A Igreja católica no seu labirinto

Sabe-se que a Igreja católica, enquanto defendia a moral mais conservadora e os valores mais reacionários, silenciou crimes cometidos no seu próprio seio e ordenou sacerdotes bandos de pedófilos. Pior, encobriu-os e mudava-os de paróquia, para onde os nómadas levavam o vício, a desgraçar crianças e adolescentes.

O que não pode ser esquecido é que a Igreja católica não tem o monopólio desse tipo de perversão e a divulgação exclusiva dos seus crimes não tem apenas em vista a denúncia e punição dos prevaricadores, visa beneficiar os interesses de outras Igrejas e amordaçar o atual Papa, que tem tomado atitudes corajosas no seu pontificado.

Esquece-se mais facilmente a cumplicidade com ditaduras fascistas do que se perdoa o alinhamento com a modernidade. O episcopado ultramontano que não aceita a rutura do Papa com a perpetuação da moral da Idade do Bronze, prefere destruir a Igreja a aceitar que acerte o passo com os valores civilizacionais.

A Europa tem sido varrida, depois da vitória sobre o nazismo, por sucessivas vagas de conservadorismo, cada vez mais reacionárias, no retorno aos anos trinta do século XX. Reagan, Thatcher e João Paulo II protagonizaram a primeira vaga contra as conquistas sociais e a liberalização dos costumes; depois veio Bush, Blair e Aznar; agora é a vez de Trump, May e vários neofascistas que ascendem ao poder na Europa e no mundo. Cada nova vaga é mais violenta do que a anterior.

Este Papa é um alvo a abater. Não é de admirar que tenha sabido de casos de pedofilia e que, à semelhança de João XXIII, não tenha sabido dar a resposta que devia, mas seria ingénuo atribuir ao acaso a denúncia do arcebispo Carlo Maria Viganò.

O ex-embaixador do Vaticano em Washington, de extrema-direita, nomeado arcebispo por João Paulo II, divulgou cirurgicamente, horas antes da habitual conferência de imprensa a bordo do avião papal, uma informação que, a confirmar-se, seria de enorme gravidade. Francisco foi colhido de surpresa na sua viagem traumática à Irlanda, onde a Igreja cometeu tropelias durante séculos e o aguardavam as vítimas, com a acusação de que encobria abusos sexuais e sabia dos do cardeal McCarrick, que descurou, e outras acusações dirigidas ao clero mais próximo e de maior confiança do Papa.

Viganò é um experiente quadro da carreira diplomática e integra o numeroso grupo que acusa o Papa Francisco de cometer 7 (estranha fixação neste número primo!) heresias. O seu ataque cínico e premeditado é uma agressiva declaração de guerra ao atual pontífice, e tem atrás um bem organizado exército de sotainas que não hesitará em afastá-lo, ainda que provoque uma cisão na Igreja católica.

A luta pelo poder é a manifestação de força do obscurantismo contra a modernidade, e a vítima é o Papa Francisco, que procura reconciliar a Igreja com as sociedades laicizadas e democráticas, com a determinação de um jesuíta e a paciência de um franciscano, mas o tempo e os ventos reacionários que sopram na Europa e no mundo ameaçam varrê-lo.

Dos escombros da Igreja católica nada brotará de bom e no Islão a pedofilia não choca.

Ponte Europa / Sorumbático

Comentários

Jaime Santos disse…
É francamente injusto meter Theresa May nesse saco de reacionários, Carlos Esperança. A PM britânica é alguém com laivos de conservadorismo moral (é filha de um reverendo anglicano anglo-católico), teve uma controversa passagem pelo Ministério do Interior Britânico, mas não é nenhuma fascista. Representa, isso sim, o 'One-Nation Torysm' de Disraeli, abandonado por Thatcher, um conservadorismo assistencialista e paternalista, mas de credenciais democráticas impecáveis.

Se você tivesse falado em Boris Johnson ou Nigel Farage, eu nada teria a obstar...
Julio disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Julio disse…
Abaixo a Concordata com os papas!
Acabe-se com a fantochada e fraude da SEITA papal em Portugal!
A religião que cometeu CRIME para proteger os seus agentes ou dogmas tornou-se criminosa.
Digo e insisto: ABAIXO A CONCORDATA!!
Ninguém precisa de igreja alguma ou papa algum para ser uma pessoa decente na sociedade!
Julio disse…
Este papa é tão casuístico como os anteriores, moralmente artificioso, protegendo a elite parasitária da agenda sinistra e criminosa onde é cabeça, ou vigário, escondendo debaixo da farda um personagem jesuíta pronta a anatematizar os adversários!
Insisto: abaixo a Concordata parasitária que Portugal impôs ao seus filhos!

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