Das eleições de Humberto Delgado ao PREC -- Crónica

Gonçalo é uma freguesia do concelho da Guarda que dista cerca de quatro léguas e meia da cidade e foi uma populosa aldeia, com perto de três mil habitantes. Hoje, já elevada a vila, não atinge um milhar e continua a sofrer a erosão que atingiu o interior do país.

Em 1958, Gonçalo não era aquela aldeia temente a Deus e respeitadora da ordem que a ditadura exigia. Situada na falda nordeste da Serra da Estrela, tinha nos seus habitantes uma série de artesãos que transformavam o vime, que crescia nas margens do rio Zêzere e das ribeiras que o alimentavam, em cestos e outros artefactos de verga, e operários que extraíam o minério do filão de cassiterites do vale que liga a Gaia à Vela, para produção de estanho e, durante a guerra de 1939/45, do volfrâmio, que sói andar associado.

Era a natureza de classe que decerto distinguia os habitantes de Gonçalo, que não viam em Salazar o salvador da Pátria e em Tomás mais do que o grotesco paquete do ditador.

O ano de 1958 não encontrou ali a aldeia típica da Beira Alta, na transição para a Beira Baixa, com gente tímida, beata e subserviente. Pelo contrário, o professor primário e a mulher, ambos professores, eram olhados com igual desconfiança à do padre Joaquim, conhecido pela alcunha de Faísca, e as missas deste estavam longe de ser frequentadas pela totalidade dos paroquianos, especialmente pelos homens.

No dia 8 de junho desse ano, as listas com o nome de Humberto Delgado passaram as malhas da ditadura e inundaram as urnas que os elementos da mesa eleitoral, quer o padre Joaquim, quer o professor Barata não tiveram coragem de impedir. Foi depois, na contagem dos votos, que aconteceu o milagre da transformação dos votos de Humberto Delgado em votos do Américo Tomás.

A publicação dos editais exaltou os ânimos e, pelo menos, o padre Joaquim Faísca e o professor Barata tiveram de aguardar que a GNR os fosse salvar da ira popular e tirar do local das eleições onde nenhum deles voltaria a entrar.

Américo Tomás ganhou ali as eleições e o professor e o padre tiveram o prémio da sua conduta crapulosa. O padre Faísca ficou no colégio de S. José, na Guarda, e o professor Barata foi colocado na Direção Escolar onde o regime lhe salvou a pele e brevemente o promoveria a adjunto do Diretor.

A professora, mulher do Barata, ficou na aldeia até ao fim do ano letivo, ostracizada pela população, sem voltar a ter quem lhe lavasse a roupa, sua e dos dois filhos, ou a ajudasse na lide da casa, até às férias. Seria transferida ao abrigo da lei dos cônjuges sem levar nem deixar saudades onde durante vários anos o casal tinha vivido e ensinado.

Após o 25 de Abril, o MFA, com a necessidade de desmantelar o aparelho repressivo da ditadura, exonerou os diretores de vários organismos e substituiu-os pelos números dois. Na Guarda o presidente da Câmara cedeu lugar ao prof. Renato, um vereador ainda mais fascista, até à constituição de uma comissão administrativa presidida por um democrata, o Dr. Manuel António Santarém. No liceu, o reitor, Bonito Perfeito, um situacionista discreto, e excelente professor, foi substituído pelo professor mais antigo. Sucedeu-lhe a D. Beatriz Salvador… a comissária da Mocidade Portuguesa Feminina!

Na Direção Escolar o diretor foi afastado e, pasme-se, o Barata passou a diretor interino, de onde passaria a efetivo, cargo em que se reformou sem necessidade de se converter à democracia.

Coimbra, 15 de fevereiro de 2018

Ponte Europa / Sorumbático

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