Pesadelos da guerra colonial - Crónica


Quem regressou da guerra colonial, desejou esquecê-la, e não pôde. Saímos da guerra, e a guerra não saiu de nós, pelos mortos que lá deixámos e estropiados que trouxemos, torturantes recordações de anos injustos e inúteis.

Por menos traumática que possa ter sido a guerra, nunca mais se esquecem as rugas dos pais que nos aguardaram, a ansiedade que viveram e a angústia pelos perigos, reais ou imaginários, a que nos julgaram expostos. E mal souberam do que os mosquitos foram capazes, do que o clima fez ou da alimentação que nos coube. Deixámos que partissem sem lhes dizer.

A sobrevivência, mesmo sem mazelas aparentes, carrega feridas que nunca cicatrizam, memórias doridas, inquietações que regressam, angústias que persistem. Ninguém faz a catarse de tão longo tempo e tão penetrante sofrimento, ninguém conta tudo o que viu e grande parte do que soube.

Integrar um exército de ocupação é uma provação traumática insuperável. Ainda hoje, quase meio século decorrido, tortura-me a memória o funeral do Martins, com o pai a implorar permissão para depor um último beijo na testa do filho, corpo de que restavam os membros inferiores e pedaços indeterminados numa urna fechada, junto à cova do cemitério da Missão de Massangulo, onde o jovem capataz dos caminhos de ferro foi sepultado.

Quem pode esquecer o homem que pedia ajuda para se levantar, com pernas amputadas no choque de dois comboios onde vários negros morreram esmagados, ou queimados no vapor das caldeiras, trabalhadores dos caminhos de ferro, receosos de saltarem e serem suspeitos de fuga, condicionados pelo medo simultâneo da tropa e da Frelimo?
Quem esqueceu os aviões de combate (Fiat) que lançavam bombas em aldeamentos que destruíam e cujas palhotas abrigavam crianças, mulheres e combatentes da Frelimo?

Nunca me refiz da impotência perante o último suspiro do Dias, do peso do corpo inerte nos meus braços, alguns minutos depois de almoçar comigo, esmagado dentro da cerca de arame farpado, sob uma roda da Berliet onde insistiu em sentar-se no guarda-lamas, a recolher, na enfermaria, lágrimas do nosso desespero. Morreu em 11 de janeiro de 1968. Doze dias depois, uma mina rebentou sob um Unimog da Comp.ª 1799 (Malapísia) e fez explodir o depósito de combustível.  Morreram queimados o furriel Carlos Madeira e o condutor Eduardo Franco, o Mafra, este reduzido a escassos restos, e outros ficaram estropiados. Foram as três primeiras baixas dos que fizeram a viagem sem retorno.

Quase 18 mil noites após o regresso, ainda falo com o Moura, morto nas águas revoltas do Zambeze, com viaturas e homens perdidos onde a reviravolta da jangada os lançou e os crocodilos esperavam.

O funeral do Martins, o capataz que a bazuca atingiu à queima-roupa, foi talvez o pior momento de 26 meses em que, por amargurada opção, não vim de férias a Portugal, mas há um dia de que nunca falei, que ora refiro pela primeira vez, quase 50 anos volvidos.

Um dia qualquer, preparava-me para ir a Vila Cabral comer a iguaria habitual, um bife com batatas fritas e ovo a cavalo. À saída, veio alguém trazer um preso destinado a ser entregue à Pide. Foi de Unimog, entre soldados com uma das mãos agarrada ao banco e outra à G-3. Ninguém o terá designado ‘turra’, palavra carregado de ódio racista, que na CCS os militares mais politizados e instruídos procuraram erradicar.

Durante o percurso desejei que fugisse, sabendo que era impossível fazê-lo e continuar vivo. Chegados a Vila Cabral, o Unimog levou o prisioneiro. O condutor não carecia de instruções, não era preciso. Nem os soldados que o escoltaram.

Não me recordo onde era a Pide, a memória tem o dom de apagar o que aflige, e calculo o destino daquele soldado andrajoso do IN (inimigo, na designação militar), pois sabia do que a Pide era capaz e imaginei o que lhe reservaria.

E lá segui com outros camaradas a caminho do almoço no Café Planalto, indiferente ao eventual encontro com impiedosos comandantes de milícias, o Daniel Roxo ou o Porto, incensados por colonos, ou dois capitães de Comandos, célebres pelo desapego à vida e à ética e amor ao álcool, todos objeto do meu profundo desprezo. A um desses capitães, a Frelimo pôs-lhe fim à carreira e à vida, pouco tempo depois.

O rosto impassível do prisioneiro perseguiu-me, e alheei-me da refeição e do convívio.

Há coisas de que não falamos, e os fantasmas da guerra colonial permanecem.

Ponte Europa / Sorumbático

Comentários

Há dias ouvi um antigo combatente dizer que ainda hoje o atormentavam as recordações da guerra. Falou nos graves perigos que correra, e terminou: "Mas pior do que morrer é matar!"
Horta Pinto:

"Mas pior do que morrer é matar!". É uma frase que me deixou a pensar nos que sei que foram obrigados a matar.

Mensagens populares deste blogue

Vasco Graça Moura

A lista VIP da Autoridade Tributária