Quem salva as democracias?

Como se as catástrofes naturais, a explosão demográfica e as agressões ambientais não bastassem para enegrecer o futuro e infernizar o presente, chegaram à chefia dos países mais poderosos do mundo uma série de dirigentes perigosos, nacionalistas, autoritários e belicistas.

A China e Rússia, onde a democracia liberal é desconhecida, têm líderes autoritários. Os EUA, Brasil, Índia e Filipinas, em eleições formalmente livres, não lograram melhores líderes. As teocracias do Médio Oriente são o que se sabe. Benjamin Netanyahu, Israel, é um perigo global e Mohammad bin Salman, Arábia Saudita, assassino de longo curso.

Quando julgávamos que a impreparação, a truculência e a inanidade seriam punidas nas urnas, eis que surgem, legitimados pelo voto, o mitómano agressivo e belicista Trump, o delinquente imbecil e demente Bolsonaro, o grotesco assassino Duterte e o nacionalista belicoso Narendra Modi.

Da Hungria à Turquia, da Polónia à Sérvia, da Chéquia à Albânia, na Europa Central e do Leste, sob o pretexto da luta contra o coronavírus, aumentam os países autoritários e são cada vez mais repressivos. Os regimes despóticos aumentam em número e ampliam a repressão dentro de cada país.

Os ataques à liberdade de imprensa, a neutralização das oposições, a desvalorização dos parlamentos e a captura do poder judicial são instrumentos dos novos líderes, que usam o nacionalismo, a xenofobia e o medo para se perpetuarem no poder.

A corrupção é uma arma usada contra a democracia, o único sistema em que é possível denunciá-la, sem qualquer prova de que essa lepra, que corrói o poder, seja mais intensa e frequente nos regimes democráticos do que nas ditaduras.

A insegurança e o medo são inimigos da democracia e a retórica dos líderes autoritários vive da sua exploração. Ao ambiente que, no século passado, criou as condições para os regimes ditatoriais, junta-se agora uma pandemia para facilitar a vitória dos demagogos, que prometem ordem e segurança em troca do silêncio e da submissão.

As novas tecnologias, que permitiram democratizar a informação, cedo foram usadas por quem detinha a capacidade de as capturar ao serviço dos poderes autoritários que proliferam.

Não há uma opinião pública esclarecida, participativa e empenhada, na defesa da nossa civilização, onde a liberdade e a defesa dos direitos humanos gozem generalizado apoio.

À medida que as consciências adormecem, o medo nos tolhe e o desânimo se instala, esmorece a vigilância cívica e ficamos mais expostos a ser vigiados e oprimidos por biltres que vão assaltando o poder.

Ponte Europa / Sorumbático

Comentários

joão pedro disse…

Apenas um reparo e esse relativo à China. A China não é uma democracia liberal, escreve o Carlos. Assim será, de facto, já que se tratará de uma democracia popular.

PS: Quanto a Putin, é matéria que requer, da minha parte, maior estudo e reflexão.

João Pedro
João Pedro:

Democracia popular? Apesar de o conceito ter várias interpretações 8ditadura do proletariado, v.g.), a China pratica um dos capitalismos mais agressivos do mundo e é o país onde o número de milionários mais cresce. Não sei, pois, o que terá de democracia popular ou da herança de Mao, um ditador pouco recomendável.
Jaime Santos disse…
A Rússia é um sistema neo-patrimonialista em que o Estado está capturado por uma elite corrupta que gravita em torno do actual Presidente.

Este, que é um nacionalista, tem pelo menos a vantagem relativamente a Ieltsin de não se deixar manietar pelos oligarcas, mas antes de os controlar, algo que não é aliás novo na História da Rússia, o absolutismo czarista russo sempre se caracterizou por ter conseguido vergar a vontade da aristocracia às suas ordens, coisa que não aconteceu nos absolutismos ocidentais (França e Países Ibéricos, por exemplo), sendo que no caso inglês foi a própria aristocracia que limitou o poder real...

A China é um regime de mandarinato, a caminho de se tornar uma ditadura de um homem só. Não é seguramente um regime comunista, excepto no domínio exercido pelo PC sobre a política. Cabe notar que o poder chinês reprime todos os activismos, incluindo o laboral. Não difere muito do despotismo imperial chinês, mesmo se estamos longe do paroxismo imbecil e criminoso da Revolução Cultural...

Não há hoje qualquer regime comunista na esfera económica. Cuba sobrevive à custa do turismo externo, a Venezuela passou de País corrupto e desigual antes de Chavéz para um País corrupto e falido sob Maduro, a Nicarágua de Ortega transformou-se numa anedota obscurantista que ombreia com o Brasil. Já a Coreia do Norte é uma Teocracia em que o defunto Kim Il Sun é Presidente Eterno.

É hoje praticamente impossível reconhecer se uma ditadura é de Esquerda ou de Direita, o que é aliás natural, pois como dizia Bakunine, o objectivo de uma Ditadura não é outro que não a sua perpetuação. Adivinhem quem ele estava a criticar. Marx e Engels, pois claro...

É uma pena que a História tenha dado a primazia ao socialismo autoritário em vez de ao socialismo libertário de raiz cooperativa. A nossa esquerda da Esquerda poderia ainda ajudar a pensá-lo mas teria que se livrar primeiro das peias estatistas...
joão pedro disse…


Oh Carlos, façamos por momentos uma pausa sobre as nossas divergências. Fale-me sobre a democracia liberal norte-americana, tendo em vista que este é um bom momento para fazer essa reflexão. Gostava de ler o seu entendimento sobre a matéria que, como sabe, acompanho sempre com interesse, convergindo ou divergindo.

João Pedro
João Pedro:

Prefiro qualquer democracia liberal a qualquer regime de partido único.

Com a frase anterior respondo de forma definitiva ao seu repto. É ocioso que não me revejo nas desigualdades sociais e na exploração capitalista, mas admito sempre que os que pensam de forma diferente da minha possam ser eles a ter razão.
joão pedro disse…

Carlos, fiz-lhe um pedido e não um desafio (ou um repto, como lhe chamou). Talvez por isso não tenha respondido ao meu pedido, que ora renovo. Mas, à boleia do pedido ora renovado, sempre lhe direi que a democracia liberal na sua inevitável degenerescência produzem as desigualdades sociais da exploração capitalista que, sei, recusa… Direi ainda que, certamente, não confunde regime de partido único (questão estrutural) com regime de único partido (conjuntural).

Nestes termos, insisto em renovar o pedido que lhe fiz anteriormente, já que valorizo muito o conhecimento da sua opinião. Não fosse assim e não seguiria atentamente o seu blog.

Obrigado.

João Pedro
João Pedro:

O regime dos EUA atingiu o apogeu da degenerescência ética, política e social.

O que posso dizer sobre o asco consensual que provoca?

Não penso o mesmo sobre a Constituição americana.
joão pedro disse…

Concordo.
A meu ver aquela degenerescência atingirá, na nossa época, todas as democracias liberais…
È preciso mudar de vida, é chegada outra época prenhe com a alternativa a tal degenerescência. Uma alternativa que acabe com a exploração do homem pelo homem.
Como sabe, sempre que um homem sonha o Mundo pula e avança…
Não se quer juntar a esta plataforma de homens justos ?...

João Pedro
Jaime Santos disse…
Fez ontem 31 anos que o Exército de Libertação (!) do Povo Chinês matou entre centenas e milhares de pessoas que se manifestavam pacificamente pela democracia, na Praça da Paz Celestial (!).

No regime americano, porventura no auge da sua degenerescência, o secretário da Defesa recusa a sugestão do Presidente de que se utilizem as tropas para reprimir manifestações pacíficas pela igualdade racial e pelo fim da violência policial sobretudo contra os negros. Na mesma altura, imensos membros da polícia ajoelham em homenagem ao inocente morto às mãos de um dos seus.

Penso que isto nos diz algo sobre a diferença entre uma 'plataforma de homens justos' que continua a apoiar o regime responsável pela matança acima e a muito imperfeita mas ainda assim admirável democracia americana.

Acho que não é preciso dizer mais nada...
joão pedro disse…

Não passo cartão a mal vestidos...de ideias; a gente preconceituosa; a gente embrutecida pela propaganda imperialista; a gente que alinha com os milhões de crimes que o capitalismo diariamente, diariamente !!!, provoca; a gente que ignora ou é cúmplice ! Repito, em letra maiúscula, MILHÕES DE CRIMES PERPRETADOS DIARIAMENTE !!! Peçam perdão ou calem-se para sempre !!!

João Pedro
Jaime Santos disse…
Deixe estar que o comentário não era para si, João Pedro, era para o Carlos Esperança. E bem se vê pela falta de educação e pela expressa vontade de me calar qual a fibra de que é feito, venha lá de onde vier.

E essa de pedir perdão quer dizer que tenho que fazer a autocrítica, é :) ?

https://en.wikipedia.org/wiki/Self-criticism_(Marxism%E2%80%93Leninism)
joão pedro disse…

A América, digo, os States, é um País de Partido Único. Só que bicéfalo. Onde quem discorda é terrorista.
Quem gostar muito do modelo, deve tirar bilhete de ida. Boa viagem ! Não deixam saudades...

João Pedro
Jaime Santos disse…
O João Pedro revela toda a cepa de que é constituído, não há dúvida. Agora quer que eu me vá embora, pelos vistos. Ou será que dirige o comentário ao Carlos Esperança, que também respeita a constituição americana?

Imagine o que aconteceria se tivesse o poder. Nessas suas provocações, cada vez se enterra mais. Qualquer que seja a sua cor política, trata-se sem dúvida de um autoritário...

Os EUA não são o meu modelo de democracia favorito, longe disso. Aproximo-me muito mais de um modelo constitucional à Europeia, multipartidário, parlamentar e republicano. E anti-imperialista, coisa que os EUA nunca foram, excepto porventura na sua luta original contra o império britânico.

Aliás, gosto muito do sistema constitucional português, só embirro com o nosso sistema eleitoral, que gostaria que fosse ainda mais proporcional...

Mas não comparo o modelo americano com o modelo de Partido Único à Chinesa, ou o modelo de Partidos Fantoches de um Presidente, à russa, ou o modelo das 'democracias populares'...

Temos que respeitar os EUA na medida em que foram precursores de um modelo de república democrática que é o único até hoje que garante a autonomia dos indivíduos. Começaram naturalmente por ser uma república de homens brancos protestantes, proprietários, inclusive de escravos, e esse 'pecado original' da América ainda é hoje o responsável pelas profundas injustiças existentes na sociedade americana.

Mas a luta pacífica (e por vezes violenta) dos progressistas (e de conservadores de boa fé) tem permitido que essa 'verdade auto-evidente de que os homens são criados iguais' e com os direitos inalienáveis à vida, liberdade e à procura da felicidade, se esteja progressivamente a alargar a todos os cidadãos e cidadãs. E isto apesar de homens como Jackson, Jefferson Davies, Nixon ou Trump...

E isso é bastante mais do que aquilo que os socialismos reais de diferentes configurações podem apresentar como resultado. Poderia dizer exactamente a mesma coisa dos fascismos. Até ver, foram todos derrotados, ou militarmente no caso dos segundos, ou faliram irremediavelmente no caso dos primeiros...

E não se pense que as democracias liberais não têm armas, seja a nível interno ou externo. Demoram mais a reagir a ameaças, mas normalmente quando reagem, os seus adversários não gostam de ver o resultado...
joão pedro disse…

Há pessoas que não gostam das democracias populares…
Ora, democracias populares, como diz o nome, são democracias do povo… Percebo que os oligarcas, os avençados, todos aqueles que não o sendo não têm contudo espessura vertical para se opor ao domínio dos senhores do Mundo, travestidos de "democratas" de "liberais" e se colocam, de rastos, perante os Bill Gates, os George Soros, os Kissinger, o Grupo de Davos, o Clube de Bilderberg, etc. e exaltam e exultam perante eles, servilmente. Desprezivelmente.
E, entretanto, é no covil do imperialismo onde se acende um clarão que ilumina os céus das Américas e onde se entrevê dois fantasmas: A 2ª revolução americana e, pela 1ª vez, o espectro do comunismo...arrastando, em dominó, todas as ficções das democracias "liberais", desde logo as da OTAN.
A ser assim, os "democratas", os "liberais" os fascistas em Portugal, não terão a ambição de emigrar para os States ou para o Brasil, paraísos da liberdade e do Estado Social…

João Pedrpo
Jaime Santos disse…
O João Pedro, privado de argumentos, trata de chamar a quem se lhe opõe de servil e de desprezível. Mais uma razão para não acreditar que é um verdadeiro comunista, que são pessoas bem-educadas.

E não, as democracias populares não são democracias do povo, aliás a designação é redundante porque democracia quer dizer, só por si, o governo do povo. É como PREC, Processo Revolucionário em Curso (se é processo, é porque está em curso :) ).

Quando alguém resolve enfatizar algo desse modo, é porque não acredita no que diz :) ...

As democracias ditas populares são ditaduras de quadros medíocres e cinzentos...

Quanto a uma suposta segunda revolução americana, desengane-se. O espectro que assombra a América é o do Fascismo e não o do Comunismo...

Ah, e estou na minha terra e não tenciono sair daqui tão cedo...
joão pedro disse…


Conheço o argumento vil: Ele é boa pessoa, mas é uma pena ser comunista !

João Pedro
Jaime Santos disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Jaime Santos disse…
Falo de civilidade, que não tem nada que ver com carácter, que não é para aqui chamado. Se não sabe a diferença, sugiro-lhe que procure num dicionário...

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