Paulo Rangel – O algoz tornou-se vítima

Muitos portugueses souberam do vídeo divulgado sobre o eurodeputado Paulo Rangel através do próprio. É uma cena de um homem bêbedo em sucessivos ziguezagues numa rua deserta, demasiado estreita, para cambalear à vontade.

Não me merece qualquer reprovação. Quem nunca se embebedou que atire o primeiro copo. Duvido mais dos que nunca cometeram um exagero ou transgressão do que dos santos, e não restem dúvidas de que foi cobarde e pusilânime quem o filmou e, alguns anos depois, o expôs à execração pública.

O argumento mais canalha para justificar a divulgação de cenas privadas é a justificação de que tem interesse público tudo o que se relaciona com figuras públicas. É falso, e diz mais sobre o bufo do que sobre a vítima.

Este caso é, aliás, inócuo para a reputação do político e não me parece que lhe retire votos em eleições. Pode provocar sorrisos, e não é mais ridículo do que tirar as catotas do nariz nas sessões do Parlamento Europeu.

Dito isto, e subscrevendo o desabafo de Paulo Rangel, num tweet do próprio, não posso deixar de recordar ao arruaceiro das terças-feiras, no jornal Público, os assassínios de carácter que semanalmente faz a adversários políticos.

A razão que ora lhe assiste como vítima perde-a semanalmente como algoz, na aptidão para a chicana e nos ataques ad hominem, contra adversários.

Não se conhece a Paulo Rangel o pudor republicano que o iniba de ampliar campanhas onde os casos pessoais servem, à míngua de argumentos, para denegrir figuras públicas dos partidos concorrentes, nem qualquer ato de solidariedade para com vítimas políticas de campanhas orquestradas para as destruir.

Exige-se a Paulo Rangel, não tanto a Nuno Melo, mais próximo do fascismo, que não se envolva em campanhas negras, e que, de vez em quando, se indigne com a imprensa ao serviço da pior direita, quando divulga conversas íntimas de arguidos, que o STJ manda destruir, por ausência de interesse processual, e que algum magistrado venal se esquece de cumprir, para acabarem na primeira página de um qualquer pasquim.

A razão que ora tem é a que perde no sectarismo que o acompanha e no silêncio a que se remete quando as vítimas são outras.

Paulo Rangel não precisa de solidariedade pelas cenas vulgares que não são infamantes, precisa de se solidarizar com os adversários vítimas da devassa da intimidade através da exposição pública da intimidade e que, ao contrário de uma simples bebedeira, destroem a família, a reputação e a carreira política do visado.

Quanto a quem é capaz de expor cenas privadas de quem quer que seja, que não lesam o país nem têm relevância penal, apenas denigrem os autores, herdeiros dos que nos espiavam nos cafés, escutavam telefonemas ou violavam a correspondência durante a ditadura.

Ponte Europa / Sorumbático

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