De como Natália previu a ida de Marcelo ao bairro da Jamaica

Com um quarto de século de defunção, ressoam ainda os versos iconoclastas, de rara beleza, que fizeram da lutadora pelos direitos humanos e a igualdade da mulher uma personalidade singular e escritora de exceção.

Houve sempre, em Natália, demolidora de mitos, que rasgou convenções, a paixão desmedida, o desassombro e a verrina. Era uma mulher que enchia os espaços por onde circulava, abalroava o moralismo e reduzia à insignificância os moralistas e trogloditas que se julgavam referências éticas e sociais.

O deputado João Morgado, luminária do CDS vinda de Lamego para comunicar ao País que o ato sexual só era legítimo para fazer filhos, sentiu que o humor inteligente derruba a hipocrisia e põe a nu a superficialidade de um catequista paroquial.

Nos seus versos repentistas, pôs o Paramento a rir e o CDS envergonhado:

Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

(Natália Correia - 3 de Abril de 1982 )

A coruscante inteligência e o repentismo do estro fizeram desta mulher, intelectual e humanista, um risco para os visados no temível sarcasmo dos seus versos.

E quem imaginaria que, há 30 anos, Natália previu a ida de Marcelo ao Bairro da Jamaica na qurta das cinco quadras que aqui ficam?

Comentários

joao pedro disse…

Obrigado pela lembrança.

João Pedro
Jaime Santos disse…
Não me parece que este perdigão tenha para já perdido a pena, Carlos Esperança, aí Natália enganava-se... Continua a voar alto...

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