cantoneiros do lixo, que removem o conteúdo dos contentores do vidro, plástico e lixos domésticos, anunciados pelo roncar de veículos que param à porta do meu prédio. Pasmo com estes profissionais da Saúde pública, tão parcamente remunerados e tão imprescindíveis, eficientes e pontuais!

Da janela, vejo a rua e a praceta impecavelmente limpas, à passagem destes esforçados trabalhadores, mal pagos, que ganham o respeito e gratidão dos enclausurados.
Agradeço aos sucessivos edis de Coimbra não terem, ao contrário do leviano Santana Lopes, privatizado a excelente água, mantendo o preço, que o diga quem tem casa no concelho da Figueira da Foz, ao nível dos mais baixos do país.

Se o meu aproveitamento do tempo servir de exemplo e consolo a um único leitor, dou por bem aplicado o tempo de o descrever a traços grossos e rápidos, à velocidade com que percorro o circuito pedonal de que dispunha, sem o saber.

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