A Europa, a União Europeia e a Nato

Perante as recentes e assolapadas paixões pela NATO, que atraíram velhos resmungões contra pactos militares, espero não ser anatematizado por lembrar que, ao contrário da União Europeia, que exige a democracia e o respeito pelos direitos humanos aos países membros, a Aliança Europeia teve nos seus fundadores o Portugal de Salazar e, agora, é integrada pela Turquia onde tem as mais numerosas Forças Armadas fora dos EUA.

Quando os mais indefetíveis amigos me consideram suspeito, talvez por persistir numa posição que se tornou obsoleta e mal vista, volto a publicar o texto que deixei aqui no meu blogue Ponte Europa e no Facebook em 13 de maio de 2019:

«A Europa e as ameaças externas

A proposta de um plano de defesa europeu autónomo teve a ameaça dos EUA. Washington acusou Bruxelas de violar compromissos adquiridos através da NATO e adverte que põe em perigo décadas de colaboração militar.

A carta, de 1 de maio, a que teve acesso EL PAÍS – segundo a edição de hoje –, “está cheia de ameaças, mais ou menos veladas, de possíveis represálias políticas e comerciais se Bruxelas mantiver a sua intenção de desenvolver projetos europeus de armamento sem apenas contar com países terceiros, nem sequer com os EUA”.

Com a política externa errática e belicosa de Trump, que quebra todos os compromissos internacionais, v.g. o acordo nuclear com o Irão e subversão dos acordos com diversos países, num perigoso braço de ferro comercial com a China, é altura de a UE conciliar o apoio dos seus membros quando o Brexit a debilita.

A reação do Império deve-se à criação do Fundo Europeu de Defesa dotado com 13.000 milhões de euros para o período 2021-2027 tendo em vista desenvolver 34 projetos de armamento, por 25 países da UE, cuja aprovação foi submetida ao Parlamento Europeu.

As ameaças, subscritas pelo governo de Donald Trump, constituem a mais despudorada chantagem à soberania da UE depois de ter tentado impedir as negociações com a China para a aquisição da tecnologia 5G, na rede móvel das comunicações, onde os EUA estão ainda atrasados.

Em período de campanha eleitoral para o Parlamento Europeu, com as exóticas eleições no RU, país que está de saída, é altura de os partidos dizerem o que pensam, em vez de procurarem conquistar votos ocultando a posição quanto aos grandes desafios europeus.

Defender uma unidade de proteção civil europeia, que o CDS pretende domiciliada em Portugal e negar a cobrança de um imposto europeu, é uma desonestidade que Nuno Melo, ainda em modo VOX, tem a desfaçatez de defender, mas esse é o padrão comum de todos os partidos.

Marinho Pinto, em quem não votarei, apesar da estima pessoal, é o único que defende as Forças Armadas comuns para a UE, proposta com que concordo. E defendo igualmente a harmonia fiscal, a diplomacia comum e a progressiva integração política.

Não quero regressar aos tempos salazaristas do “orgulhosamente só” nem ficar refém de blocos que desprezem os direitos humanos e divirjam do ethos civilizacional que molda a Europa de que me sinto cidadão.

Desafio os compatriotas a refletirem sobre o risco de, em vez do Parlamento Europeu, com decisões mais escrutinadas e transparentes do que as dos parlamentos nacionais, termos de nos submeter a Pequim, Moscovo ou Washington.

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