Salazar – o princípio do fim do ditador (2 de agosto de 1968)

cinquenta anos, depois de um calista lhe ter tratado os calos, algo que ele pisou aos portugueses durante quatro décadas, o ditador caiu. Estava de férias no Forte de Santo António da Barra, em São João do Estoril, e não preso, como era justo.

O desejo do povo oprimido cumpriu-se, não pela força da justiça que merecia, mas pela força da gravidade que o projetou da cadeira, onde o caruncho laboriosamente fez o que devia, e não o suportou. Essa cadeira do nosso alívio devia estar no museu do fascismo, desconjuntada, para que pudéssemos homenageá-la e louvar-lhe a eficácia.
 
Dizia-se que lhe faltavam duas cadeiras, a cadeira elétrica e a cadeira na cabeça, e havia de ser a cadeira onde se sentava que libertaria o país do mais longevo ditador europeu. O caruncho terá feito, no seu persistente labor, o que os patriotas não conseguiram, mas não era o fim que merecia.

Devia ter sido confrontado com os crimes do regime, com os massacres que permitiu, a Pide que criou, o medo que infundiu, as famílias que destruiu, as prisões que abriu para adversários, a tortura a presos, meio milhão de jovens que sacrificou na guerra colonial, a censura com que amordaçou a comunicação social, os assassinatos que consentiu ou ordenou, o apoio a Franco, a entrega dos fugitivos da guerra civil espanhola, para serem fuzilados, o analfabetismo, a fome e o atraso a que condenou o país, a discriminação da mulher, que promoveu, etc., etc..

As grotescas reuniões do Conselho de Ministros no hospital da Cruz Vermelha, onde os sequazes se deslocavam, persuadiam-no de que era ainda o Presidente do Conselho.

Há cinquenta anos, a guerra continuava no Niassa e em Cabo Delgado e já estava para breve a sua extensão a Tete, mas as boas notícias demoraram a chegar a quem sabia que era injusta e inútil a guerra, além de criminosa.

Seria hipócrita não dizer que a notícia me encheu de esperança, mas a libertação do jugo da ditadura só chegaria numa manhã de Abril, vários anos e muitas mortes depois. 

Comentários

Jaime Santos disse…
Não deixa de ser triste pensar que nesse ano de 1968 a revolta dos estudantes rugia em Paris, a URSS avançava sobre a Checoslováquia e a Apollo 8 dava a volta à Lua, enquanto Portugal continuava preso a um passado medíocre e clerical por obra e graça do de Santa Comba. E, se algo mudou as coisas, foi justamente a guerra colonial, para bem ou para mal...

Mas bem haja o caruncho, porque tenho dúvidas se o 25 de Abril de 1974 teria resultado com Salazar à frente da Presidência do Conselho, em lugar do fraco Marcelo Caetano que, embora fosse intelectualmente um gigante face ao seu predecessor, não tinha nem de perto, nem de longe, o instinto político dele. De recordar a forma brilhante como Salazar se livrou de Botelho de Moniz...

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