Catarina Eufémia – 19 de maio de 1954

Há 63 anos foi assassinada a tiro uma ceifeira analfabeta, mãe de três filhos, durante uma greve de assalariados rurais, a resistir à repressão fascista. Para a História ficou a coragem da jovem que o tenente Carrajola, da GNR, assassinou, e o símbolo da mulher corajosa, que perdura na memória dos que não esquecem a ditadura salazarista.

Quando, por toda a Europa, a hidra fascista renasce sob vários disfarces, recordar aquela mãe-coragem de 26 anos, é homenagear as mulheres que lutaram pela liberdade e combater o esquecimento.

Ser mulher, pobre, analfabeta e assalariada rural foi o ónus de milhares de portuguesas que suportaram amargamente a ditadura. Catarina morreu a combater com a intuição de que vale mais morrer lutando do que desistir e sobreviver na escravidão.

***

RETRATO DE CATARINA EUFÉMIA

Da medonha saudade da medusa
que medeia entre nós e o passado
dessa palavra polvo da recusa
de um povo desgraçado.

Da palavra saudade a mais bonita
a mais prenha de pranto a mais novelo
da língua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.

Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do sol
na culatra da noite.

Meu amor. Minha espiga. Meu herói
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.

(José Carlos Ary dos Santos)

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