Angola e as eleições de 2017...

As eleições angolanas não trouxeram ao ambiente político imediato qualquer tipo surpresa, nomeadamente quanto à vitória do MPLA link. Contudo, este acto cívico está pejado de mensagens encriptadas.
 
A posição dominante do MPLA está a sofrer os efeitos de uma imparável usura resultante do exercício do poder ou melhor do modo como tem sido exercida a governação ao longo de quatro decénios. Se o ritmo das perdas se mantiver – e o mais provável é agravar-se - este poderá ser o último mandato em que o MPLA exerce numa posição hegemónica a governação de Angola.
Sendo assim o presidente eleito – João Lourenço - será necessariamente um líder efémero a exercer um mandato de transição.
 
Fica no ar se esta mudança que vem sendo paulatinamente anunciada pode vir a representar uma insanável perturbação da estabilidade reinante no País desde a morte do dirigente da UNITA (2002).
 
A estabilidade social será o mais importante facto político legado por José Eduardo dos Santos aos angolanos e angolanas, na sequência de uma traumática guerra civil. Esta estabilidade nasce da mudança de rumo operada, em 1990, quando o MPLA decide ajustar o regime aos tempos pós-queda do muro de Berlim e abandonar a via marxista-leninista, promovendo aquilo que foi designado como 'reformas políticas e económicas' link.
No campo político esta mudança trouxe como consequência, a médio prazo, o fim da guerra civil (tornou o papel da UNITA redundante e descartável) e, depois, a estabilização e consolidação da soberania nacional. Todavia, no terreno económico, gerou graves problemas e assimetrias (que não cabe aqui analisar) mas que favoreceram uma oligarquia (económica e financeira), pós-colonial, que tem parasitado o Estado, à sombra de uma imensa mancha de pobreza.
 
As ‘sequelas do colonialismo’ - que têm sido eleitoralmente capitalizadas pelos movimentos independentistas angolanos - estão a perder peso político e, por exemplo, a FNLA que teve um papel de relevo no desencadear da guerra de libertação desapareceu literalmente do mapa político nacional.
 
A UNITA continua ‘amarrada’ a cerca de um quarto do eleitorado mas esta situação de impasse tem motivações adicionais e paralelas, entre elas, a perpetua ‘orfandade de liderança no pós-Savimbi’ e a existência de abundantes resquícios tribais. Por outro lado, sempre foi difícil escrutinar uma linha ideológica clara para este movimento independentista incapaz de ultrapassar questões centradas na ‘salvação nacional’ e num nacionalismo serôdio.
 
Finalmente, a CASA-CE não conseguiu impor-se ao eleitorado – cada vez com menos memória da guerra colonial – e não revela uma implantação na sociedade porque mais carece de um projecto político e ideológico transparente. Na realidade, a CASA-CE mais parece uma dissidência da UNITA e mostra-se incapaz de aliciar o eleitorado jovem, já amnésico em relação à luta de libertação, e com novos focos de interesse (presentes e futuros).
 
João Lourenço está, aparentemente, incapacitado de voar por conta própria. A não ser que se verifique o desaparecimento físico de José Eduardo dos Santos (facto que tem sido repetidamente levantado na comunicação social).
Mas mesmo que possa exercer a sua presidência com autonomia relativa e num clima de liberdade tem uma pesada carga aos ombros. Primeiro, garantir a unidade interna no MPLA e preservar a estabilidade social que apesar de alguns percalços repressivos representa o mais valioso património herdado e, em segundo lugar, e mais problemático ainda, resolver duas questões que actuam sinergicamente:
1º) pugnar por uma melhor redistribuição da riqueza que passará inevitavelmente pelo ataque a uma oligarquia reinante, corrupta e parasitária da anterior presidência, com apetites absorventes e envolventes;
2º) para além disso, necessita de promover a diversificação económica, libertando o País da asfixiante tutela petrolífera.
 
Uma pesada herança não só para João Lourenço mas para o povo angolano. Não é nítido, após o acto eleitoral de 23 de Agosto, se é possível iniciar uma nova caminhada ou se vamos assistir ao estertor de um velho ciclo.
Se uma nova caminhada poderá acarretar novas e eventualmente graves perturbações, o prolongamento do ‘velho ciclo’ afirma-se, desde já, como desastroso.

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