Eu e as greves

A ditadura fascista foi mais determinante na minha formação cívica do que a preparação cultural. Saboreia melhor a liberdade quem sentiu a repressão, e deseja mais a paz quem fez a guerra.

A greve, um direito dos trabalhadores, era o ódio privilegiado do salazarismo, a decisão que lhe despertava mais raiva, que prevenia com maior empenho ou reprimia com mais brutalidade.

A defesa do direito à greve terá sempre em mim um apoiante, mas não serei neutro em todas as greves, acrítico em relação às suas motivações, não as isentando do escrutínio da opinião pública e do confronto com outros direitos.

Tenho sido prejudicado por algumas greves, e jamais as condenaria por rezões pessoais. Foi o caso de ontem.

Dirigi-me ao CHUC a fazer análises para uma consulta relevante da próxima terça-feira, e os técnicos estavam em greve. Quando estava a ser informado da situação, outro septuagenário desabafou, a meu lado, que no tempo de Salazar não havia greves. Pois não, nem assistência médica, retorqui-lhe ainda. E saí, sem azedume.

Não fiz nem farei recriminações por uma decisão dos trabalhadores de que desconheço as razões e a razoabilidade. Fui a um laboratório particular e só quando paguei cerca de uma centena e meia de euros, dei conta de que a minha opção não esteve ao alcance de centenas de utentes que tiveram a minha sorte, depois de doze horas de jejum.

Ah! E vim para casa a pensar de onde seriam os utentes do SNS cujas análises ficaram por fazer e a imaginar se os legítimos direitos dos trabalhadores serão compatíveis com a manutenção da maior conquista de Abril – o SNS.

Passarei a andar mais atento. Entretanto, vá lá saber-se porquê, pensei nas greves dos mineiros ingleses que mereceram a minha simpatia, na derrota que tiveram e me deixaram desolado, e na funesta consequência para todos os trabalhadores – a subida ao poder da Sr.ª Thatcher, uma desgraça à escala planetária, em aliança com Reagan.

Acontece que há greves apoiadas por quem gostaria de suprimi-las e estimuladas por quem deseja a falência do que é público. Longe de mim pensar que foi o caso.

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