Há 77 anos – A vitória sobre o nazi/fascismo

Em 8 de maio de 1945, a Alemanha rendeu-se aos aliados ocidentais e, no dia seguinte, à URSS e seus aliados do Leste, terminando a maior e a mais trágica guerra de sempre, ainda que a Guerra só terminasse de jure com a posterior rendição do Japão.

Acabou nesse dia a 2.ª Guerra Mundial na Europa. Dez dias antes, em Itália, Mussolini fora julgado sumariamente e fuzilado com a amante, Claretta Petacci. Dois dias depois, Hitler suicidou-se com um tiro na cabeça, e a sua mulher, Eva Braun, com a ingestão de uma cápsula de cianeto.

O Alto Comando alemão, gorada a tentativa de assinar a paz com os aliados ocidentais, rendeu-se, sem condições, em 8 de maio de 1945. Nesse dia começou o fim do pesadelo que o nacionalismo, a xenofobia e o racismo provocaram, desde o dia 1 de setembro de 1939, com a invasão da Polónia, perante a conivência de muitos polacos. A Alemanha, ignorando o tratado de Versalhes, começou a guerra de expansão com fortes apoios em países invadidos. A Espanha, vítima da barbárie de Franco, vivia o medo, silêncio e luto de 1 milhão de mortos, desaparecidos e refugiados, e as ditaduras ibéricas sobreviveram à sua matriz nazi/fascista até à morte dos respetivos ditadores.

Quando parecem esquecidos os crimes do nazi/fascismo e o maior plano de extermínio em massa de que há memória, regressam fantasmas e surgem velhos demónios, como se o Holocausto não tivesse ocorrido e os fornos crematórios não tivessem assassinado milhões de judeus, ciganos, homossexuais e deficientes, na orgia cruel de que a loucura nacionalista foi capaz.

O nazi/fascismo levou a guerra a África e à Ásia e, na Europa, não foram os europeus que o derrotaram, foram os EUA e a URSS que vieram esmagar a besta nazi contra a qual a coragem e abnegação dos resistentes foram impotentes.

Após a implosão da URSS, na improbabilidade de regresso dos partidos comunistas ao poder, deixou de haver desculpas para a extrema-direita e atenuantes para a xenofobia, o racismo, a homofobia, o antissemitismo e todos os crimes de ódio de que uma alegada supremacia rácica é capaz.

A capitulação alemã, 8 de maio de 1945, foi fundamental para a História mundial. Os historiadores comparam-na à Reforma Protestante e à Revolução Francesa. Recordar o nazismo é refletir sobre a violência do Estado, erradicar o antissemitismo e homenagear todas as vítimas que ao longo da história foram perseguidas por preconceitos religiosos, étnicos e culturais.

É urgente recordar a História porque a repetição da tragédia é já uma ameaça. Sente-se o despertar de demónios totalitários que originaram a maior tragédia do século XX.


Comentários

F. Rodrigues disse…
Obrigado, Carlos Esperança, pelo excelente texto, evocativo de uma data tão relevante, para a nossa memória coletiva, principalmente agora que a "besta" começa a levantar de novo a cabeça por esse mundo fora, em particular na Europa. Pena que a nossa miserável comunicação social não lhe esteja a dar o devido destaque, e só a refira especulando sobre eventuais anúncios que os russos possam fazer de algo relevante no contexto da guerra atual.

Jaime Santos disse…
Faltou a referência ao outro agressor, Carlos Esperança, a URSS, que compartilhou a Polónia com Hitler, graças ao infame Pacto Ribbentrop-Molotov, que levou desde logo à matança de Katyn.

Se a vitória sobre o Nazi-Fascismo se deve sobretudo ao sacrifício dos povos da ex-URSS, cabe lembrar que o Papá dos Povos não entrou na guerra para libertar o mundo do Fascismo, fê-lo porque foi atacado pelo seu antigo aliado.

Um embaraço esquecido por Putin e por uns quantos entre nós, assim como esquece a contribuição ocidental para a derrota de Hitler e do Japão.
Jaime Santos:

A Polónia tinha uma forte opinião pública favorável ao nazismo. Era feroz o antissemitismo polaco. Não posso ver à luz da agressão nazi/fascista e da conquista do poder pelos sovietes o percurso histórico do genocida Estaline.
Jaime Santos disse…
Sim, mas se a Polónia tinha a tradição antissemita de que fala (o seu Governo de então estava longe de ser democrático, o que não impediu que se tratasse de uma agressão, a mesma que a Rússia agora pratica sobre a Ucrânia, e o crime pelo qual Von Ribbentrop foi enforcado, não há cá guerras preventivas, sejam elas contra o Iraque ou contra a Ucrânia), convém que faça lembrar todos os atores em jogo, não apenas os polacos e os alemães.

Se Estaline não tivesse assinado o infame pacto com Hitler (que incluía um protocolo secreto de partilha dos Países limítrofes entre as duas potências) a Segunda Guerra não teria sido iniciada, pelo menos não nessa data.

Não é sem razão que russos colocam o início da sua Segunda Grande Guerra Patriótica em 1941 (a primeira foi em 1812). Antes disso, estavam bem acomodados com a Alemanha Nazi.

A isso, Jerónimo de Sousa não se refere, seguramente...

O sacrifício dos povos da URSS na derrota de Hitler merece relevo, o regime estalinista era, é, e será de escarro à luz da História das pessoas decentes... É-o pela perseguição dos dissidentes políticos ou simplesmente aqueles apanhados na voragem da paranoia estalinista (mas aí não inovou em relação a Lenine e Trotsky, porventura só na escala), mas é-o também pela sua colaboração com o Nazismo.

Quando será que o nosso PCP, que tem uma tradição de combates pela Liberdade, vai parar de se associar a tal gente? Provavelmente nunca, o que ditará também a sua morte por míngua eleitoral...
F. Rodrigues disse…
Jaime Santos:
- Qual é o motivo dessa sua fixação em Estaline? Vê por aqui alguém que defenda, ou seja próximo de um criminoso como ele?

- Acha que na guerra que o neoliberalismo selvagem americano move contra o neoliberalismo selvagem russo, usando o neoliberalismo selvagem ucraniano, porque os primeiros se acham donos do mundo e não toleram concorrência no seu caminho de predadores, há alguma interferência estalinista?

- Já alguém lhe disse que ESTALINE NÃO ERA RUSSO, mas sim georgiano, e que a Geórgia é hoje uma espécie de Ucrânia 2, igualmente controlada pela CIA e pelos EUA, tal como a Ucrânia?

- Já alguém lhe disse que os líderes soviéticos que mais tempo ocuparam o poder não eram russos, pois, além do seu Estaline (georgiano), quer Nikita Krustchev, quer Leonid Brejnev eram ucranianos? Na verdade, apenas Lenine, o fundador que morreu em 1924, e Gorbatchev, o da comissão liquidatária, eram russos.

- Sendo assim, porque razão não atribui também tiques estalinistas ao belicista Zé Lenski, que encaminhou o seu próprio povo para esta guerra, ao não cumprir intencionalmente os acordos de Minsk, ao perseguir ou eliminar os seus compatriotas russófonos, e ao não reconhecer autonomia e mover uma guerra genocida contra as populações russófonas do Donbass?

- Sente-se incomodado pelo facto de o aparelho político-militar ucraniano ser (comprovadamente) dominado por nazis assumidos, tema que a propaganda ocidental tenta esconder, ou minimizar?
Jaime Santos disse…
F. Rodrigues, o motivo da minha fixação por Estaline, como você diz, são os seus inúmeros crimes e sobretudo a sua tentativa de reabilitação pelo atual regime russo e por alguns dos nossos saudosistas nacionais. Seguramente que uma data como o fim da II Guerra Mundial na Europa não pode passar sem um contínuo esforço de proclamação da verdade por muito que ela o incomode a si e a outros (é justamente esse o meu objetivo).

Não existe qualquer genocídio no Donbass, o que existiu foi uma guerra civil que causou mais de 14.000 vítimas de parte a parte, isto antes da Rússia ter invadido toda a Ucrânia, utilizando uma retórica antinazi em que se inclui muito naturalmente a resistência do genocida Estaline ao genocida Hitler, isso depois de o primeiro se ter metido na cama com o segundo para partilhar território de acordo com as respetivas zonas de influência, um conceito que Putin quer reeditar agora.

Vocês não têm mesmo uma perna com que se aguentar, estão moralmente falidos, e só o demonstram à exaustão com o apoio envergonhado a um agressor neo-imperialista. Espero que o povo se lembre disso quando exercer o seu direito de voto...

E é irrelevante a nacionalidade de Estaline, ou de Khruschev (que era de facto russo, e não ucraniano, embora fosse um admirador da língua e cultura ucranianas) ou Brezhnev (esse sim ucraniano) porque o imperialismo exercido sobre os povos da URSS e depois sobre os da Europa de Leste era e sempre foi russo.

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