Poeira Não é para que me leias, Que verto neste papel O sangue das minhas veias. Se me leres, é coincidência. É porque o destino impele, Sem a minha conivência, Por trilhos indesejados, Esses versos mal rimados, Letra por letra inspirados Na raiva da sua ausência. Escrevo não sei a quem, Nem porquê, nem com que fim. Mas sinto que me faz bem, Se a sós contigo converso, Traindo o que vai em mim. Gosto de escrever em verso, P’ra mentir mais à vontade, Para ocultar a verdade, Que há por trás da tempestade Em que a rimar me disperso. Eu sei lá por que é que escrevo! É talvez uma defesa. Só escrevendo me atrevo A vencer a timidez Da minha eterna incerteza. Vivo à mercê de um Talvez, Que é talvez o desespero De não saber o que quero E forçado a ser zero À espera da minha vez. E ao sabor da consonância, Escrevo e não digo nada. É um murmúrio à distância, Uma vibração sem onda, Uma mensagem cifrada. É possível que eu me esconda, Na poeira do que digo, Só para não correr perigo De encontrar alg...