Independência da Catalunha – Porque não…

Sei o suficiente da História da Catalunha para compreender o desejo independentista de metade dos catalães, e sei ainda mais da História europeia para temer as alterações das fronteiras e a facilidade com que qualquer demagogo faz vibrar as cordas do bairrismo paroquial que, em maior dimensão territorial, se transforma em nacionalismo.

Sei o que o franquismo fez à Catalunha, que lhe proibiu a língua, assassinou milhares de cidadãos, incluindo três bispos, assassinato silenciado durante décadas, e que não foram canonizados, por terem sido mortos pelos bons, e sei que uma convulsão na Catalunha redundaria num terramoto sangrento das atuais fronteiras das nações europeias.

Sou contra a independência catalã pela mesma razão que fui contra a eslovena e croata, que nunca perdoei a Helmut Kohl e João Paulo II, embora do primeiro até tivesse boa impressão. Os dois países de passado marcadamente fascista fizeram parte da expansão comercial alemã e foram as repúblicas católicas que iniciaram a sangrenta desagregação jugoslava, com a União Europeia a reboque da Alemanha e do Vaticano.

Sou contra o reconhecimento da Catalunha como país independente porque recuso que o resto de Espanha não seja consultado e que uma maioria simples e escassa de deputados catalães, que representam menos de metade dos votos expressos, possam acompanhar a aventura do político pusilânime que abandonou o governo sob pretexto de obter apoios improváveis de países que não sondou.

Recuso a independência da Catalunha pela mesma razão que sou contra a do Kosovo, o offshore da droga e do treino terrorista islâmico cuja secessão teve a cobertura cobarde da União Europeia contra a legítima soberania sérvia, empurrada pelos EUA.

O problema da Catalunha não é apenas contra a restante Espanha, é uma questão perigosa para toda a UE.

O debate aberto por Zapatero acerca do modelo de Estado e das relações territoriais da Espanha, debate que Aznar sempre bloqueara, contribuiu para atenuar as tensões entre algumas Autonomias e o Estado, mas Rajoy voltou ao centralismo duro e agudizou, de novo, as tensões autonomistas. Embora difícil, urge reabrir a via do diálogo.

A tentativa de Puigdemont, de europeizar o conflito, fracassou, mas não pode ser tratada como caso de polícia. É um caso político e o Governo não pode prender quem é eleito, à maneira franquista, e substituir o diálogo pela repressão.

O governo corrupto do PP e o rei, que ora se esconde, depois da infeliz entrada em cena, não são ideais no diálogo para o qual Puigdemont é pouco recomendável, se, por acaso, alguma vez o foi, mas é urgente que o diálogo se estabeleça, antes de ser substituído por meios de que a Espanha tem experiência. O sistema judicial, ainda que a sua isenção merecesse confiança, não pode ser chamado a dirimir conflitos estritamente políticos.

Alfredo Pérez Rubalcaba, publicou em 4 de outubro p.p. um artigo, em El País, em que sugeriu como solução política para “Ganhar aos independentistas”, que todos os espanhóis votassem uma reforma da Constituição e que os catalães votassem um novo Estatuto, acrescentando que “Nunca é tarde para evitar uma catástrofe”.

Esperemos que vão a tempo.

Ponte Europa / Sorumbático

Comentários

Manuel Galvão disse…
5% do território gera 20% do PIB da Espanha.
Se fosse ao contrário nem os catalães se lembravam da nação catalã. Diziam que eram espanhóis.

E hoje também se deviam sentir espanhóis pois se a Catalunha não fosse espanhola não tinha metade do PIB que têm.

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