domingo, março 31, 2013

O feitiço virou-se contra a ‘feiticeira’

Angela Merkelcavou’ (tentou aprofundar) um perigoso fosso entre os povos europeus, nomeadamente, quando apareceu na ribalta a condenar e a exorcizar atitudes perdulárias e despesistas dos insolentes povos do Sul (da Europa).
Não quis compreender as assimetrias de desenvolvimento (uma palavra banida do discurso político) ditadas por questões políticas estratégicas e fiscais e, concomitantemente, não conseguiu valorizar os custos de uma ampla integração europeia (antes perverteu-os). Para a chanceler alemã, a coesão no espaço europeu tornou-se um conceito espúrio que – em última análise - não significa mais do que a eventual extorsão do contribuinte alemão. Esta a dimensão e a escolha política dominante em Berlim.

Certo, que a difícil situação vivida na Europa, com especial relevo na Zona Euro, deve-se a erros políticos regionais e/ou nacionais, que se arrastaram por muito tempo, e tiveram reflexos na sustentabilidade dos Estados. Tiveram origem em descontrolos orçamentais e, consequentemente, endividamentos excessivos que é necessário corrigir. Esta a realidade. Mas a par das necessárias e adequadas correcções para se obterem equilíbrios orçamentais, os povos – vivam em Regiões, Estados, Federações ou Uniões - necessitam de algo mais do que 'resgates' sob a vergasta da austeridade e o labéu do empobrecimento abrupto. São necessários colocar no terreno e na política mecanismos integradores, entre eles, instrumentos de solidariedade económica, social e fiscal. Um cenário que Berlim nem quer ouvir falar.

A saga da chanceler Merkel que tomou como imperativa missão a instituição de uma férrea disciplina fiscal tendo por base severas e recessivas medidas de austeridade em todo o espaço do euro, virou-se ‘intramuros’ contra a própria (promotora). link

O problema das transferências financeiras entre os diferentes Länders na Federação alemã entrou na ordem do dia, sendo motivo de uma queixa ao Tribunal Constitucional, visando a alteração do modelo distributivo em vigor. Este ‘movimento de secessão fiscal’ vai acabar por contaminar a campanha eleitoral e fustigar a ‘unidade alemã’ tão celebrada após a queda do muro de Berlim.

Curiosidade: o posicionamento da solidariedade, está na RF Alemã, ‘invertido’ em relação ao conjunto europeu. Lá, é o Sul próspero (Baviera, Baden-Wurttem berg e Hesse) predominantemente católicos, onde se acantona a vanguarda industrial e tecnológica alemã que aparece a questionar, em nome de uma pretensa justiça distributiva, o Norte, protestante (luterano), puritano e 'trabalhador', com um PIB per capita inferior em 20 a 30% (em relação aos 3 länder do sul).
Mas, mesmo na Alemanha, este quadro tem nuances. O Estado de Baden- Württemberg, dirigido desde 2011 por uma coligação dos Verdes (Die Grünen), divorciou-se destas reivindicações empoladas pelos dirigentes bávaros, dominados pela CSU (democratas-cristãos). Mais uma evidência de como estas questões são estreitamente influenciadas pelas ideologias políticas e não por hipócritas ‘protestos de procedimentos equitativos na distribuição da riqueza’, que andam na boca de muitos políticos (nas campanhas eleitorais).
Todavia, o mais caricato deste perturbador quadro político é que o feitiço parece ter-se virado contra a ‘feiticeira’.

Notas soltas: março/2013


Vaticano – O mês começou com um papa emérito, privado da tiara, do camauro, batina do pescador, sapatinhos vermelhos e anel. Conservou a santidade e o pseudónimo de Bento XVI, mas perdeu a infalibilidade e o alvará para criar santos e cardeais.

Manifestação – Quando mais de 1 milhão de portugueses sai à rua para contestar a política, perante o desprezo dos governantes e o silêncio do PR, cresce a raiva e o asco de quem sofre o desemprego, a miséria e o desespero.

Oposição – O sectarismo é doença senil de detentores da verdade única, unidos pela graça de uma qualquer vulgata, impedindo a unidade política da luta contra o rumo deplorável que nos arrasta para o abismo.

Venezuela – Há quem não apreciasse o estilo de Hugo Chávez, que ganhou as eleições de forma limpa, amava e era amado pelo seu povo. Combateu o analfabetismo e a fome. Deixou um rasto de luto em todo o continente americano, a sul dos EUA.

PR – Cavaco publicou o Roteiro VII, exótico nome da publicação anual das suas intervenções. O silêncio perante a atual governação contrasta com a violência com que zurziu a anterior. Vai ser penoso aguentar mais três Roteiros.

António Borges – A desfaçatez do ‘ministro’ das privatizações, afirmando que «diminuir salários é uma urgência», foi uma provocação grosseira incómoda para quem o nomeou e, por cumplicidade ou cobardia, consente que se mantenha em funções.

Vaticano – O novo Papa é argentino e deixou eufóricos os fiéis que aguardaram o anúncio, à chuva. Qualquer que fosse o novo detentor da infalibilidade e da tiara teria o júbilo dos crentes e as críticas dos adversários. Aos últimos não faltam motivos.

Madeira – Perante a suspeita da ocultação da dívida, contraída para prejudicar Sócrates – como afirmou –, a presunção de inocência não funciona perante a opinião pública habituada à insensatez e irreverência do irresponsável presidente da Região.

Francisco – O novo Papa, perante a descrença que atinge a Europa, quer uma Igreja para os pobres. Em Portugal, o Governo, em geral, e o ministro das Finanças, em especial, encarregaram-se de lhe facilitar o caminho para a propagação da fé.

Chipre – Os adversários da moeda única e da União Europeia, unidos, não fariam mais, nem melhor, para desprestigiar ambas. Os ministros das Finanças, onde não faltou Gaspar, assaltaram os depósitos bancários. Um aviso a Portugal.

União Europeia – O assalto a Chipre, com 800 mil habitantes, foi um ensaio infeliz. Depois desta chantagem outro país se seguirá. A Europa e o euro não aguentam um par de Chipres. 

Belmiro de Azevedo – Ao afirmar «não saber porque não deve haver economia baseada em mão de obra barata», revela a arrogância dos ricos, a insensibilidade dos poderosos e a insolência dos idiotas.

Grândola – Deixou de ser apenas a canção que traz à memória a gesta heroica da resistência à ditadura e a senha da Revolução de Abril. Converteu-se na arma com que o povo afugenta os governantes como ratos de um barco que se afunda.

FMI – O chefe da missão em Portugal, Abebe Selassie, disse em entrevista, estar “chocado com o desemprego e recessão”. Dado a sua corresponsabilidade nas medidas que o Governo quis ultrapassar, assumiu o falhanço e inépcia da troica.

SIED – O antigo espião, Silva Carvalho, acusado de abuso de poder, violação do segredo de estado e acesso indevido a dados pessoais, foi colocado na presidência do Conselho de Ministros com vencimentos retroativos a 1/12/2010. Quem não pode impor o silêncio, compra-o. Uma vergonha que exonera a ética e a responsabilidade.

Sócrates – O regresso do ex-líder do PS à TV não altera a opinião dos eleitores a seu respeito mas soltou a pulsão censória e o ódio de quem aceita a presença regular de Santana Lopes, Marcelo, Ferreira Leite e Marques Mendes.

PR – A acusação direta de Sócrates sobre a cabala contra o seu Governo, urdida em Belém, é tão grave que atinge em cheio o carácter do mais alto magistrado do País e o deixa vulnerável se não der uma explicação plausível, que se espera há anos.

Espanha – Há documentos que parecem provar que a Casa Real conheceu, facilitou e favoreceu os negócios do genro do rei e da princesa Cristina. Uma eventual condenação, na família real, põe em causa o regime que os espanhóis não sufragaram.

Itália – À semelhança da Grécia, o sufrágio popular traduziu-se num voto de protesto, com manifesto desprezo pelos partidos. Não há democracia que resista a tantos malogros e o efeito de contágio é tão rápido na política como na economia.

Coreia do Norte – O obscuro país, vítima de uma ditadura hereditária, aumentou a escalada belicista com ameaças aos Estados Unidos. A possibilidade de um conflito nuclear passou do campo da retórica para a iminência da tragédia.

Faceboock – Foi o meio de resposta de Cavaco Silva às acusações de Sócrates: «Não é através de uma retórica inflamada e vazia de conteúdo que se defende o interesse nacional». Quanto ao grave caso das escutas, voltou a remeter-se ao silêncio.

Filipinas – A mortificação de jovens, que se flagelam e fazem crucificar, são o exemplo obsceno do que pode a tradição e a fé, perante o silêncio dos bispos, o júbilo da população e a indiferença divina.

Associando-me à alegria dos crentes...


sábado, março 30, 2013

Sua Santidade em oração acrobática

Imagem de «El País»

O catlolicismo de madeira, pregos e martelo

Foto de El País


Para preservar o equilíbrio mental fujo da televisão como Maomé do toucinho. Limito-me, com exceção de alguns canais temáticos, a ver notícias e em dose homeopáticas.

Distraído, vi, nesta sexta-feira pascal, um programa pornográfico, algures nas Filipinas, onde uma dezena de jovens se fez crucificar num ato obsceno de masoquismo místico. Sei, da psicologia, até onde podem levar as patologias e não entendo como o Vaticano não repudia o carácter bárbaro da exibição e aceita a tortura numa orgia de fé.

A superstição e os costumes estão na base da perpetuação das crenças. Uma tomada de posição, hostil à selvajaria perpetrada pelos constrangimentos sociais e clericais, pode conduzir ao desprezo da religião e ao desprestígio do catolicismo.

O furor que exalta a fé e exulta os crentes é um anacronismo selvagem que os bispos não reprimem e de que as multidões não prescindem.

Quando julgávamos que a humanidade tinha proscrito os sacrifícios rituais, eles teimam em continuar perante a demência dos crentes, a cobardia dos bispos e a apatia divina. As flagelações que extasiavam o franquista Josemaria Escrivá são muito apreciadas no Céu, a ponto de converter um fascista num santo, pobres diabos num divertimento de créus e uma multidão de fanáticos na admiração do clero.

Que mundo estúpido. O homem fez deus à sua imagem e semelhança, com os piores defeitos. Não há perdão para o sofrimento inútil, perante o silêncio dos bispos, o gáudio da populaça e a indiferença de Deus.

sexta-feira, março 29, 2013

CHIPRE e Zona Euro: uma relação em avaliação …

O presidente cipriota sentiu a necessidade de garantir, numa conferência anual de trabalhadores que decorreu na capital Nicósia, que "o país não vai abandonar a Zona Euro depois do plano de resgate internacional destinado a evitar a falência e que implica uma reestruturação profunda do sistema bancário”. link

O que significa esta declaração? Pelo menos que o assunto já foi equacionado.
E mais: as impressões de agora poderão não ser a realidades de amanhã.

‘Resgatada’(?) a banca segue-se o problema económico daí decorrente que – como foi repetidamente mencionado – é extremamente dependente da saúde do sistema financeiro (bancário). Uma certeza: o sistema bancário cipriota, tal como funcionou nos últimos 30 anos, poderá não acabar na insolvência pura e simples, mas esboroou-se.

Começa então a tornar-se nítido que, neste contexto, a permanência na Zona Euro só poderá acarretar problemas no ‘ajustamento’ da trajectória económica às novas condições. Não é conhecido o ‘pacote’ que a troika vai exigir para libertar os 10. 000 milhões de euros. Mas não é difícil adivinhar. O carrossel é sempre o mesmo. Austeridade implacável que começa mitigada com um memorando ‘soft’ e em cada exame regular será intensificada. A ‘receita da Troika’ além de ter perdido a credibilidade enquanto ‘solução’, deixou de ser ‘politicamente’ inocente. Já não há maneira de iludir estes sentimentos.

Existe – no espaço europeu - cada vez menos adeptos de que a libertação dos problemas agudizados no seio da Zona Europa (e são cada vez mais endémicos) terá necessariamente passar por uma descida aos infernos (espiral recessiva e desemprego astronómico). O conceito que a redenção terá forçosamente passar por penosos sacrifícios poderá ter adeptos no campo religioso, mas tornou-se insuportável no aspecto político, económico e social.

Num artigo publicado há 3 dias no NYT, o economista Paul Krugman defende esta ideia link. A economia cipriota tem vivido de 2 sectores: o financeiro (serviços bancários de offshore) e o turismo. A decisão do eurogrupo destroçou o sector bancário do qual dependem subsectores complementares como o imobiliário. A queda do PIB segundo estima Krugman deverá atingir valores que rondam os 20%. Uma ‘depressão’ com efeitos económicos e sociais devastadores que levam qualquer País a repensar uma questão simples: Quais os custos da saída e qual o preço da permanência?

A desvalorização monetária decorrente de uma eventual saída e regresso à libra cipriota poderá ser sobreponível à queda do PIB. Mas em contrapartida o Governo de Chipre fica com a capacidade de utilizar instrumentos financeiros (como a autonomia monetária e a desvalorização cambial) que poderão servir para 'alavancar' a outra vertente económica do País: a indústria turística. A permanência na Zona Euro, pelo contrário, poderá fazer o turismo sucumbir, por arrasto, com a crise financeira. Uma diversificação económica, por exemplo, uma viragem para o sector primário, também poderia ser suportada por mecanismos cambiais autónomos.

Estou convicto que a (re)ponderação sobre a permanência na Euro zona, em Abril, com o conhecimento das cláusulas inerentes ao ‘pacote de resgate’ será imperativa. Aliás, quando observamos a situação dos países intervencionados na UE, não existe outra porta aberta que possibilite adaptar (renegociar) os programas de resgate, todos desenhados à volta da mesma 'receita'.

E finalmente, quais as consequências para a UE da deserção da EuroZona pelo Chipre? Em primeiro lugar o risco de contágio. Subordinado a este risco a dimensão das ‘consequências sistémicas’. Este caso (Chipre) que arrancou no terreno financeiro poderá vir a ser o exemplo prático de como o impasse acerca dos ‘eurobonds’ poderá ser muito interessante para as eleições federais alemães mas vai provocar o ‘estouro’ da moeda única e a reboque o desmantelamento da UE.

A visita – no centro do furação da crise - de Michael Sarris (ministro das Finanças cipriota) a Moscovo, efectuada ao arrepio da vontade da Sra Merkel, não deu resultados imediatos. Mas o passo está dado. Provavelmente, o plano alternativo ao resgate de troika estará '' a amadurecer…

O PR e o Faceboock



O PR viajou hoje até ao faceboock onde debitou esta pérola: «Não é através de uma retórica inflamada e vazia de conteúdo que se defende o interesse nacional». E mais não disse. Quanto à gravíssima acusação das escutas, aos costumes disse nada.

Embriagado pela tomada de posse para o segundo mandato, quiçá convencido de que só podia ter sido milagre, o incendiário de 9 de março de 2011, com um discurso de ódio e ressentimento, é hoje o náufrago a quem ninguém lança a boia que o salve do naufrágio onde perece a honra e se apaga a dignidade com que os portugueses gostariam de o ver terminar o mandato.

O Governo, a coligação e o CDS


O Governo não é um cadáver adiado, é um elenco em adiantado estado de putrefação à espera de uma aragem que nos liberte do odor e da náusea que exala na lenta agonia.

A situação internacional é difícil para quem tem preparação e capacidade, mas torna-se insuportável para quem faz da governação uma leve ideia, tem ódio à Constituição e não encontra na coligação o cimento que exceda a capacidade de aglutinação da saliva.

Com um governo assim pouco importa que o vento corra ou não corra de feição, porque não ajuda quem não sabe para onde vai nem conhece o caminho que é preciso percorrer.

O primeiro-ministro limita-se a chantagear o tribunal Constitucional e o líder do CDS a defender os interesses do seu partido para disputar as eleições autárquicas.

Já não existe coligação, se alguma vez existiu, com Portas a mandar os homens de mão a exigir uma remodelação dos ministros do PSD e este a engolir em seco a afronta que não pode esconder. O casamento de conveniência é mera união de bens, com separação de pessoas, num processo em que os cônjuges sentem vergonha mútua, partilhando a manjedoura e fugindo da cama.

O padrinho lambe, em silêncio, as feridas das acusações de Sócrates na sua clausura de Belém, enquanto o Governo, que patrocinou, se desfaz perante a incapacidade política de o substituir e a responsabilidade de arranjar uma alternativa depois de ter destruído o capital ganho na eleição que lhe renovou o mandato.

Perante a incerteza, é Portugal que sofre a espiral desta desgraça, sem rumo, sem projeto e sem esperança, num desespero em que era preciso um PR respeitado e corajoso e uma oposição preparada para mobilizar o País.

quinta-feira, março 28, 2013

José Sócrates: a entrevista, as obscuridades do resgate e as responsabilidades…

A entrevista de José Sócrates, ontem, na RTP 1, girou à volta de ‘narrativas’. Que tem sido feitas, que devem ser (re)feitas e que malgré tout (ou après tout) ficaram por fazer.
Este reaparecimento perante a opinião pública nacional foi (é) importante porque representou(a) uma ‘outra versão’, frequentemente desfocada pela 'narrativa oficial'.

Deu para perceber que o ex-primeiro-ministro, durante os 2 anos de estudos em Paris andou a ler Roland Barthes.

De facto, o entrevistado, esforçou-se por tentar encontrar - na acção passada - factores (princípios) de casualidade, nem sempre fáceis de explicar ou de demonstrar.
Dentro da dissecção de uma realidade passada conseguiu envolver e destrinçar em personagens naquilo que é um denominador comum de todas as narrativas: a intriga.

Neste terreno o alvo ‘major’ foi o Presidente da República liminarmente incluído – e ao arrepio da ‘narrativa oficiosa’ - naquilo a que podemos chamar o ‘roteiro da conspiração’. Todavia, resta aguardar por cenas dos próximos capítulos…

Por outro lado, a ordem temporal que colonizou a entrevista foi - por culpa dos entrevistadores e coincidente com o interesse do entrevistado - frequentemente perturbada por mecanismos de ‘switchback’, desnecessários, repetitivos e, por vezes, enviesados.

Tomemos como exemplo a génese da crise política que motivou a queda do XVIII Governo Constitucional e o ‘pedido de auxílio externo’. Deixemos de lado o mais importante desta entrevista: a denúncia do modelo ‘cooperação institucional’ propagandeado e invocado repetidamente pelo Presidente da República.

A crise política que o País viveu em 2011 não pode ser emparedada num tempo psicológico onde o ‘ajustamento’ com a realidade – que nunca tendo ocorrido conforme o ‘previsto’ – é difícil de representar na actualidade com rigor e objectividade.

Ninguém consegue emitir um juízo preditivo sobre o valor intrínseco do PEC-4, nem avaliar da sua ‘resiliência’ (termo que entrou na gíria financeira) perante a onda neoliberal que varria (e continua a ‘assaltar’) a Europa. O distanciamento que clarifica posições, permite dar novos sentidos aos acontecimentos, não elimina nem substitui a vivência.

Numa coisa José Sócrates aparece, com seu regresso ao debate político, cheio de ‘razão’. A conjuntura actual ‘justifica’ o seu titânico (e obstinado) esforço, desenvolvido em 2011, para tentar evitar o pedido de resgate, i. e., a vinda da troika.

Os resultados estão à vista e podem ser ‘cavalgados’ por todos, mas Sócrates foi, de longe, o que mais tentou batalhar por ‘outra’ alternativa. De facto, hoje, vemos com clareza para que tipo de assistência externa para que o País foi empurrado – e de que José Sócrates mostrou ter uma clara percepção das consequências – que retirou armas e instrumentos económicos e financeiros necessários para definir opções políticas nacionais e europeias, visando a ultrapassagem da crise, evitando tantos e variados traumas, como os que actualmente vivemos. Tal constatação, por si só, não confere consistência às opções (de austeridade ‘controlada’) constantes no PEC-4. Na verdade, a sensação residual e remanescente será a de que esse PEC não passaria do início de uma escalada. O rastilho de uma ‘espiral de austeridade’ que levaria – sempre! – a uma profunda recessão. Estamos, portanto, a falar de gradientes. A tentar diferenciar entre o mau e o péssimo. O preço que nos seria exigido passaria por um empobrecimento (es)forçado, não gizado para ser uma (ou a) solução mas, antes, para funcionar como a ‘punição necessária’.

Um outro aspecto, diz respeito aos meandros que rodearam a apresentação do PEC-4 em Bruxelas. Ninguém se pode considerar – após a entrevista - suficientemente esclarecido acerca das omissões, simulações e, eventualmente, traições. A ainda nebulosa tramitação deste processo pode ser considerada sob diversos ângulos, entre eles, aqueles que são mais visíveis como a soberana oportunidade de proporcionar a ‘ida ao pote’. Há, todavia, outros aspectos ocultos, uns serão circunstanciais, outros poderão ser fundamentais para enquadrar as actuais opções.

Infelizmente, a entrevista de ontem – neste aspecto como em relação a outros que não são abordados aqui – não clarificou totalmente a situação. O enigma sobreviveu à entrevista. A História não deixará de ‘escrever’ a(s) sua(s) narrativa(s), uma vez liberta de todas as inculcações. Essa é uma prerrogativa científica e 'filosófica' que, evidentemente, não cabe numa entrevista.

PASSOS COELHO, UM CASO DE POLÍCIA

O governo e seus apaniguados têm-nos habituado a sucessivos atropelos à lei e à própria Constituição. Designadamente, têm vindo a fazer intoleráveis pressões sobre o Tribunal Constitucional para que este não declare inconstitucionais as normas do Orçamento que foram submetidas à sua apreciação.

 Mas desta vez Passos Coelho foi manifestamente longe demais.Com efeito, declarou ontem publicamente esta coisa espantosa: “O Tribunal Constitucional tem de ter responsabilidade nas decisões que toma e no impacto que estas decisões vão ter para o País”.

 Tal declaração afronta grosseiramente a norma do n.º 2 do artigo 216 da Constituição, segundo a qual “os juízes não podem ser responsabilizados pelas suas decisões, salvas as exceções consignadas na lei”.

O primeiro ministro incorreu assim em grave responsabilidade política. A meu ver, devia ser imediatamente demitido por indecente e má figura.

 Resta porém saber se não incorreu também em responsabilidade criminal. Com efeito, a lei n.º 34/87 de 16 de Julho, no capítulo intitulado “Dos crimes de responsabilidade de titular de cargo político em especial”, prescreve no artigo 10.º, sob a epígrafe “Coação contra órgãos constitucionais”: “O titular de cargo político que por meio não violento nem de ameaça de violência impedir ou constranger o livre exercício das funções de órgão de soberania (…) será punido com prisão de dois a oito anos (…).”

 Ora, parece-me evidente que Passos Coelho, com a referida declaração, visou “constranger o livre exercício das funções” do Tribunal Constitucional, que é um órgão de soberania.

 Não sou juiz nem magistrado do Ministério Público, pelo que obviamente não me cabe decidir se o comportamento do primeiro ministro se enquadra na referida norma. Mas certamente que “quem de direito” não deixará de apreciar a questão.

Humor


Intolerável…

Numa conferência de Imprensa e perante um governante estrangeiro (Fredrik Reinfeldt primeiro-ministro da Suécia) Passos Coelho emitiu sobre o Tribunal Constitucional uma intolerável e leviana consideração que fere a [constitucional] separação de poderes, escarnece do conceito de jurisprudência e, politicamente, roça a chantagem.

Disse:

O Tribunal Constitucional tem de ter responsabilidade nas decisões que toma e no impacto que estas decisões vão ter para o País”. link

O Chipre, a União Europeia e o euro


Contrariando a diretiva comunitária que garante os depósitos bancários até 100 mil €€, os ministros das Finanças da UE assinaram a pilhagem de 6,75% para esse valor e de 9,9% para valores mais elevados. Depois, perante a insurreição parlamentar de Chipre,  resolveram taxar em 30% os depósitos superiores ao referido montante, julgando apagar o lume da lareira enquanto o fogo alastrou na floresta.

Em Portugal, por mais pausada e convictamente que o ministro Gaspar garanta que os bancos estão sólidos, a liquidez evapora-se. Já todos sabem do que são capazes, antes de recuarem no saque, fosse qual fosse o montante.

A lavandaria de capitais de origem criminosa, em que Chipre se converteu, existia antes da adesão à União Europeia. Os ministros das Finanças, quais virgens pudicas, fingiram ignorar o passado para defenderem interesses da agiotagem que servem. Não tributam os lucros e a riqueza, saqueiam de forma cega as poupanças, sem cuidarem da origem.

O presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, afirmou que, «se existir um risco num banco», ir-se-á «…se necessário, aos detentores dos depósitos não garantidos». Perdida a confiança, mesmo em relação aos depósitos até 100 mil euros, fácil é concluir que os depósitos superiores vão migrar, a custo zero, dos países pobres para os ricos que os vão emprestar aos países de origem enquanto julgarem seguro reaver o capital e os juros.

O capital nunca hesitou perante o lucro e raramente pondera as tragédias que semeia. A Alemanha recusa tornar-se europeia e tenta transformar, em alemã, a Europa. Às vezes a História prega partidas enquanto todos nos afundamos num mundo global onde o centro de gravidade económica se transfere para o Pacífico e os conflitos europeus se arriscam a ser dirimidos como soía até 1945.

Não sei se a distância ou as circunstâncias nos levam a ver gigantes nos governantes da década de quarenta do século que foi, e pigmeus nos que ora nos couberam, mas temos de aceitar que não foi generosa a colheita donde saíram estes. São sombrias as nuvens que espreitam no horizonte e nebuloso o futuro que nos espera.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, março 27, 2013

A entrevista de Sócrates e a RTP


A entrevista de Sócrates não ultrapassou o que se esperava dele. Dois jornalistas, um deles processado por Sócrates, quando era PM, não obtiveram as respostas que muitos esperavam mas permitiram as denúncias que Sócrates quis.

O PR, corajoso nos ataques que lhe fez quando o viu em governo minoritário e quando o apanhou ausente e calado, tem agora oportunidade de deixar o faceboock e vir à RTP defender-se das gravíssimas acusações de carácter de que foi alvo. Sobretudo esclarecer o caso das escutas que pareceu ser um ato de alta traição.

Seguro, tão ignorado por Sócrates como pelo País, tem de merecer a alternativa que os eleitores estão relutantes em conceder-lhe.

O Correio da Manha não precisa de fazer o que quer que seja. Tem os leitores que merece.

Mais uma voz na oposição a este Governo é necessária. Esperemos que os vários canais queiram também ouvir alguém do PCP, o partido mais ostracizado do espetro político.

A tragédia vai continuar com a cabal incompetência, já demonstrada pelo atual governo, e a traição intermitente do CDS.


O PR e o remorso judaico-cristão


Durante a visita a uma fábrica da Gelpeixe, o P R, Cavaco Silva, defendeu hoje que «a retórica política e as intrigas entre os diferentes partidos nada acrescentam e não contribuem para o desenvolvimento do país».

Saúda-se o arrependimento do discurso de vitória do 2.º mandato, em que o ódio e o ressentimento atingiram o apogeu, e a autocrítica do tenebroso caso das falsas escutas atribuídas a Sócrates.


Reflexão sobre questões de reciprocidade


Na vida como no amor o principal é a reciprocidade. A igualdade e a justiça dependem dela.

A plurigamia repugna-se mas resigno-me se os homens e as mulheres tiverem o mesmo tratamento jurídico. O adultério é um ato de traição mas se a anuência for mútua não o estigmatizarei.

Os deuses são falsos e as religiões fraudes organizadas mas se as mulheres e os homens tiverem direitos iguais tornam-se toleráveis e passam a meras multinacionais para venda e divulgação de orações.

O direito de repúdio de uma mulher só é infame e infamante porque não é permitido à mulher o direito de repudiar o homem.

Sem casamento não há divórcio mas, aceitando a legitimidade de um, tem de se aceitar o direito ao outro.

Se os símbolos religiosos entram nos edifícios públicos o busto da República deve estar presente nas igrejas. Se as paredes das escolas têm crucifixos as capelas devem ter fotos do Presidente da República. Se a imagem da Senhora de Fátima viaja pelas paredes dos hospitais a primeira-dama deve ter a fotografia nas paredes das sacristias.

A toponímia das nossas cidades está pejada de santos e referência religiosas. É altura de as paróquias começarem a denominar-se Afonso Costa, República e Joaquim António de Aguiar.

Um bispo dá nome a largos, Voltaire pode designar as novas igrejas. O Papa entra na toponímia de uma cidade, a Praça de S. Pedro pode passar a chamar-se Garibaldi.

Não é justo que o espaço público fique saturado de santos, beatos, bispos e papas e a ICAR ignore nomes que evocam a liberdade e a cultura, de Machado Santos a Salgueiro Maia, de Voltaire a Raul Rego, de Tomás da Fonseca a Saramago.

A basílica de Fátima devia ter sido consagrada ao livre-pensamento – um espaço de liberdade – em vez de à improvável Santíssima Trindade.

Se forem proibidos pagodes, igrejas, sinagogas, enfim, templos de qualquer religião e espaços antirreligiosos, não faz sentido que sejam consentidas mesquitas para quem não aceita outra religião e impõe violentamente a sua.


A Presidência do Conselho de Ministros é o depósito geral de adidos.


Quando um espião perde a confiança dos que serviu e ameaça traficar a influência, à míngua de tribunais, o melhor é mantê-lo ao serviço.

Foi assim que Silva Carvalho viu criada uma sinecura pessoal na dependência formal do PM, com vencimentos retroativos desde 1 de dezembro de 2010.

Na impossibilidade de se exigir o cumprimento do segredo profissional, compra-se.

terça-feira, março 26, 2013

Perplexidade, no mínimo…

Tomamos hoje conhecimento que o ex-director do Serviços de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), Jorge Silva Carvalho, que em 01 de Dezembro de 2010 pediu a sua exoneração para, ao que tudo indicia, ingressar nos quadros de uma empresa privada (Ongoing), foi integrado no quadro do pessoal da Presidência do Conselho de Ministros link, de acordo com uma Lei de 2007 (n. 4 do artigo 50. da Lei n. 9/2007, de 19 de Fevereiro link) .

Tal 'privilégio' dever-se-á ao permanente dever de sigilo a que são obrigados os funcionários dos serviços de segurança. Esta (re)integração tem efeitos a partir da data da exoneração.

Algumas questões:

1.) Este cidadão (enquanto funcionário público) não está a ser investigado pelo MP exactamente por quebra do dever de sigilo (“caso das secretas”) link?

2.) Durante pelo menos um ano (iniciou funções na Ongoing em 2 de Janeiro de 2011 e pediu a demissão em 26.01.2012) não existiu, durante esse período, sobreposição de funções (públicas e privadas)?

3.) A reintegração dará direito ao pagamento de vencimentos desde a data de 'exoneração/integração' em acumulação com exercício de funções privadas empresariais?

Um caso que, no mínimo, levanta muitas perplexidades. A realidade vem demonstrar que mesmo existindo uma Lei sobre o assunto, a mesma deve ser ponderada e ‘adaptada’, de acordo com a decência e o bom senso (...pelo menos).

Qualquer coisa de negro, de 'muito negro’

O deputado Luís Montenegro tem sido – no Parlamento e na comunicação social – um incansável, prolixo e assanhado ‘trauliteiro’ ao serviço do PSD, na defesa deste Governo.

Frequentemente, nas recorrentes intervenções em ‘defesa da honra’ de Passos Coelho, mais se assemelha a um 'capanga' do que um político.

Para o líder parlamentar do PSD o Governo é puro e imaculado sendo isento de quaisquer erros. Tudo o que já aconteceu - e o que poderá vir a acontecer - sofre sistematicamente de um ‘pecado original’: o Governo de José Sócrates!

Confrontado recentemente com os clamores de uma remodelação governamental afirmou que Pedro Passos Coelho “nunca fará mexidas no Governo em função do grau de contestaçãolink
Trata-se de um chavão recorrente dos políticos para usar na praça pública: ‘não decidir sob pressão’.

Este político que – como era de esperar no actual contexto – começa pela JSD de Espinho (94-96), daí transita pela autarquia (1997-2001), para chegar a deputado pelo círculo de Aveiro (2002-…) e a vice-presidente do PSD no consulado Passos/Relvas, é useiro e vezeiro na técnica de tentar ‘tapar o sol com a peneira’.

Fala da contestação como se fosse uma coisa irreal, vinda do 'além'. Elege a oportunidade como uma inultrapassável ferramenta política e um insofismável critério da verdade. A sua especialidade é endossar responsabilidades (para os 'outros').

Não entende a contestação. No seu entender é tudo ‘ruído’. O clamor dos indignados, as lutas sindicais, a censura das Oposições, a crispação social, a miséria, etc., não fazem – nem têm de fazer - parte da agenda do Governo. São – no seu entender – meras perversões democráticas ou pressões ilegítimas,  ‘bloqueios’ à governação.

Na sua obstinação recusa admitir que o fogo já entrou pelas portas das traseiras link. Continua a apontar para a eventualidade de ‘inimigos’ poderem estar a provocar uma tempestade artificial em redor do ‘seu’ quintal e não se apercebe que a sua própria casa já está a arder. Inconformado, prefere esbracejar na janela, enquanto insulta os ‘bombeiros’ que – de todo o lado - tentam acorrer ao desastre.
Enfim, são estes os políticos que temos...

JÁ NÃO ERA SEM TEMPO !


 Estudantes ameaçam agir pela força caso Passos lhes dê nega

A actual crise que o País atravessa e as consequências que a mesma tem no ensino levaram os estudantes do ensino superior a exigir ao primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, uma reunião com carácter de urgência. Os universitários avisam ainda, numa carta aberta, que se não obtiverem qualquer resposta por parte do Executivo ponderam recorrer a acções de força, escreve esta segunda-feira o Jornal de Notícias.

 Treze associações de estudantes de todo o País reuniram-se e apresentaram, no domingo, uma carta aberta onde exigem ser recebidos pelo primeiro-ministro para discutir a actual situação do País e, em especial, do ensino.

“Temos uma das propinas mais elevadas da Europa, um sistema de Acção Social Escolar obsoleto e ineficaz e a realidade do abandono escolar, do desemprego jovem e da emigração”, lê-se na carta.



O erro está no uso do singular

Enviado por um leitor amigo

Falar de política acerca dos músicos do bando


Ao conjunto de fatos, com bandeiras nacionais na lapela e ministros e secretários de Estado dentro, chama-se Governo.

Às decisões políticas chama-se reacionarismo e às financeiras provocação. O conjunto forma um bando, e não uma banda, porque o maestro não sabe o que é uma pauta e não distingue um sustenido de um bemol ou estes de um bequadro.

Não acredito que este Governo tivesse sido escolhido pelo PSD. É fácil para o partido argumentar que foi obra dos adversários e difícil rebater tal argumentação. Até o CDS se dá ao luxo de fingir que é o rosto humano de tal gente.


segunda-feira, março 25, 2013

CHIPRE: breve e sucinta resenha do desastre anunciado…


Merkel e Anastasiades numa cimeira do PPE

A República do Chipre, isto é, a parte sul da ilha reconhecida internacionalmente como um Estado e membro da UE desde 1 de Maio de 2004 (cimeira de Dublin), acabaria por integrar o Eurogrupo em 1 de Janeiro de 2008, completando um conturbado e violento ciclo histórico.
Na altura da adesão o Chipre era apontado como um caso de sucesso a reboque de um crescimento económico ‘sustentado’, escondendo-se debaixo do tapete a alavanca deste êxito: o offshore (paraíso fiscal).
Na realidade, o ‘elogio’ era endereçado à ‘lavandaria mediterrânica da oligarquia russa’ que se dedicava a uma abundante e lucrativa especulação: imobiliária e da dívida grega.

Logo após a entrada de Chipre no Eurogrupo, em Fevereiro de 2008, foi eleito o presidente Dimitris Christófias, político de Esquerda, pertencente ao AKEL, o atípico partido comunista cipriota mas, na prática, um político tolerante com a 'economia de casino' que aí se tinha instalado.

Em 2011, o sector financeiro cipriota sofre um importante abalo resultante do ‘haircut’ da dívida grega, negociado entre os credores internacionais e a Grécia. O 'perdão da dívida grega' reflectiu-se profundamente neste mercado financeiro causando avultadas perdas aos bancos. Nessa altura, Chipre emite um pedido de ajuda à UE. A contabilidade da época – referente aos dois principais bancos - registava perdas estimadas em 4,5 mil milhões de euros.

A ajuda solicitada pelo Governo de Chipre à UE, pretendia que fosse activado pelo BCE o sistema de emergência de liquidez para os bancos cipriotas que tinham sido duramente atingidos (como sucedeu em relação a alguns bancos regionais alemães em risco de incumprimento) pelo perdão parcial da dívida grega, decisão estranha ao governo cipriota e da responsabilidade do Conselho Europeu (na altura da dupla 'Merkozy').

Na resposta, o resgate financeiro proposto pelo BCE ao Governo cipriota é complementado com um programa político e, para ‘salvar’ os bancos cipriotas, a proposta de apoio aparece supervisionada pela troika (União Europeia, Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional) que esboçou um 'pacote de condições' a essa ‘ajuda’.
A 'receita' foi a do costume:
- redução de 15% nos salários dos funcionários públicos;
- redução de 10% nas prestações sociais;
- diminuição da ajuda à habitação e as subvenções indexadas à inflação;
- aumento do IVA;
- privatizações de empresas públicas.
O presidente cessante Chistófias não aceita estas condições na globalidade e, por exemplo, indigna-se com a exigência de privatizações das empresas públicas que apresentam saldos positivos. Resolve - face a esta situação - pedir um empréstimo à Rússia para permitir ao Chipre espaço e capacidade de negociação.
Entretanto, as negociações com a troika arrastam-se penosamente, desde Junho 2012, e só conheceram novos e súbitos desenvolvimentos quando ocorrem novas eleições em Chipre e o presidente cessante decide não se recandidatar para apoiar um candidato independente que é derrotado.

As eleições são ganhas pelo líder da Direita, Nicos Anastasiades, que de imediato (tomou posse a 1 de Março) se torna um interlocutor ‘credível’ para a troika, nomeadamente através dos ‘canais’ políticos do Partido Popular Europeu. A sua campanha baseou-se na necessidade de um bailout que estaria em boas condições para negociar…
Logo após a vitória eleitoral começa a falar de (conquistar) ‘credibilidade externa’ e (proceder a) ‘reformas estruturais’. Isto é, começou a desfiar a cartilha neoliberal. Uma situação que se tornou maçadora, por repetitiva (deixando de lado a constatação da sua ineficácia).

Depois, enfim, foi tudo aquilo a que assistimos na última semana e já foi sobejamente comentado.

Esta é uma curta resenha de mais uma história exemplar na trajectória de desmantelamento da UE. Aliás, mais do que uma história, é um exercício didáctico.
Ou, se calhar, mais uma historieta sobre o ‘desastre’ que espreita os incautos europeus …

O País revolta-se

A Grândola não é apenas uma canção que traz à memória a gesta heroica da resistência à ditadura e a senha da Revolução de Abril. É hoje o cordão sanitário que separa o povo do PR e do PM que fogem dos seus sustenidos e bemóis como ratos de um barco que se afunda.

domingo, março 24, 2013

Humor

Enviada por Stefano Barbosa

Autópsia do momento político: vários ‘impasses’ em banho-maria…

A maioria governamental tem por costume atribuir às oposições a autoria (e a responsabilidade) dos vários impasses que têm recheado a trajectória de resgate (do deficit orçamental e da dívida excessiva) a que Portugal foi submetido. A acreditar no que dizem nada de anormal se passa no interior da actual coligação de Direita.

A reunião de ontem da comissão política do CDS veio levantar a ponta do véu link. Os comissionistas do CDS entretiveram-se a falar, os dirigentes a ouvir e todos a estudar cenários. É esta a conclusão possível a tirar das palavras dos responsáveis políticos proferidas no final da reunião.
De facto, o CDS sendo um parceiro indispensável para a sobrevivência da actual coligação adiou o futuro deste governo para 15 de Abril link.

Neste momento, no interior do CDS, procede-se aos inevitáveis e preliminares balanços. Entre o que será mais dramático: romper agora tentando demarcar-se do percurso do PSD ou, acabar demitido num cenário de catástrofe (incumprimento e negociação de um segundo resgate). As opções não são boas - nem para o CDS nem para os portugueses - e o futuro não aparece risonho. Entre ‘romper’ agora com o ónus da dissensão ou ‘fugir’ mais tarde arcando a co-responsabilidade de mais um resgate, a escolha será sempre difícil e traumática.

Importante para os ‘centristas’ será calcular a dimensão dos danos já que neste momento tornou-se impossível sair incólume. Falta encontrar o pretexto. Este, a tomar em consideração os sinais vindos a público oriundos da actual maioria, poderá surgir a cavalo do veredicto do Tribunal Constitucional se vierem a confirmar as previsões de juristas e constitucionalistas. Até porque é politicamente conturbado e demolidor substituir as medidas em análise no TC por mais austeridade passível de ser avalizada pelo partido de Paulo Portas sem perder (mais uma vez!) a face perante o ‘seu’ eleitorado. Na verdade estamos na presença de um partido ainda não refeito da enorme subida de impostos no OE 2013 que foi obrigado a subscrever. A digestão tem sido lenta e, por enquanto, silenciosa, mas o problema relativo à sua base de apoio, subsiste.

Aliás, a análise que ontem terá sido iniciada no interior do CDS é um dos reflexos da instabilidade política oriunda no seio da maioria. Depois do ‘corte’ do PS com a actual coligação governamental seria obvio que a instabilidade se centrasse no seio das forças que a compõem.

Afinal, o cenário não é tão dramático como a porta-voz do PSD tentou ontem pintar sublinhando arrogante e despropositadamente que estariam em causa ‘mecanismos’ democráticos e até constitucionais. link. O que está a vir ao de cimo é a ilusória responsabilidade ‘colectiva’ num cenário onde tudo correu mal e que naturalmente deu cabo da ‘estabilidade’ interna. Por essa razão as personalidades mais alinhadas com o Governo, perante o impasse, pretendem deslocar as soluções para uma remodelação ministerial (que já terá perdido o timing e a oportunidade).

A moção de censura do maior partido da oposição corre o risco de chegar tarde muito embora acabe por anteceder a definição do CDS. De facto a apresentação da moção de censura está prevista para a próxima semana link. E a partir daí a AR tem 3 dias para a agendar. Esta moção é um iniludível sinal para os credores de que a cega insistência em políticas altamente recessivas e a permanente rejeição de metas de crescimento económico 'matou' todo o consenso político e social. Este será o maior dano em termos de confiança futura para o País que sofreu um veloz e dramático processo de 'ajustamento', vulgo, empobrecimento. Existe uma situação de anunciada ruptura mantida em incubação há vários meses e que disparou na ‘questão da TSU’ tendo assentado arraiais após a imponente manifestação de 15 de Setembro. A partir daí o Governo sobreviveu, mas estava ferido de morte. É por isso que a moção do PS aparece – aos portugueses - como inevitável e inadiável, apesar de conhecermos o desfecho imediato e de aparentemente ser inconsequente. Mas os políticos sabem que as moções – esta ou outras – nunca são assépticas. Podem não causar morte súbita, mas amolentam.

Todavia, o processo (político e partidário) não acaba aqui e há muito que deixou de transitar por Belém que envolvendo-se em silêncios e falsos distanciamentos perdeu, de todo, a capacidade de iniciativa e a possibilidade de influenciar a situação política e governativa. O PR continua a contemplar na sua torre de marfim a derrocada. Uma atitude sobreponível a do imperador Nero que, segundo reza a tradição,  dedilhava a harpa, enquanto Roma ardia à sua frente...

Outra ‘moção’ – esta envergonhada e silenciosa - deverá começar a ser desenhada a partir de 15 de Abril pelo CDS. Esse o resultado 'oculto' (ou ocultado) da reunião da comissão política do CDS realizada ontem.

Infelizmente para os portugueses e para a necessária e urgente clarificação política todos percebemos que o destino do actual Governo está a ser cozinhado em lume brando. Ou, talvez, em 'banho-maria'.

Imagem dos tempos que correm


Vítor Gaspar: a última argolada…

A 'crise de Chipre' já mereceu os mais diversos comentários da imprensa e de economistas. Não vale a pena prosseguir nas análises. Resta, cuidar dos 'salvados'.

Interessa saber como essa crise pode reflectir-se em Portugal. Na verdade, ao desestabilizar todo o espaço europeu – fragilizando o pilar económico através da quebra de confiança nas instituições bancárias – veio agravar o risco de incumprimento dos países europeus em dificuldades - Grécia, Irlanda, Espanha e Itália - e, obviamente, de Portugal.
De 6ª. feira passada até hoje (em 3 dias) esse risco terá subido 3 pontos percentuais (de 27,17 para 30,1%) link e os reflexos nas ‘celebradas’ idas ao mercado não demorarão a fazer-se sentir. Isto é, o único trunfo que este Governo se esforça em exibir perante os portugueses, já que os outros itens de ‘ajustamento’ foram pura e simplesmente destroçados e esmagados (equilíbrio orçamental, dívida pública, espiral recessiva, taxa de desemprego, etc.), terá sido comprometido pela decisão do ECOFIN, do passado fim-de-semana, acerca de um espúrio modelo de ‘resgate’ a aplicar ao Chipre. Decisão que Vítor Gaspar insensatamente terá subscrito em completo alheamento [desfasamento]dos interesses nacionais. Resta-lhe a consolação de que não esteve sozinho na 'argolada' e que, mecanicamente, estaria empenhado (condicionado) em prosseguir na senda do ‘bom aluno’ e, finalmente, terá valorizado como essencial o assentar arraiais como um fiel discípulo do ministro Shauble.

Crescem fundadas dúvidas sobre a capacidade técnica do actual ministro das Finanças para levar a cabo o ‘programa de ajustamento português’, já que todas as previsões evolutivas têm saído ‘furadas’ e o País afunda-se velozmente num mar de recessão que o levará inevitavelmente ao incumprimento (é uma questão de tempo).
Acrescem, agora, a estes problemas a total inépcia política do ministro e a enorme insensibilidade económica e financeira na abordagem das complexas questões europeias.

O que podemos esperar de quem acumula erros atrás de erros?

Há 600 anos que não víamos um par de papas.


sábado, março 23, 2013

O radicalismo neoliberal no seu esplendor…

A comissão política nacional do PS decidiu apresentar uma moção de censura ao Governo para ‘selar’ uma anunciada ruptura com a actual coligação governativa. link

Trata-se do epílogo de uma longa discordância (mais de 1 ano) à volta da interpretação e execução do Programa de Assistência Financeira a que o País está sujeito e que foi agravada com os resultados (conhecidos!) decorrentes do 7º. ‘exame’ regular da troika.

O PS, desta vez, tomou medidas cautelares visando assegurar a gestão da agenda política e decidiu –  bem – não apresentar uma moção ad hoc, elaborada em cima do joelho. Acto político que - independentemente dos pressupostos e inevitáveis taticismos - suscitou ampla concordância de toda a Esquerda, facto que, como sabemos, não é comum em Portugal.

Hoje assistimos estupefactos a uma violenta catilinária da deputada e vice-presidente do PSD – Teresa Leal Coelho – sobre este facto, mostrando à saciedade como a metodologia e a oportunidade para a apresentação desta moção de censura está a perturbar o maior partido da maioria. link

Aliás tudo começa antes. Isto é no Parlamento. O PSD classificou ab initio – pela voz do seu líder parlamentar link - esta moção de ‘não consequente’ e embalado na onda crisma-a de ‘não-patriótica’. É assim: será ‘não consequente’ mesmo antes de conhecer a sua fundamentação concreta e ‘não patriótica’ porque – faltou dizê-lo – o patriotismo deve ser entendido como uma exclusiva prerrogativa da Direita.

Mas a ‘berraria’ de Teresa Leal Coelho atingiu os limites do imaginável. Para essa deputada - que apareceu a fazer declarações em representação do PSD - o líder do PS ao anunciar a moção de censura, e da maneira como o fez, teria colocado em causa valores constitucionais. Esqueceu-se de dizer quais.
Provavelmente – e para continuarmos a falar de valores constitucionais – dentro em breve (segundo é expectável) teremos esta senhora a perorar sobre eventuais ‘violações constitucionais e orçamentais’. Mas isto é um mero alvitre.

De resto, a declaração de Teresa Leal Coelho, produzida hoje, constitui um marco das incomensuráveis potencialidades da intolerância política, tornando visível - para os portugueses - a macabra faceta de até onde pode chegar o radicalismo neoliberal, quando perde o controlo da agenda política e, de imediato, resvala para uma vergonhosa chicana partidária travestida por uma pretensa máscara institucional. 

Os novos partidos e a choldra

Negar o direito de criar novos partidos é uma atitude reacionária de quem tem interesses a defender ou favores a pagar. A democracia é um decurso dialético que exige mudança, saltos qualitativos na forma de pensar, agir e resolver os problemas que surgem.

Julgo errado que o Tribunal Constitucional dificulte o aparecimento de novos partidos e a possibilidade de novos atores entrarem na cena política. Os partidos, tal como os seres vivos , nascem, crescem e morrem. É da natureza das coisas que assim aconteça, salvo razões jurídicas que justifiquem uma decisão contrária.

Curiosamente, assisto à euforia com que algumas personalidades que viveram à sombra dos atuais partidos, perdidas as sinecuras, se lançam em novas aventuras, à espera das oportunidades que um novo partido lhes possa oferecer.

Com idealistas generosos, vogam, entre a utopia e o ressentimento, pulhas oportunistas.
O barco da utopia leva marinheiros de águas doce e de águas turvas, marujos capazes de enfrentar a procela do mar e ratos que esperam o naufrágio para mudar de embarcação.

Há os idealistas e a choldra. É a vida.


TEIMOSIA PATOLÓGICA



Como se não bastassem os gravíssimos problemas que afligem o País, agora o primeiro ministro Passos Coelho vem apresentando inquietantes sintomas de não estar no pleno gozo das suas – já de si diminutas – faculdades mentais.

Está à frente do governo há quase dois anos, e nesse período a crise económica e financeira não fez senão agravar-se, em todos os aspetos: a economia está completamente destruída; o desemprego aumenta de dia para dia; jovens e menos jovens, cada vez em maior número, veem-se obrigados a emigrar para tentar ganhar o pão que em Portugal lhes é negado; as insolvências, de pessoas e de empresas, aumentam exponencialmente; a classe média empobrece, e os pobres caem na miséria.

Apesar de todos estes sacrifícios – ou se calhar por causa deles – o governo não consegue atingir nenhuma das metas que se propôs: o défice não diminui significativamente; a despesa pública – ainda ontem isso foi noticiado – em vez de diminuir aumenta. A receita fiscal, apesar do “enorme aumento de impostos”, aumenta insignificantemente, se é que não baixa, devido à diminuição do consumo e à redução da base tributável resultante das falências, da quebra dos lucros das empresas e dos rendimentos das famílias. Enfim, o falhanço é total.

Mesmo nas hostes afetas ao governo toda a gente reconhece, de forma mais ou menos velada, e com justificações esfarrapadas, o indisfarçável fracasso. Desde o Presidente da República até ao próprio “mago das finanças” Vítor Gaspar. Até a troika retirou ao governo o diploma de “bom aluno”.

Toda a gente... menos o primeiro ministro. Este continua a repetir, como um papagaio, que “vamos tirar Portugal da crise”. Ainda há dois ou três dias o disse, em altos berros, no Parlamento. E o pior é que parece estar mesmo convencido disso. Ora, se assim é, trata-se de puro delírio; Passos Coelho vive num mundo só dele, completamente desligado da realidade. E isso releva do foro psiquiátrico.
Só nos faltava mais esta...

Portugal, o PR e as alternativas ao Governo


Se, como é de presumir, o tribunal Constitucional, vetar o OE-2013, face à reincidência do atual Governo no desprezo pela CRP, torna-se inevitável  saber o que pensa o PR da situação, no improvável caso de pensar, e na obrigatoriedade de tomar uma decisão.

Não se lhe exige a euforia com que convidou o Papa Francisco a visitar Portugal, em 13 de maio de 2017, a pretexto do centenário das alegadas aparições da vigem que saltitou nas azinheiras da Cova da Iria, anormalidade em que Sua Excelência crê, sem imaginar que, na data aprazada, já terá sido despejado de Belém, há mais de um ano.

Exige-se-lhe, por imperativo constitucional, que informe os portugueses da situação do País e não das dificuldades económicas pessoais, do que pensa do governo e não do sorriso das vacas dos Açores, da decisão que vai tomar e não do seu estado de alma.

Portugal passa por uma situação conturbada a que a turbulência financeira internacional não é alheia, bem como a astenia económica europeia e a migração do fulcro económico mundial para a área do pacífico. O radicalismo ideológico do atual governo e a agenda extremista que escondeu na campanha eleitoral não terminou na apoteose augurada pelo ministro das Finanças mas na tragédia de um milhão de desempregados, na destruição do tecido económico, no aumento da dívida pública, na fuga de capitais, na redução do PIB e, paradoxalmente, na asfixia fiscal da classe média, em vias de extinção.

Depois de ter ganho a título vitalício, por mérito próprio, o direito de ouvir a Grândola em todas as deslocações, é altura de se sujeitar a ser entrevistado por um jornalista não hipotecado ao PSD e de fazer ao país uma comunicação sobre a tragédia que nos atinge enquanto, em silêncio, trabalha 14 horas diárias em Belém. Até ao fim de semana.


sexta-feira, março 22, 2013

A RTP, Sócrates e as petições


Não assino nem assinarei qualquer petição a favor ou contra a colaboração de Sócrates no canal público, tanto mais que a presença pro bono me retira o único argumento que teria se fosse exorbitante o pagamento.

Há por aí um ódio larvar contra o ex-PM, que foi eleito duas vezes e julgado à terceira com uma derrota eleitoral. Há de ter certamente coisas interessantes a dizer e só não aceito que alguém seja obrigado a ouvi-lo.

Costuma ser mimoseado com injúrias sem que alguma vez tivesse sequer sido arguido, quanto mais condenado por crimes que a opinião pública lhe atribui. Oiço dele coisas que nem do árbitro oiço ao domingo, no café do meu bairro, quando o Benfica perde.

Santana Lopes, que nunca foi eleito para PM, mal fez as férias de nojo da passagem infeliz pelo Governo, passou a ser comentador e presença habitual nas televisões e – diga-se – é melhor comentador do que governante. Marcelo é um intriguista simpático e mentiroso, experiente e empático, mas ninguém lhe nega o direito de ser comentador. Eu oiço-o com agrado. Marques Mendes, depois da passagem, como empregado do Sr. Coimbra, ex-vice-presidente do PSD, entrou-me na sala da televisão sem que eu me incomodasse.

Ministros fascistas de Salazar e Caetano, colaboradores da Pide e outros saprófitas da ditadura, passam pela televisão sem alarido. Se amanhã, depois de sair de PR, Cavaco quiser usar a telegenia no ecrã não perderei o primeiro programa, seja qual for o canal.

Por que raio Sócrates não há de poder comunicar com o país? Há de fazer pior a Seguro, o Passos Coelho do PS, do que ao PSD e a esse adereço extremista – o CDS – a quem o atual PM, na sua inépcia e radicalismo conferiu uma imagem de moderação.

Já é tempo de aprendermos a conviver com a diferença. Até com este PR.

quinta-feira, março 21, 2013

COM QUEM ESTAMOS METIDOS...




http://expresso.sapo.pt/justica-francesa-aperta-cerco-a-christine-lagarde-no-caso-tapie=f790579


Nota: por enquanto presume-se inocente

O Governo português no funeral de Chipre


O Governo português no funeral de Chipre

O Governo português, formado por um conjunto heterogéneo de indigentes intelectuais de parcas habilitações académicas, politicamente formatados nas escolas das juventudes partidárias e nas suas universidades de verão, com académicos reputados, sem a menor sensibilidade política, teria de produzir uma comissão liquidatária do que resta do País.

Unidos por um ódio patológico a tudo o que cheire a herança do 25 de Abril, a direitos dos trabalhadores e a datas relacionadas com a liberdade, imbuídos de ódio cego a tudo o que cheire a socialismo ou onde o adjetivo social apareça, deitaram fora as promessas eleitorais do mais néscio governante desde a ditadura de Pimenta de Castro, empossado como primeiro-ministro, e apostaram fazer de Portugal um laboratório neoliberal, quiçá como exemplo para os outros países, «custe o que custar».

O PR, culpado da sua chegada ao poder , talvez impelido pelo ódio ao líder do governo anterior , mantém muda cumplicidade, por essa razão ou outra que a razão desconhece.

Com o metódico e clamoroso falhanço de todas as previsões do ministro das Finanças, com o desemprego a atingir a tragédia e a pobreza a vergonha, só faltava saber que o ainda ministro do ainda Governo, ainda aparentemente chefiado por Passos Coelho, assinasse o plano de resgate ao Chipre, com uma cláusula insólita e iníqua.

O plano do resgate de Chipre exigia a aplicação de uma taxa de 6,75% sobre o valor dos depósitos até 100 mil euros (valor garantido pelo Estado, até na eventual falência dos bancos) e de 9,9% em depósitos acima de 100.000 euros. Este roubo que é diferente do dos assaltantes com máscara e armas, só se distingue dos roubos informáticos porque os autores são conhecidos e usam a assinatura em vez do saber informático.

A pulhice feita a Chipre, recusada pelo Parlamento, é a experiência laboratorial para servir de exemplo a outros países. Surpreende que na baixeza feita a um pequeno país, o ministro Gaspar não visse que assinou antecipadamente o castigo que nos reserva.

Nunca tão poucos fizeram tanto mal, em tão pouco tempo, a tanta gente.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, março 20, 2013

Pide - Factos e documentos

Amável cedência de M. P. Maça

O Iraque e as lutas internas


Na impossibilidade de levar a julgamento os quatro que, nas Lajes, traíram a verdade, o direito e a ética, para executarem o plano gizado previamente pela dupla Bush/Dick Cheney, o desprezo seria o lenitivo para a raiva e o nojo que sentimos, mas os efeitos colaterais não nos deixam em paz.

A ditadura de Saddam, ao contrário das teocracias vizinhas, tinha um cristão ministro e um Estado laico. Judeus e cristãos suportavam a ditadura e não eram molestados pelas crenças. Agora são já residuais, e em vias de extinção, perante o totalitarismo islâmico.

Destruído o país, após a matança que não poupou os próprios invasores, o Iraque virou campo de treino do terror islâmico e o Irão emergiu como potência regional e nuclear.

Da promessa de democratização, usada para consumo da opinião pública, não mais se ouviu falar. Apareceu uma nova Constituição que assimilou o Islão que, como é sabido, estima equitativamente a democracia e o toucinho.

O que se apresentou como ingerência humanitária foi um crime contra a humanidade, onde não faltaram a tortura, prisões arbitrárias e a destruição maciça de um país.

Bush, desonrado, regressou ao Texas onde sempre pode voltar ao álcool; Blair dedica-se aos negócios; Aznar anda por aí a dizer inanidades e em tráficos marginais; só Barroso ainda flutua com a conivência de velhas e novas amizades. Os cúmplices desapareceram e Berlusconi apenas se mantém na política para escapar à prisão.

A infâmia da agressão ao Iraque tem sido denunciada mas faltava ainda a mãe de todas as torpezas, corrupções e pulhices, após a vitória na mãe de todas as batalhas: faltava o enforcamento macabro de Saddam, a transformação do Iraque em campo terrorista onde o dinheiro desaparecido pode ter ultrapassado 50 mil milhões de dólares e o valor real jamais será esclarecido.

Na décimo aniversário da invasão, os iraquianos matam-se por vontade de Alá, entre as ruínas do país dilacerado por um bando de cristãos. E entregam-se às rivalidades tribais, xiitas e sunitas, assinalando o 10.º aniversário da invasão com uma onda de atentados.

Não carece de tradução


O clero e a luta política

Quando o clero combateu a República já trazia da monarquia o vício reacionário de combater as ideias progressistas. Mas só na República inventou Fátima.

Doc. gentilmente cedido por M. P. Maça

terça-feira, março 19, 2013

Duas mulheres, dois países



Quando a lógica é uma batata… e as contradições gritantes.


O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schauble, face à indignação europeia (e não só cipriota) perante o assalto aos depositantes nos bancos de Chipre, tentou justificar o injustificável. … link

Em Dezembro de 2012 a UE, depois de muitos meses de negociações, criou o mecanismo único de supervisão bancária sob os auspícios do BCE. Este seria o primeiro passo para uma efectiva união bancária. Quando tomou estas decisões conhecia o ‘problema cipriota’. Aliás, por curiosa coincidência, o Chipre nessa mesma altura assumia [formalmente] a presidência rotativa da UE.

A UE fechou-se em copas. Aparece agora este grande timoneiro das finanças europeia a pretender denunciar ‘paraísos fiscais’ no seio da UE. Tarde e a más horas. Não se trata de um problema específico das oligarquias financeiras. O Chipre parece ser um local de refúgio para essas ‘máfias do dinheiro’ mas, antes disso, é habitado por europeus. O ‘assalto’ às contas bancárias não é cirúrgico, nem dirigido aos depósitos suspeitos. Pretendia abranger tudo e todos. Se existisse a tal responsabilidade que Schauble aparece pressuroso a invocar, como se fosse uma justificação, seria pertinente que este paladino do rigor e da austeridade, delineasse os planos para combater os paraísos fiscais (pelo menos no espaço europeu já que a nível global é uma utopia).

Na verdade, como foi noticiado na altura, o mecanismo de controlo bancário europeu foi especificamente desenhado para retirar os bancos regionais alemães da supervisão do BCE. link. Bancos regionais – públicos - onde os compatriotas de Schauble depositam as suas poupanças e que, por exemplo em 2008, se encontravam à beira do colapso, por 'irresponsável' envolvimento em manobras especulativas, aliás, nunca totalmente esclarecidas link.
Entretanto, os ‘ajustamentos’, os ‘regastes’ e a especulação sobre os 'perdulários' povos do Sul já os devem ter safo da aflição em que se meteram… Os cipriotas é que devem ser punidos exemplarmente. Esta a 'ética' do actual poder financeiro.
A crise das dívidas tem dado muito pano para muitas mangas…

Karl Marx, esquecido quando se torna obrigatório lembrá-lo



Karl Marx foi o mais brilhante economista do século XIX e o mais influente do século XX. Menos de três meses depois da sua morte nasceu John Keynes. Sem eles, nem a história nem a prática da economia seriam as mesmas. São os dois grandes nomes do pensamento económico mundial.

Passaram, há 5 dias, 130 anos sobre a morte de Karl Marx. Não vi um só jornal ou revista que assinalasse a efeméride.

Marx nasceu em 5 de maio de 1818 e morreu em 14 de março de 1883.

Nesse dia, Passos Coelho disse uma qualquer inanidade e Cavaco não saiu do Palácio de Belém e a comunicação social não pode escrever sobre tudo.

segunda-feira, março 18, 2013

A união Europeia e o Chipre


As decisões da União europeia, em questões financeiras, são tão idiotas que até Cavaco Silva é capaz de dizer coisas sensatas.

Bailout em Chipre: a factura lusa…

Passadas as ondas de choque imediatas voltemos à questão do resgate do Chipre, do confisco das contas bancárias e tentemos equacionar previsíveis e imediatas consequências em Portugal.

Este incompreensível e leviano procedimento constitui um pesado choque na globalidade da política financeira e fiscal europeia. Na verdade a UE vivia desde o final do Verão passado - quando Draghiameaçou’ intervir nos mercados secundários link – um período de relativa e efémera acalmia que serviu, por exemplo, para Passos Coelho e Vítor Gaspar se vangloriarem de uma feliz ‘ida aos mercados’, em despudorada apropriação de um êxito que, na verdade, não lhes pertencia.

A resolução do Ecofin deste último fim-de-semana deu cabo dos esforços do Banco Central quanto à estabilização da zona euro de uma maneira desvairada e abrupta. Se já tínhamos a noção que Mario Draghi, sozinho, não conseguiria ‘salvar’ o euro, a partir de agora temos a certeza de que os políticos europeus lhe passaram uma ‘rasteira’, torpedeando esses esforços. Mais, é totalmente irresponsável que Portugal (representado nessa reunião por Vítor Gaspar) tenha dado o seu agreement a este tipo de bailout quando o nosso País se encontra sob as terríveis condicionantes de um ‘programa de assistência financeira’ e exposto a todas as voracidades do capital financeiro. Se existisse necessidade de provar o servilismo deste Governo não seria necessário procurar mais.

Num ápice destruiu-se a confiança no sistema bancário europeu, esteio fundamental da moeda única (euro). Mas as consequências não ficam por aqui: o risco de contágio é elevadíssimo e será de esperar uma massiva fuga de capitais dos países da eurozona, retirando liquidez às economias (já debilitadas). Na ânsia de capturar uns projectados 5.000 milhões de euros ‘esmagaram-se’ os pequenos aforradores para quem qualquer cêntimo conta. Depois deste dislate financeiro e deste expurgo fiscal os políticos europeus deveriam ser proibidos de falar em 'poupanças'.

Os ‘mercados’, que passam a vida a antecipar cenários, nos próximos dias farão as contas e deduzirão consequências relativas a um inevitável empolamento da crise de confiança nas instituições financeiras (que larva desde os subprimes e da falência do Lehmon Brothers). Todavia, a crise não se detêm no campo financeiro e invade de modo devastador o terreno político. A saloia e indecente manobra de tentar aplicar no Chipre uma taxa de 6,75 % sobre o valor dos depósitos até 100 mil euros e de 9,9 % para depósitos acima daquele montante, se o Parlamento cipriota amanhã o aprovar (o que ainda não é líquido), pura e simplesmente, inviabiliza a União Europeia.

Não seria de estranhar que Chipre comece a fazer marcha atrás em relação ao projecto europeu e acabe – a curto prazo - abandonando a UE, abrindo com este gesto um mar de incertezas e de nefastas consequências com um alcance imprevisível (até para os senhores e as senhoras do Ecofin).

Deste modo, devem os portugueses interrogar-se se serão coerentes, justos e necessários os tremendos sacrifícios que têm sido impostos com o fim último de permanecer no Eurogrupo, uma colectividade de Estados em vias de desmembramento, devido à inépcia de uns políticos e aos insaciáveis e apressados apetites do capital financeiro dos Países do Norte e Centro da Europa. Mais, as turbulências que este inqualificável saque poderá provocar nos mercados (bolsistas e da dívida) podem comprometer o antecipadamente ‘festejado’ regresso aos mercados de Portugal. E de uma penada o Governo de Passos Coelho será esvaziado do único facto positivo que pretendia exibir no contexto do programa de ajustamento. Gaspar deveria saber que um mal nunca vem só. E que mais cedo do que tarde a factura desta iniquidade lhe poderia bater à porta.

Hoje, o emudecido e ausente Presidente da República – em piedosa peregrinação pelo Vaticano – resolveu inusitadamente apelar ao bom senso link, ingrediente que não tem exibido em relação à dramática situação nacional. E o distante Governador do BdP apressou-se a declarar que a tributação extraordinária que foi decidida em relação Chipre, não se aplica a Portugal link.
É assim: nós não somos a Grécia, não somos o Chipre, etc. Onde existirem problemas, nós não somos. Talvez não sejamos nada, nem ninguém. Ou então, talvez sejamos os ‘romeiros’ da Europa.

As únicas coisas que podemos assumir ainda ser entroncam-se na cega fidelidade à Srª. Merkel e ao Sr. Schäuble. De resto, promotores da selvajaria que entranha e empesta este baillout cipriota. Não é um grande cartão-de-visita. Aliás, a postura deste Governo no concerto das Nações e mesmo no espaço europeu, só nos envergonha...mas disso a Frau Merkel não tem culpa. É só beneficiária!

De repente, sinto medo

De repente, sinto medo. Não por mim, que já estive 52 dias em coma profundo gozando as «delícias do nada», não pelos que já tiveram da vida o seu quinhão e, muito menos, pelos que se repoltrearam à solta na gamela do orçamento, mas pelos que vão herdar as dívidas que deixamos, sem a água, o ar e a energia que estafámos na orgia do consumo.

Deixámos que a bomba demográfica explodisse, com 8 mil milhões de pessoas, quando o Planeta só consegue sustentar metade e sem as assimetrias que se consentiram.

Quando a fome vitimava centenas de milhares de crianças, longe das nossas fronteiras, quando a malária e a sida dizimavam o continente a sul da Europa era-nos indiferente o seu destino e a angústia das mães que tinham de escolher os filhos mais robustos para as acompanharem à procura de água e de comida.

Permitimos que o sistema financeiro se tornasse o deus do nosso futuro, tão insensível e perverso como aquele que os homens inventaram na Idade do Bronze. De repente, em Portugal, transformado num laboratório de experiências neoliberais, à mercê de agiotas e vampiros, sentimos que as últimas promessas que nos fizeram eram mais falsas das que outros já nos tinham feito.

Embalados no ódio e ressentimento clubista dos partidos da nossa perdição, sentimo-nos abandonados no mar da incerteza e na fogueira onde ardem as últimas ilusões das mais recentes mentiras.

Podemos arranjar bodes expiatórios, gritar contra os agiotas, injuriar os néscios que nos governam, mas não vejo propostas viáveis para nos libertarem do labirinto do desespero em que nos lançámos.

Digam-me quem nos emprestará dinheiro para a comida e os medicamentos quando nos cansarmos dos agiotas que já lá têm, hipotecado, o destino dos nossos filhos. Não basta dizer o que não queremos, urge saber o que podemos fazer. E ninguém nos diz. Gritam-se slogans, insultos e vaias enquanto os campos morrem, secam os rios e arde a floresta.

De repente, sinto medo.