A Igreja é uma instituição politicamente neutra?

 Por

ONOFRE VARELA -- Vice-presidente da Associação Ateísta Portuguesa

A Igreja é uma instituição

politicamente neutra? 

semanário Alto Minho, na sua edição do dia 2 de Junho último, dedica uma página à notícia protagonizada pelo padre Tiago Rodrigues (não confundir com Tiago Brandão Rodrigues, ministro da Educação!), pároco de Cardielos, Serreleis, Torre e Vila Mou, em Viana do Castelo.

jornal divulga que o sacerdote não quer que “os leigos com nomeação episcopal se envolvam nas eleições autárquicas deste ano” e diz ter tomado tal posição para que “a neutralidade da Igreja seja mais visível e concreta”.

Naturalmente que a posição do padre Tiago só pode causar polémica numa sociedade democrática aberta a todas as tendências políticas e religiosas como, saudavelmente, é a nossa. Perante as primeiras críticas da população à sua atitude, o padre apressou-se a esclarecer que não pretende proibir ninguém de se envolver nas eleições. Apenas “declara que os membros da Fábrica da Igreja, Confrarias, Direcção e Conselho Fiscal do Centro Social e Paroquial” não devem integrar quaisquer listas concorrentes a eleições, sejam autárquicas ou parlamentares. Mas se “entretanto, optarem por integrar alguma corrida eleitoral, devem suspender as suas funções nos cargos paroquiais”.

Esta sua atitude pode parecer inserida numa lógica de “não infectar” a Igreja com procedimentos alheios ao culto… porém, o culto que o senhor padre Tiago Rodrigues representa, está infectado desde os seus princípios, em tempos medievais, enquanto modo de prender os crentes aos interesses da instituição através do medo à punição divina.

Contrariando o padre, um político local, com toda a legitimidade de cidadão numa república laica que se rege por uma Constituição democrática moderna, acusou o sacerdote de estar “a condicionar direitos, liberdades e garantias num acto eleitoral”, e considerou a posição do sacerdote como uma “interferência brutal nunca antes vista”.

A notícia do semanário Alto Minho obriga-me a interrogar:

A Igreja Católica, enquanto instituição, é politicamente neutra?…

Eu tenho a resposta: Não!… Enquanto agente social, a Igreja faz política.

A atitude do padre Tiago Rodrigues é uma atitude política.

O Homem é, essencialmente, político… e a Igreja é feita por homens. Todas as atitudes sociais tomadas por sacerdotes são atitudes políticas, incluindo a proibição decretada pelo senhor Tiago Rodrigues.

Desde sempre a Igreja foi uma instituição política, criticando governos… e pior ainda (para mim que sou de Esquerda) quando essa crítica é dirigida a atitudes políticas de Esquerda, enaltecendo atitudes políticas de Direita, como é o caso das leis da interrupção da gravidez e da eutanásia.

A Igreja (enquanto instituição) usa o púlpito para defender ideais políticos de Direita, atacando ideais de Esquerda. E quando no seu seio algum sacerdote de índole mais humana fraterna, atento à História política do país, assume discurso diverso do oficialmente decretado pelos mandantes do credo (o Vaticano)esse sacerdote corre o risco de expulsão, como aconteceu com o padre Mário de Oliveira, da Lixa (lixaram-no!...).

quando no Vaticano há um papa como Francisco I, atento à sociedade, usando discursos inabituais, a Santa Sé transforma-se num ninho de víboras que esperam ver Francisco I substituído na cadeira de S. Pedro.

que na Igreja se faz é política, e o culto é uma arma… muitas vezes letal… se hoje já não protagoniza actos como a queima dos infiéis na fogueira… move-se nos bastidores do mundo, conseguindo impor vontades que nunca (ou raramente) são as aspirações da generalidade dos povos crentes, obedientes e tementes!…

 (O autor não obedece ao último Acordo Ortográfico)

OV

Comentários

Jaime Santos disse…
É evidente que a Igreja não é uma instituição politicamente neutra porque defende um sistema de valores que a situam claramente no campo ideológico da Direita. Aliás, a Direita dita Social-Cristã (em declínio profundo, tal como a Social-Democracia, nos respectivos Partidos que as representavam) inspira-se na Filosofia Social da Igreja.

Mas confesso que me irrita esta tentativa por parte de certos ateus de quererem reduzir a prática religiosa a um mero ato privado, que depois não teria qualquer reflexo na ação dos crentes, incluindo naqueles que participam na política.

Como já disse mais do que uma vez, as pessoas socialmente conservadoras não irão a lado nenhum. A Esquerda terá que continuar a combater as suas ideias, mas deve abdicar da esperança. que tem laivos autoritários, de que elas deixarão de fazer refletir a sua crença no seu modo de fazer política.

A atitude do Padre, longe de revelar hipocrisia, o que revela ao invés é um saudável desejo de separar as águas.

Aqueles que desejarem concorrer a eleições, devem suspender a atividade nos cargos paroquiais. Isto serve à Igreja e serve à política, evitando conflitos de interesse no caso em que as pessoas sejam eleitas e assumam funções políticas. O que ele deveria ter evitado era justificar essa atitude com um alegado desejo de neutralidade, que a Igreja não pode ter pelas razões que apontei.

Finalmente, vir chamar a queima dos infiéis à colação só destrói aquela que poderia ser uma crítica legítima, não tivesse ela usado um pretexto espúrio...

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