O declínio democrático dos EUA e o perigo de contágio

O susto provocado pela horda fascista, na invasão do Capitólio, estimulada por Trump, não se desvaneceu nos defensores da democracia liberal, dentro e fora dos EUA.

Quem viveu em ditadura e pensou que as democracias venceriam os totalitarismos, tem hoje razões acrescidas de preocupação, ao ver o número de regimes autoritários a voltar a ser maioritário.

Os EUA, que lutam pela hegemonia planetária, não são um exemplo de democracia nem o baluarte da defesa dos direitos humanos. Desde a pena de morte à violência racista, da politização do Supremo Tribunal ao moralismo das igrejas evangélicas que dominam os centros de poder, tudo, nesse imenso e poderoso país, contribui para fragilizar os ideais democráticos que inspiraram os autores da sua Constituição.

A revogação do acórdão Roe vs Wade pelo Supremo Tribunal dos EUA, em 24-6-2022, negou efetivamente às mulheres norte-americanas o direito constitucional de decidirem sobre os próprios corpos, decisão que alguns Estados levaram ao extremo de proibirem, em qualquer caso, a I.V.G., sem respeito pela autodeterminação sexual e reprodutiva da mulher, indiferentes aos riscos da sua saúde física, mental e da própria vida.

No fundo, foi a afirmação extremista do poder masculino sobre a mulher, uma forma de domínio ultraconservador, alheio à tragédia de uma violação, de um feto teratogénico ou à morte da mãe.

Esta misoginia evangélica extremista, que domina o Partido Republicano dos EUA, vai ter repercussões miméticas em muitos países, onde regressam tentações machistas sob a capa de da vontade divina interpretada por sacerdotes mais ou menos machos.

Este fenómeno de regressão, que a jurisprudência dos EUA apoiou, vai empurrar para a clandestinidade e condenar à morte milhares de mulheres, sobretudo as mais pobres.

Enquanto os países civilizados regridem, os outros ficam mais longe da evolução.

A religião é a desculpa para a subalternização e opressão das mulheres. Cabe a estas e aos homens civilizados impediram o regresso de trogloditas ao poder.

Ponte Europa / Sorumbático

Comentários

Monteiro disse…
O judaísmo, o cristianismo e o catolicismo assentam todos no Homem, até Deus é masculino. Na mossa língua as mulheres em presença de homens perdem a sua identidade. 2 mulheres são elas mas se entra um homem elas transformam-se em eles. Estas são as bases da nossa cultura judaico-cristã. Houve um filho de Noé que viu o pai nu e na hora de ir cada um para o seu lado o Noé entrega a Europa ao filho que não pecou e entregou por castigo África aquele que viu o pai nu. Mudar esta mentalidade toda requer uma mudança total a que se associa o conceito da propriedade privada, ela própria um atributo de Deus que deu força e fundamento à civilização tal como a conhecemos e cuja filosofia o Direito fundamenta. A distância entre democratas e republicanos é quase nula perante os valores que sempre procuram alcançar na força e na ambição do poder.

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