O SR. Duarte Pio e a entrevista ao DN


Com o país a arder, a economia moribunda, o desemprego trágico e a dívida pujante, o DN, que há dias tinha publicado uma entrevista à mulher, dedicou hoje ao Sr. Pio cinco páginas completas. Só a capacidade de sofrimento de um republicano, ateu e democrata, permite o esforço de tentar descobrir ideias nos mitos do mais jurássico reacionarismo.

Para poupar os leitores ao suplício da leitura, respigo, segundo o meu critério, algumas afirmações interessantes do descendente do caceteiro Sr. D. Miguel, o cabotino real que ensanguentou o país na obstinação da monarquia absoluta.

O Sr. Duarte Pio começou por debitar uma fantasia que o salazarismo lhe inventou para o nacionalizar – o nascimento. Na véspera foi ao cinema na barriga da mãe donde foi para a Embaixada de Portugal onde nasceu “no dia seguinte às tantas da manhã”. Teve como padrinho de batismo o Papa Pio XII e como madrinha a rainha D. Amélia.

Sente-se mais à vontade nas questões de fé do que nas económicas, o que se entende. Considera injusto que se canonizem outros papas e Pio XII continue à espera. Acha que ‘Bento XVI também tem uma linguagem teológica muito rigorosa’ e ‘o Papa Francisco fala de improviso, um bocado como se fosse ainda um pároco na Argentina’ [sic].

Quanto à homossexualidade e ao divórcio, ‘tem de ser aberto, generoso e hospitaleiro com as pessoas que escolhem opções que a Igreja e a doutrina de Cristo consideram erradas. Mas não é razão para os tratar mal´, condescende.

Inventou, aos 10 anos, ‘um sistema que era um pano com uns ganchinhos e umas argolas para pendurar à volta do guarda-sol  e fazer uma tenda e, depois, umas cordas para segurá-los à areia’, porque, nas praias, não havia abrigo para o sol.

O pretendente à coroa inexistente, começou por saber, na Suíça, que em Portugal ‘havia políticos maus que não nos deixavam voltar [onde nunca estivera]. Quanto às eleições, só vota nas autárquicas e nas últimas não votou ‘porque era amigo de vários candidatos e por isso acabei por não votar para não ter de escolher entre eles’. Acha que, se fôssemos uma verdadeira democracia, não se proibia na Constituição que o povo português se pronunciasse quanto à forma da chefia do Estado (talvez de forma definitiva, digo eu).

Falou do convite que Ronald Reagan lhe fez para se candidatar a PR [de Portugal, não dos EUA] para depois fazer um referendo sobre a monarquia. E confessa: «Admiro muito e gosto muito do nosso Presidente [Cavaco] e do general Ramalho Eanes e outros que tivemos antes. O único presidente com quem a família teve problemas foi o Craveiro Lopes» (presumindo-se que Carmona e Tomás eram tão bons como o atual).

Finalmente, para não maçar os meus leitores, só acrescento que o Sr. Duarte Pio usa ‘com cuidado o telemóvel, de preferência à distância, «porque não quero ter as radiações das micro-ondas a fritarem os meus miolos», como se fossem abundantes os neurónios em quem tem tão pouco miolo!

Comentários

Jaime Santos disse…
Se o único critério para o exercício da Chefia do Estado é o de parentesco, com frequência é mesmo essa a única qualidade que os monarcas ou os pretendentes a tal (nas monarquias ou nas repúblicas) demonstram. O que é bem o caso do exemplo citado.
Artur Gomes disse…
O Bragança saiu-me cá um pândego...

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