ICAR – Da primeira à última confissão - Crónica

Quando a Ti Ricardina e a menina Aurora, sua sobrinha, me ensinavam o catecismo e o ódio aos judeus, comunistas, maçons, sacrílegos, apóstatas e outros malfeitores que não seguiam a única religião verdadeira, a delas, não imaginava que lhes guardaria a afeição que se dispensa a quem devemos a primeira vacina.

O meu nascimento na casinha térrea no Bairro Galego, de Escalhão, naquele dia 17 de dezembro de 1942, viria a ser premonitório do nascimento de um ateu, tal o número de candidatos a padrinhos de batismo do neófito. Eram o Tó Vieira, de Almeida, o meu tio Alfredo, o prof. Carlos, o único que tratei por padrinho, que viria a presentear-me com o ‘Cristo Nunca Existiu’, de Emilio Bossi, e à madrinha Irisalva, sua cunhada.

A fé e o medo do Inferno vieram durante o tempo da escola primária, e foi na catequese que o medo do Inferno e das almas do outro mundo veio ao meu encontro pela voz das doces catequistas. O Purgatório era outro dos medos e o Limbo motivo de desolação. O sofrimento de Cristo e a raiva a Pôncio Pilatos, metido acidentalmente no Credo, eram torturas para a criança sensível que fui.

Um dia assisti a um pôr do Sol com vermelhidão intensa antes de entrar na igreja e de pedir uma explicação à Ti Ricardina, que logo esclareceu que era um sinal de que os comunistas matariam os cristãos, tinha-o dito a Lúcia. Eu, que rezava pela conversão da Rússia, todas as noites, como a Lúcia pedira, saí da catequese a chorar, e foram outros garotos, indiferentes à Lúcia, aos comunistas e à catequista que me levaram a casa onde perguntei à mãe se o meu pai, que não ia à missa, teria culpa pelo perigo que corriam os cristãos. De como a minha mãe tentou tranquilizar-me, não me recordo. Sei que o meu pai, no domingo seguinte, esperou o padre à saída da missa e queixou-se da ignorância das catequistas e dos terrores que infundiam, alertando-o para os disparates com que lhe aterrorizavam o filho. Regressou espantado com a resposta do padre, que lhe confirmou ser verdade a advertência da Lúcia e a necessidade de rezar pela conversão da Rússia. E que perigoso era para um casal de funcionários públicos tirar o filho da catequese!

Ficou o agnóstico descoroçoado e o filho a viver terrores noturnos com as labaredas do Inferno a entrarem nos sonhos, as caldeiras de azeite fervente a frigir almas e o Diabo a mergulhá-las com um enorme garfo de três dentes, durante os anos sacramentados com a eucaristia e a penitência até à confirmação que o Sr. Dom Domingos me impôs por se ter finado o antecessor, José Alves Matoso, que o Senhor chamara, depois de 38 anos de mitra, báculo e anelão, à frente da diocese.

Tinha, pois, dez anos quando fiz a comunhão solene, vestido de Cruzado, e fui crismado pelo Sr. D. Domingos, que me besuntou com os santos óleos para os quais o padre Faria não tinha alvará, o que levou o Sr. Bispo a deslocar-se ao Cume e a indagar quem queria ir para o seminário. Antecipei-me aos outros e disse-lhe logo que só o Zé Marcelino.

Nesse ano entrei no liceu da Guarda e nunca mais rezei o terço ou me lembrei do mês de Maria, em maio, quando todas as noites sofria o frio da igreja enquanto o Sr. António Bernardo orientava o terço, com cada mistério a arrastar um pai-nosso e dez ave-marias.

Até da missa, com posologia semanal, comecei a fazer o desmame. Nos três primeiros anos só fui à missa no 1.º de Dezembro, a desfilar fardado da Mocidade Portuguesa, e à missa pascal, com comunhão, antecipada para não coincidir com as férias, precedida da desobriga coletiva que o padre Cabral e o Dr. Ramalho estimulavam.

Foi já no 4.º ano, quando perguntei ao confessor se eu podia deixar de cometer pecados, dado que Deus já sabia que os cometeria e teria culpa. Foi dramático ouvir dizer-me que tinha a mão de Satanás na garganta e que não podia dar-me a absolvição, embora eu não sentisse tal mão. Já resignado a erguer-me, sem os sinais cabalísticos que lavam à alma os pecados, olhei para trás e vi o Dr. Ramalho genufletido, à espera da sua confissão, e de cuja vingança pia tive mais medo do que do eventual castigo divino. Num ápice disse ao padre que Satanás tinha tirado a mão, e eis que me mandou rezar o ato de contrição e me deu a almejada absolvição. Preenchi a ficha para a estatística da paróquia da Sé, que ficava no padre, e não era previsível que fosse enviada a Deus, com as pernas a tremer.

No dia seguinte não fui à missa nem à comunhão. Acabou aí a relação com a Igreja que tanto pavor me provocara. Só voltei à missa na consagração do curso de 1959/61 da Escola do Magistério da Guarda, tradição vigiada pelo diretor, quando os docentes do ensino primário eram obrigatoriamente católicos, mas dessa missa, da dissimulação a que fui constrangido e das respetivas circunstâncias hei de falar noutra crónica.

A visão do Dr. Ramalho não me reforçou a fé, mas levou-me a resistir ao proselitismo, a libertar das crenças e a reagir à repressão. Devo muito a ele, às minhas catequistas e à multidão de sotainas que enxameavam a Guarda com um padre tonsurado dentro, de colar romano ao pescoço.

A vacina vitalícia da descrença foi aquela última confissão. Já leva 62 anos de eficácia.

Ponte Europa / Sorumbático 

Comentários

rui esteves disse…
Eu nasci e vivi em Carrazeda de Ansiães até aos meus 10 anos. E quando entrei para a escola primária, uns dias depois do início das aulas, a professora perguntou quem tinha ido à catequese. Lá em minha casa nem sequer havia o hábito de ir à missa dominical. Na minha inocência, informei que não tinha ido à catequese e aí aprendi à minha custa que era obrigatório ir. A professora, que até era irmã da minha avó - mas ali não havia laços familiares - chamou-me à secretária e presenteou-me com uma reguada pela falha. E a partir daí, fui um ferrinho na catequese. A catequista, uma senhora solteira entre os cinquenta e os sessenta, a cheirar a fumo e a mal lavado, ensinava coisas interessantes: por exemplo, rezar com as mãos postas viradas para baixo era rezar ao diabo. Nós morávamos no cimo da vila e para chegar à igreja eu tinha que passar em frente ao largo da farmácia Raínha. O sr. Raínha tinha um cão e este cão achava que era o dono do largo. E quando eu chegava ao início do largo, o cão fingia que dormia. Devagarinho, para não acordar o maldito cão, eu ia avançando. E quando estava a meio do largo, já sem possibilidade de voltar para trás, o maldito cão acordava e vinha a ladrar, a ladrar, e eu a correr, a correr, sempre à rasca, e sempre em risco de levar uma dentada no rabo. O cão nunca me conseguiu agarrar. E eu dia após dia, durante 3 anos, arrisquei a minha vida para chegar à igreja. Se isto não vale um monte de indulgências, não há justiça.
Rui Esteves:

Temos ambos indulgências que sobram. Entre um cão e duas catequistas eu era capaz de escolher o cão.

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