A Irmã Lúcia e o Quincas – 12.º aniversário da transladação para Fátima

Chovia. As bátegas não pararam de fustigar os peregrinos. O que as novenas dos padres não alcançavam, conseguiu-o a meteorologia.

Não foi a ineficácia das rezas ou a ausência de Deus que demoveu os crentes, alagados de fé e chuva até aos ossos, de aguardarem, em Fátima, a segunda edição do funeral de Lúcia, a contrastar com o alheamento das pessoas de Coimbra à sua partida, após 1 ano e 6 dias de defunção.

Não houve na repetição das exéquias fúnebres a saudade genuína das prostitutas de S. Salvador da Baía a passearem o cadáver do Quincas Berro D’Água, nas ruas em cujos botequins devorou cachaça com a sofreguidão com que as beatas engoliam hóstias.

A freira, a quem o terrorismo religioso do catecismo induziu alucinações, nunca terá um Jorge Amado que a celebre em «A morte e a morte da Irmã Lúcia, vidente».

O Quincas, quando engoliu, de um só trago, água em vez de cachaça, deu tal berro que passou a ser carinhosamente tratado por «Berrinho» e fez-se personagem de romance. Lúcia comungava por hábito e obrigação pia, mantinha olhos vagos e a postura de quem viveu morta por dentro, envergando o hábito de freira como mortalha.

Quincas é o delicioso personagem que diverte e comove o leitor de «A morte e a morte de Quincas Berro D'Água», marginal que viveu a vida, pecador que amou e foi amado.

Lúcia é exemplo trágico de criança pobre, embrutecida com orações e amedrontada pelo Inferno, que sonhou virgens em azinheiras, cambalhotas do Sol no caminho das cabras, profecias de conversão da Rússia e churrascos de almas para absentistas da missa.

O embuste não acabou nesse dia, há onze anos, foi um novo ciclo que despontou.

A criança industriada com pias mentiras sobre o Divino tornou-se cadáver de estimação, acolitada pelas forças públicas, a viajar com padres, bispos, freiras e peregrinos, numa obscena encenação com quatro missas, orações pias e um promissor futuro de oferendas de gente aflita.

Não foi o último capítulo da história da prisioneira de Deus, foi o início do caminho da santidade, à espera de milagres e oferendas que hão de alimentar funcionários de Deus e perpetuar Fátima como uma das mais lucrativas sucursais do Vaticano.

 O embuste não acabou nesse dia, há onze anos, foi um novo ciclo que despontou.

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