Recordando Humberto Delgado, assassinado pela Pide, em 13 de fevereiro de 1965

Humberto Delgado, cadete do 28 de maio e um indefetível cúmplice do regime fascista, desiludido, iniciou a conversão sincera à democracia representativa, na sua estadia nos EUA, onde foi adido militar na Embaixada de Portugal (1952/57).

O percurso ideológico do distinto oficial e cidadão corajoso, tardio, mas decidido, havia de custar-lhe a vida. Em 1958 desafiou o ditador e enfrentou o almirante Tomás numas eleições fraudulentas cuja vitória seria atribuída ao grotesco marinheiro.

Foram as últimas eleições diretas para a Presidência da República e o descrédito total do ditador Salazar, perante o País e o mundo.

Humberto Delgado, num gesto de rara coerência e obstinação, entregou-se ao desígnio de pôr fim à ditadura, e nunca mais desistiu de lutar contra ela, e a ditadura de procurar a sua eliminação. Delgado não parou, parou-o a tiro o pide Casimiro Monteiro, do outro lado da fronteira, perto de Olivença, onde fora atraído a uma cilada e o aguardava uma brigada da Pide, chefiada por Rosa Casaco.

O assassinato de Humberto Delgado e da sua secretária, Arajaryr Campos foi mais um crime, prontamente atribuído ao PCP, o suspeito do costume. Salazar, com a sua voz de falsete, veio à TV atribuir o crime aos comunistas e, sem o mínimo pudor, a justificá-lo por desinteligências entre a Oposição, enquanto os corpos das vítimas jaziam ocultados perto de Villanueva del Fresno, a cerca de 30 km do local dos assassinatos.

Foi há 54 anos, no dia de hoje. O exemplo do ‘general sem medo’, que uniu a oposição, parece ter servido de modelo inspirador meio século depois, em democracia.

Tal como em vida, permaneceu exilado, morto. Só em janeiro de 1975, depois do 25 de Abril, os restos mortais voltariam à Pátria pela qual morreu. A ditadura ainda havia de durar mais de 9 anos, mas só a mais bela de todas as madrugadas lhe poria fim.

O sinistro ministro do Interior, Alfredo dos Santos Júnior, morreria sem remorsos e sem julgamento, de morte natural. Salazar morreu impune e os pides foram sendo integrados em outras forças de segurança no longo consulado cavaquista. Até lhe foram concedidas pensões!

A memória dos portugueses vai-se esvaindo e já andam aí os substitutos de quem levou o seminarista de Santa Comba para S. Bento.

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