Considerações sobre as consequências um ‘assédio turístico’…


Notícia de ontem: trabalhadores (temporários) de turismo no Algarve confrontam-se com um enorme problema. Trata-se de um trabalho sazonal que se tornou, na prática, impossível. Se não residirem no Algarve e tiverem oportunidade de usar uma casa familiar não conseguem um alojamento provisório compatível com os (magros) vencimentos que auferem. Ora, estas circunstâncias vão determinar uma deterioração (desclassificação qualitativa) dos serviços prestados (vendidos) aos turistas.
Este é um epifenómeno que salta à vista mas que está inserido em vastas alterações económicas e sociais, nomeadamente na oferta turística e com reflexos directos nas atividades culturais, lazer e divertimento que a complementam.

Existem hoje cidades europeias impossíveis de abordar nas chamadas 'épocas altas' (Barcelona, Veneza, Roma, Paris, etc.) e a tendência é no sentido de a situação se agravar. O desenvolvimento de um ‘mercado turístico’, desregulado, onde a oferta está sempre em crescendo, mesmo quando já foram ultrapassadas as condições físicas para tal, só leva a um caminho: a saturação.
Ninguém viaja para se inserir num ambiente saturado por mais interessante que possa ser a paisagem (entendida num sentido amplo).

Mas se, no momento, existem cidades (e até regiões) ‘invisitáveis’ pior situação será a das pessoas que as habitam quotidianamente, já que as mesmas se tornaram praticamente inabitáveis. À usura da paisagem urbana (ou rural) edificada (seja histórica ou de lazer) sucede o colapso da ‘paisagem humana’ residente.

A uma melhor e mais facilitada mobilidade local e internacional (voos low-cost, cruzeiros, excursões, etc.) a que devemos acrescentar o disparar da instalação (remodelação/requalificação) de novas e maiores capacidades locais para albergar turistas (alojamento local, o sistema airbnb, etc) e uma maior acessibilidade à fruição de bens culturais e divertimento, parecendo uma resposta lógica ao disparar da procura, só veio agravar os problemas, por notória sobrecarga de demanda que rapidamente ultrapassa a capacidade de (boa) receção.
Na verdade, nos centros urbanos, onde se centraliza a oferta e a procura turística e, onde se localizam os grandes, apetecíveis e variados atrativos, não resistem ou, melhor, não sobrevivem, fora do contexto social e cultural da população residente.
 
O aumento do ‘fluxo turístico’ não existe isoladamente, nem é indiferente do contexto social e cultural. A esse notório incremento - que se verifica - devemos associar as migrações internas do campo para a cidade (onde está sedeado muito do património artístico, cultural e monumental) e do interior para o litoral (onde se encontram a maioria das instâncias balneares) e, portanto, a situação não configura um simples disparar da procura turística para adquirir aspetos de 'engarrafamento' e verifica-se assim uma ‘intolerável e destrutiva pressão’ sobre a sociedade.

As cidades não resistirão a esta pressão e colapsarão deitando por terra tudo desde a atratividade natural ao negócio montado à sua volta (que vai do alojamento, à restauração, às diversões).

Olhar para o turismo enviesadamente como uma 'indústria exportadora’, que tem a capacidade de equilibrar orçamentos e estabilizar deficits da balança de pagamentos e tentar explorá-la para além dos limites do razoável será uma atitude muito limitada, redutora e contraproducente. A médio prazo terá como consequência matar a ‘galinha dos ovos de ouro’.
De facto, o nosso País só será capaz de sustentadamente - para usar um termo querido do economês – beneficiar do turismo se for capaz de o ‘descentralizar’, isto é, de promover - incluir no pacote da oferta - o interior pobre, abandonado, carente de infraestruturas mas, como sabemos, depositário de muita História, património,virtudes, autenticidade e encanto.
 
Aliviar a pressão turística urbana é uma tarefa prioritária e urgente. E atenção: defender esta mudança não significa estar contra o turismo, nem querer fechar o País ao exterior (como se apressarão os homens da ‘indústria turística’ a vociferar).
Quanto mais tarde o fizermos maior será o tombo porque todos sabemos que a procura não crescerá indefinidamente.

Existem várias abordagens - por essa Europa fora - a este ‘assédio turístico’. Está na altura de as estudarmos e adaptarmos à nossa realidade. Espremer ou torturar mais o atual contexto – por maior pressão que façam os lobbys do turismo – só conduzirá ao ‘secar da teta’. E, nessa altura, esses investidores (os grandes industriais) deslocalizarão os negócios turísticos para outras paragens, deixando os portugueses arruinados no meio dos escombros do que agora parece ser um ‘el dorado’, mas não tardará a revelar-se como sendo (mais) um engano de alma ledo e cego (que a fortuna não deixará durar muito…).

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