As greves e as consequências

É impossível satisfazer todas as reivindicações justas, e imoral ceder às injustas, mas não surpreende que sejam as últimas as acolhidas e não as primeiras.

Urge denunciar a cupidez e o oportunismo das imorais, incompatíveis com o Orçamento de Estado, cujo incumprimento seria funesto para o País, o que raramente é referido, e muitos desejam.

Não se percebe por que motivo não são divulgados os vencimentos e eventuais regalias de todos os grevistas, bem como a remuneração média das mesmas categorias na UE e a sua ponderação de acordo com o PIB nacional.

Corre-se o risco de que a banalização das greves e o seu fracasso contribuam para criar a aversão que tantos desejam, ainda inconformados com uma conquista que lhes causa azia. As primeiras vítimas serão os trabalhadores e o movimento sindical, que vivem já dias difíceis. Não será por acaso que algumas greves têm o estímulo, quiçá o patrocínio, dos que sempre as condenaram, herdeiros dos que as proibiam.

O aventureirismo sindical paga-se com o retrocesso das conquistas dos trabalhadores e o fracasso das suas aspirações. Enquanto na função pública ainda é possível mobilizar trabalhadores, já é difícil, e arriscado, nas empresas privadas, onde a deslocalização é a espada de Dâmocles que paira sobre as cabeças de quem justamente se sente explorado.

O pior flagelo está a acontecer. Basta circular nos transportes coletivos para se perceber que o mundo do trabalho não se reduz ao que as televisões ou as redes sociais, com uma forte influência e militância das centrais de intoxicação da direita, mostram. Começa a sentir-se que a ausência de solidariedade com a função pública se torna hostilidade, e os trabalhadores se viram uns contra os outros.

Os sindicatos espontâneos, espécie de braço armado dos adversários dos trabalhadores, talvez por falta de preparação, conseguem provocar o ridículo em vez da compreensão.
O anúncio da greve da fome, com o sacrifício da vida, por um bem nutrido sindicalista, atraiu televisões, mas não fez dieta nem foi levado a sério, só conseguindo aviltar a luta dos que morreram de inanição ao serviço de causas, quase sempre pela liberdade, sem apregoarem, ao contrário dele, o oferta da vida que heroicamente sacrificaram.

É tempo de os sindicatos refletirem sobre as lutas e a sua dimensão, as reivindicações e as probabilidades de êxito, as excentricidades e as repercussões na opinião pública.

Os tiros nos pés são fatais.

Ponte Europa / Sorumbático

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