As multinacionais da fé

Deus é uma perigosa ficção que conquistou, no início, gente primária e supersticiosa. Umas vezes extinguiu-se rapidamente, outras fez uma carreira gloriosa até atingir as classes poderosas que o confiscaram e transformaram em instrumento do seu próprio poder.

Se escasseiam os sócios, Deus dá origem a uma seita. Quando se reproduz e esmaga a concorrência, combate os indiferentes e passa a religião. Então, cria-se uma hierarquia, impõem-se regras, organizam-se as finanças e reduz-se a escrito a tradição oral sob os auspícios de um iluminado a quem Deus dita um livro, normalmente num sítio ermo.

As religiões do livro já foram a sofrida aspiração de quem tinha o medo e a fome como horizonte. O Paraíso tornou-se o bálsamo para o desespero, a aspiração inconsciente de uma sociedade sem classes, o desejo de pobres e infelizes se tornarem iguais aos ricos e poderosos, renunciando à luta.

A correlação de forças impôs em cada lugar a hegemonia de uma religião e definiu qual era, ali, o Deus. O Deus único e verdadeiro é o Deus de quem detém o poder, onde outro qualquer é pertença de quem não preza a vida. Muitas vezes foi expulsa a concorrência, com brutalidade e inaudita crueldade.

Foi então que se deu o salto dialético. A ficção institucionalizou-se, a vontade de Deus sobrepôs-se à dos Homens, a fé venceu a razão, o medo impediu o pensamento.

As religiões dividiram o mundo, de acordo com a sorte das armas, e nunca renunciaram ao proselitismo que impusesse o seu deus ao crentes doutro deus e, sobretudo, aos ateus. A distribuição de religiões tem áreas privativas e zonas de influência demarcadas que a globalização pôs em causa. Demolido o equilíbrio, acossadas pelo medo, algumas religiões entraram em histeria. Há o fantasma da extinção e do domínio de uma só.

O cristianismo, apoiado na cultura judaico-cristã, no poder económico e na força militar, partiu em vantagem para o ajuste de contas com o islão fanático. A ICAR pressentiu o perigo de o Vaticano se reduzir a um museu, subalternizado pelos protestantes, e tem tentado a fusão das várias correntes cristãs sob a hegemonia papal.

No seu proselitismo à escala planetária veio à tona o antissemitismo secular, o pasmo pela fé islâmica, a sedução pela intolerância e o fascínio pelo fanatismo, a acordar na ICAR a memória das Cruzadas e o entusiasmo do Santo Ofício, ora mitigado pelo papa de turno.

O próprio Opus Dei, uma espécie de braço armado do Vaticano, por ora sem recorrer ao terrorismo armado, não hostiliza o islão, com quem partilha ideias ultrarreacionárias, e recuperou o medo de uma alegada conspiração judaico-maçónica, a quem atribui, em delírio, a responsabilidade pelo agnosticismo, a laicidade e o ateísmo.

O Vaticano faz pressão para impor anacrónicas conceções aos Governos e ONGs e aguarda que se decida a correlação de forças para se empenhar na batalha final.

Comentários

Jaime Santos disse…
Caro Carlos Esperança, Eu não acho que a análise do poder das religiões seja central para a compreensão do fenómeno religioso. Até Orwell, que de crente não tinha nada, que eu saiba, dedicou a esse fenómeno um interessante ensaio: http://criticanarede.com/linguagemreligiosa.html. Como ele diz, é essa fome de imortalidade (como lhe chamava Unamuno), que é o aspecto central das crenças. Pelo menos no Ocidente, parece ser evidente que mesmo muitos crentes já não acreditam numa preservação da sua individualidade após a Morte, o que talvez explique a lenta agonia das religiões, sem que nada de particularmente positivo as substitua e que providencie um referencial ético às pessoas (a maior parte dos inúmeros descrentes contemporâneos não são Humanistas Seculares convictos, e muitos regressam à pura superstição). Quanto ao poder secular das religiões, ele é análogo ao poder conquistado pelas Ideologias. É, claro, o aspecto mais pernicioso das religiões, mas existirá onde quer que existam ideais, que eventualmente darão origem a novas religiões, basta pensar no culto do Ser Supremo durante a Revolução Francesa, ou no culto de Kim Il Sung, versão norte-coreana do Deus-Faraó...
Jaime Santos:

Não me afasto muito da interpretação que faz e reconheço a pertinência da ponderação.

Eu também tenho a minha 'crença' numa ética laica e num humanismo ateu.

O seu comentário convida à reflexão e é útil neste espaço e no contexto em que aparece. Obrigado.
Jaime Santos disse…
Caro Carlos, A diferença entre a crença de um Ateu, Agnóstico ou mesmo de um Deísta como Thomas Paine na necessidade de uma ética laica é que todos eles já fizeram o seu luto relativamente à possibilidade de uma preservação da nossa individualidade após a Morte. No 'Sentimento Trágico da Vida', Unamuno relata a conversa que teve com um camponês em que lhe disse que a existência de Deus nada tinha em princípio que ver com a nossa própria Imortalidade ao que este respondeu então para que serviria Deus? O abandono da esperança não é algo que o comum dos mortais esteja disposto a fazer (mesmo se poderá ser absolutamente necessário para o prolongamento da nossa Espécie no longo prazo, como observou Woody Allen, num raro assomo de seriedade). Como aceitar não somente a nossa perda (Epicuro dizia que onde existimos a Morte está ausente e depois desta a ausência é nossa), mas sobretudo a dos que nos são queridos? Camus dizia que aquilo que o Espírito aceita, o Corpo rejeita...
Jaime Santos:

Deixa-me deliciado com as referências e a reflexão. Tenho por Unamuno uma admiração equivalente à que ele nutria pelo nosso Camilo.

Os seus comentários mereciam mais do que um simples aplauso, talvez temas para um interessante debate.

A minha NET, onde tenho de esperar vários minutos para abrir um e-mail não permite uma simples continuação do debate sobre tão relevantes referências do nosso património cultural. Fico com vontade de voltar a estes temas. E não deixarei de ser ateu.
Jaime Santos disse…
Caro Carlos, Eu também não tenho religião, tenho quando muito um respeito grande pelo Deísmo de um Paine, ou pelo 'Panteísmo' de um Espinosa (que dizia que era um erro considerá-lo um Panteísta), ou ainda pelo Teísmo tolerante dos Estóicos. Tudo muito longe das tradições intolerantes do monoteísmo abraâmico, portanto. Longe de mim pretender convertê-lo ao que quer que seja. O que eu acho apenas é que a maior parte dos Ateus se distrai a ladrar à árvore errada como dizem os Anglo-Saxónicos ('bark at the wrong tree', sem intenção de ofender, claro), acabando no processo por aparecem como igualmente intolerantes. Os crentes não acreditam porque são ignorantes, ou vis, mas simplesmente porque querem ter Esperança no futuro. O abuso dessa Esperança para fins de obtenção de poder é que é criticável, mas o mesmo se passa com Ideologias puramente seculares e, já agora, de Esquerda. Se as pessoas encontrarem uma forma de negociar com a vida (que por vezes é profundamente difícil e trágica, como sabemos) que lhes dê paz e não me incomodarem, quem sou eu para lhes questionar as crenças? Por outro lado, dado que a nossa vida já é tão difícil, considero que não precisamos de uma polícia de costumes (divina, ou na forma do Virtuoso Governo Chinês, ou de quem quer que seja) que a dificulte ainda mais... P.S. Relativamente à questão da suposta agressão do Sheik Munir à Esposa, se for verdade é lamentável e condenável, mas será que deveremos concluir que o terá feito porque é Muçulmano? E se fosse um Ateu? Para mais, julgo que o Carlos defenderá, como bom Republicano, o Princípio da Presunção da Inocência, por isso discordo que dê relevância a tal notícia, ainda por cima publicada creio que nas páginas do Correio da Manhã. Todos sabemos como eles se entretêm a violar tudo o que é Segredo de Justiça e a não respeitar o Princípio da Presunção da Inocência e por aí a fora... Os nossos Inimigos não são as Pessoas Religiosas, ou os Monárquicos, conquanto que Democratas, são os Fascistas...
Jaime Santos:

Com a limitação da NET, apenas quero ainda dizer que quanto aos monoteísmos estou de acordo em relação ao seu malefício.

Já me caiu a NET 3 vezes. vamos ver se consigo publicar o que me apraz dizer sobre o Sheik Munir com quem tive uma discussão crispada na RTP-1, no programa Prós e Contras. Ele é dissimulado e nega o que esse manual terrorista Alcorão diz, dizendo que há uma interpretação correta diferente. Acho-o capaz de tudo. E tenho sentido as ameaças islâmicas na página do Faceboock e no Diário de uns Ateus, bem como através do meu endereço eletrónico que consta da página da Associação Ateísta Portuguesa de que sou presidente.
Jaime Santos disse…
Caro Carlos, Relativamente a possíveis leituras dos textos sagrados, eles são de tal modo contraditórios, que a sua interpretação diz muito sobre a pessoa que os interpreta e quase nada sob os ditos textos. Não sou versado no Alcorão, mas a Bíblia contem textos belíssimos (Génesis, Job, o Cântico dos Cânticos, o Eclesiastes, os Profetas, Salmos, partes do Evangelho, as Epistolas de Paulo, apesar do seu conservadorismo moral) e outros que são autênticos manuais de praticas barbaras, quando lidos a luz da nossa moral laica e iluminista (Génesis, Êxodo e Levítico, e partes do Evangelho, pelo seu anti-semitismo). A questão e que muito naturalmente as Religiões (primeiro o Protestantismo Progressista e depois o Catolicismo dentro do Cristianismo, o Judaísmo Liberal e mesmo a tradição Sufi dentro do Islão, creio) tem vindo lentamente a adaptar-se aos tempos modernos e a evolução da Moral. Claro que eles afirmam a pés juntos o contrario, o que e divertido por vezes de assistir, que a sua Moral e eterna. Quanto ao Sheik Munir, deve aplicar-lhe a mesma bitola que alguns adversários políticos deveriam (mas não aplicam) a José Sócrates. E justamente em relação as pessoas de quem não gostamos e de quem discordamos profundamente que deveremos ter o cuidado de garantir que os preceitos do Estado de Direito se lhes aplicam (e fácil exigi-lo para os nossos amigos e correligionários). Quanto as ameaças que recebe, são claro lamentáveis, as pessoas ainda não perceberam que se a Liberdade de Expressão significa alguma coisa e justamente a Liberdade de nos sentirmos ofendidos. Mas, ainda relativamente aos Muçulmanos, penso que deveremos apesar de tudo mostrar alguma compreensão, porque muitos sentem a critica a Religião como uma manifestação de Racismo (a maior parte são pessoas de cor) e não sem alguma razão, já que basta ver que alguns dos críticos do Islão estão na Extrema-Direita (UKIP, FN, etc). Pouco se lhes importa a posição intolerante da maioria dos Muçulmanos em relação as mulheres, ou a sexualidade (provavelmente pensam de maneira semelhante), o que lhes importa e que atacando o Islão podem defender as suas posições anti-imigração sem serem diretamente acusados de Racismo.

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