A laicidade e o islamismo político

Entro em 2017 com a certeza reforçada de que o islamismo político e os valores liberais do Ocidente são incompatíveis. Desconheço, aliás, religiões que defendam as liberdades individuais, mas a repressão sobre o clero forçou-as a aceitar a separação do Estado, isto é, a laicidade, enquanto o Islão político combate o Estado de direito.

A ilusão de que é a direita política que defende os valores civilizacionais, confundidos com a tradição que lhe foi imposta, cria uma perigosa confusão entre atitude liberal nos costumes, apanágio da civilização e herança da esquerda, e a opção liberal na economia.

O Islão não tolera a música, a arte ou a felicidade, não aceita a igualdade de género nem prescinde da escravização da mulher, entre outras aberrações comuns aos monoteísmos, combatidas na civilização ocidental, após o longo processo renascentista, iluminista e da Revolução Francesa.

A passagem do ano em Colónia, na Alemanha, foi este ano vigiada por forte dispositivo policial, para evitar a repetição das violações do ano anterior em que islamitas dementes foram os desvairados autores.

O ano começou, aliás, com um ataque a uma discoteca, em Istambul, na Turquia, onde o Irmão Muçulmano Erdogan não pôde destruir ainda todo o legado de Atatürk. Trinta e nove mortos e 69 feridos foi o resultado da sanha de quem acredita no “beduíno amoral e analfabeto” como profeta, ali onde a Turquia deixa de ser Ásia e a Europa começa.

Na Holanda, onde uma em cada três mesquitas é salafista, o Instituto Verwey-Jonker, especializado em sociologia, descreveu as regras dessas mesquitas. Estão na vanguarda da alienação sunita, o que levou Lodewijk Asscher, ministro dos Assuntos Sociais e líder social-democrata, a apelar aos pais holandeses para retirarem os filhos das aulas de Corão ministradas na mesquita salafista Al Fitrah, em Utrecht.

As regras impostas nessas mesquitas, segundo o Instituto atrás referido, incluem «evitar muçulmanos moderados, rejeitar a música, o cinema, as excursões de tipo cultural, e a separação entre homens e mulheres. Esta última atinge professores, especialmente as professoras, na escola primaria, a quem não devem cumprimentar com o aperto de mão com que é hábito os alunos holandeses despedirem-se no fim de cada dia de aulas». (El País, ISABEL FERRER, Haia 27 dez. 2016)

A defesa da laicidade e da civilização exige a interdição dos locais mal frequentados e o julgamento dos clérigos. Não são templos, são escolas terroristas, e a laicidade impõe a absoluta neutralidade do Estado em relação às religiões, sem as isentar do Código Penal.

Ponte Europa / Sorumbático

Comentários

e-pá! disse…
Voltamos recorrentemente ao mesmo problema. Aceitar as migrações populacionais (exilados, refugiados e migrantes económicos), defender a liberdade religiosa para todos e promover a integração social e cultural seria o princípio civilizacional posto em marcha na Idade Moderna.
Esta trilogia não está a funcionar. E os conflitos decorrentes de falta de projetos, impasses e indecisões levam a posições radicais, se não fundamentalistas que alimentam populismos (na sua maioria xenófobos).
Até aqui o 'multiculturalismo' foi a tentativa de resposta que não deu os frutos esperados.
Por outro lado, o medo da 'islamização da Europa' pode (está a) levar a alterações políticas que se viram contra o património social, cultural e humanitário europeu.

Evitar (mais) uma guerra de contornos religiosos requer uma nova visão identitária dos povos, necessariamente laica e absolutamente concordante com os Direitos Humanos.
Não vai ser fácil. Até porque os problemas não se cingem as questões religiosas e abarcam simultaneamente as hegemonias económicas e financeiras.
Todavia, existe cada vez mais a sensação de que estamos à boca de uma incontornável encruzilhada e será trágico protelar as escolhas.
Vivemos, desde a Revolução Francesa, o mais intenso espectro de regressão civilizacional - que urge evitar.
Manuel Galvão disse…
É paradoxal que, para se defender a liberdade religiosa, tenhamos que proibir o culto de outra religião.
Não nos podemos esquecer que também a religião católica proibiu qualquer atividade laica que desse prazer. Tudo tinha que ser feito para glória do Senhor. Música, literatura, arquitetura, pintura e até sexo(!).
A revolução francesa foi uma barbárie. Cortaram a cabeça a centenas de milhares de inocentes só por serem suspeitos de não pensarem como este ou como aquele facínoras conotados com a revolução. A revolução russa foi outra barbárie. As duas juntas conduziram o Ocidente ao que hoje ele é; centrado nos direitos do indivíduo e descentrado dos direitos do coletivo.
Como consequência disso, o individuo ocidental vive à deriva na sociedade, à mínima restrição das suas liberdades individuais acaba com os laços familiares, não comparece às reuniões do condomínio, nem na assembleia municipal aonde se decidem coisas que lhe dizem respeito mas que não lhes interessam porque dizem respeito ao coletivo. Não vota em eleições.
Este hiper-individualismo está a enfraquecer muito a sociedade ocidental. A perda do interesse da defesa do coletivo por parte do indivíduo torna-o indiferente aos valores da defesa da cultura ocidental (a mesma que o transformou em individualista) e quando for necessário defendê-la ele vai recusar-se a pegar em armas, vai preferir deixar-se colonizar por outras culturas, e será tarde demais para mudar de atitude.
Estamos portanto nos preliminares da Queda do Império Democrático do Ocidente.


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