O albergue espanhol e o imbróglio catalão…

A situação em Espanha decorrente das incertezas e deambulações do problema catalão arrasta-se penosamente. Depois da aplicação do Artº. 155º. da Constituição que suspendeu os órgãos autonómicos e realizadas novas eleições nada ficou resolvido.
 
A fação independentista catalã venceu as eleições mas não conseguiu obter uma expressiva maioria capaz de dar suporte político ao heterogéneo nacionalismo catalão. O Governo de Madrid, dirigido por Rajoy, defensor à ultrance de um ‘unionismo’, muito aparentado com obsoletas teses falangistas, pouco ou nada conseguiu clarificar e mais não conseguiu do que afundar-se, primeiro na Catalunha e, ao que indiciam as sondagens, ao nível do reino.

Entretanto, a Catalunha continua a marcar passo. As últimas evoluções não passam de meros contorcionismos políticos para ambas as partes tentarem salvarem a honra. Não vai ser fácil. Madrid a última coisa que deseja e espera é ver Carles Puigdemont como presidente da Generalitat. Barcelona não está disposta a dar-lhe de bandeja essa abébia. O que se congemina em Barcelona é uma solução equívoca onde alguém (a deputada Elsa Artadi) simula tomar posse perante o parlamento catalão – para inglês ver! – mas seria um governo no exílio (Bélgica) tutelado (à distancia) pelo perseguido vencedor das eleições Puigdemont quem exerceria, de facto, o poder. Uma mistificação que poderá ter elevados custos democráticos e eleitorais e, o que será mais grave, um jogo do faz de conta que acabará por descredibilizar a ‘causa independentista’.

A situação é extremamente complexa. Faz falta ‘outra Espanha’ e, sejamos justos e criteriosos, ‘outra Catalunha’ para concertar politicamente um projeto de Estado plurinacional que tenha uma ampla aceitação política, económica, social e cultural. Uma disruptiva mutação essencialmente qualitativa, neste momento, impossível de levar a cabo.
 
A Catalunha apesar de dividida ao meio nunca aceitará qualquer tipo de unidade com uma Espanha ultraconservadora e reacionária como a que, no presente, emana de Madrid. Resta saber se tal será possível com a nova força direitista candidata a ocupar a área do PP, isto é, os Cidadanos que se têm insinuado na velha e arcaica Espanha à custa do ‘problema catalão’, mas que ainda não enfrentaram a ‘hora da verdade’.

Por outro lado o ‘independentismo catalão’ precisa de chocar com a realidade. Não existem condições objetivas internas (na Catalunha) para enfrentar o Estado Espanhol. Este confronto (tudo passará por aí) pressuporia um apoio popular mais expressivo do que o atual e que existisse do outro lado (unionista) a mínima disposição para o diálogo. Condições que a curto prazo não existem, nem são previsíveis.
Assim sendo, a questão catalã vai continuar a marcar passo embora possam existir muitos episódios rocambolescos pelo meio.
A verdadeira solução para o problema que se levantou a partir da Catalunha passa por alterações de fundo do regime que vigora em Espanha e que, por enquanto, inclui a 'questão catalã', mas terá outras à ilharga..
Só após o apeamento da Direita do poder central poderá vir a ser  estimulado o reagrupamento (e clarificação) das forças independentistas. Este audacioso passo, que ultrapassa largamente o contexto catalão, só terá consequências se for simultaneamente republicano e de esquerda, recheando as pesadíssimas cargas históricas  e culturais existentes com projetos políticos, económicos e sociais populares, abrangentes e credíveis. Uma situação que está muito para além dos atuais conceitos de matizes 'nacionalistas liberalizantes' que a burguesia catalã colou à 'onda independentista'. Só depois da clarificação política (e constitucional) de uma outra 'Espanha'  poderá haver (também) uma 'outra Catalunha' e, finalmente, ver alguma luz ao fundo do túnel.
Estamos muito longe destas condições básicas indispensáveis para conseguir 'construir e proclamar Nações no contexto espanhol' e fugir dos fatais aventureirismos.

A derrocada aos trambolhões do PP (que começou na Catalunha mas que já será endémica), o lento haraquíri do PSOE (que perdeu o pé e ficou agarrado a conceitos autonómicos retrógrados) e o esvaziamento paulatino do Podemos (que prosseguiu numa posição dúbia de 'nem carne nem peixe') aportarão novos espaços para estratégias políticas, diferentes propostas programáticas,  mas é muito cedo para avançar com cenários futuristas.
Até porque os Cidadanos de Rivera estão, neste momento, a capitalizar o desmembramento dos partidos à sua Direita e do dito Centro não têm consistência política e social para pilotar a nau que se dá pelo nome de (velha) ‘Espanha’ e que caminha, imprudentemente, para o ‘olho do furacão’.

Até 2020, isto é, às programadas eleições legislativas, vai ser aquilo que o povo chama uma ‘dor de alma’. Todas forças político-partidárias estão a desperdiçar as oportunidades que o momento oferece.
 
Começa a ser evidente que a 'questão catalã' foi colocada prematuramente pelos movimentos independentistas e, por outro lado, resolvida com os pés pela 'velha guarda castelhana'. Falharam diversos pressupostos, entre eles, uma desejada – mas pouco realista - intervenção europeia.
No presente, resta - a todas as partes - recuar para processos negociais que tragam de volta à Catalunha e à Espanha uma saída desta crise com alguma dignidade. O 'protagonista natural' desta viagem de emergência, isto é, o rei, foi ab initio colonizado por Rajoy e pelas 'teses unitaristas', tendo com esta opção tentado salvar a Coroa, mas perdido influência e capacidade arbitral. O rei excluiu-se da solução e será uma questão contraditória (marginal para o desfecho e central para o republicanismo presente).
 
A questão do federalismo poderá vir a ocupar um lugar de relevo na mesa das negociações para a resolução deste emaranhado de confusões. Resolução que, como historicamente temos verificado nos processos nacionalistas e separatistas europeus, é um processo lento, sinuoso e doloroso (e muitas vezes violento).

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