«QUAL A INFLUÊNCIA DA RELIGIÃO NA POLÍTICA?»

Por Onofre Varela

A frase que faz o título desta crónica vi-a há dois dias, em rodapé de um programa de televisão, motivando-me a escrever sobre ela. 

Qualquer enciclopédia nos diz que “Religião” é termo que designa um sistema sócio-cultural (de entre outros sistemas) que abarca divindades, práticas, profecias, crenças, cosmovisões, profecias, éticas, sobrenaturalidade, transcendência, espiritismo e também espiritualidade. 

O divino e o sagrado são elementos comuns à maioria esmagadora das religiões, as quais existem em número desmedido… são cerca de 10.000 em todo o mundo… e, curiosamente, cada uma afirma ser “única e verdadeira”, na demonstração da pequenez de quem que as fundou e lidera! 

Nas práticas religiosas incluem-se rituais, sermões, festivais, venerações, sacrifícios, festas, transes e iniciações, mas também serviços prestados à sociedade onde cada religião se estabelece, como casamentos e funerais (inseridos nos rituais) e a comercialização de creches, infantários e escolas. 

Em Portugal, a religião Católica faz a fé dos portugueses desde 5 de Outubro de 1143 (há 882 anos), quando, na Conferência de Zamora, se assinou a independência de Portugal entre D. Afonso Henriques (conde de Portucale) e o seu primo Afonso VII de Leão. 

767 anos depois, no mesmo dia e mês (5 de Outubro… mas de 1910) a monarquia portuguesa teve o seu fim e foi implantada uma república laica. 

A Igreja Católica foi perseguida pelos primeiros republicanos anticlericais (atente-se que ser  “anticlericalista” ou “antirreligioso” não são a mesma coisa. Se o primeiro “anti” teve razão de existir como antídoto a um clericalismo feroz que nos oprimia, já o segundo me parece não ter sentido, pois o Homem é um ser religioso por natureza [se o não fosse, não tinha criado deuses], característica que me parece não merecer discussão. Mas já podemos e, sobretudo, devemos, discutir as práticas das várias religiões e o aproveitamento político que delas se faz… mas isso já é outra conversa… e a política que se lhe mistura faz a razão desta crónica). 

Em 1911, com Sidónio Pais (após um ano de República anticlericalista) foram reatadas as relações diplomáticas com a Santa Sé, e o Catolicismo retomou o caminho que em Portugal vinha fazendo no tempo da monarquia… até hoje. 

E chegamos à razão do título desta crónica. 

À pergunta formulada, eu respondo: “Sim, a religião tem muita influência na política”. Essa influência é exercida por exploradores das mentes dos cidadãos menos atentos, que estejam desligados da História e da filosofia comportamental, e sejam imbuídos de um “sentimento religioso com defeito”, o que os leva a aceitar discursos extremistas que influenciam o seu sentido de voto, não percebendo (para desgraça de todos nós) que votam contra si próprios… (e contra mim… o que é bem pior!). 

Não é por acaso que o líder da extrema-direita exibe, amiúde, um rosário ou um crucifixo; e que diz ter acabado de assistir a uma missa. 

Este discurso leva os religiosos (católicos e evangélicos, quando o são no pior sentido dos termos: o extremado), a votar num vírus destruidor da Democracia… a mesma Democracia que permite ao tal vírus nefasto e maléfico, sentar-se no Parlamento, semear insultos para os seus parceiros parlamentares e sementes de erva daninha na sociedade. 

Sim, sem dúvida, a Religião influencia a Política. 

Porque a Religião é uma actividade humana, ela é, também, uma actividade política. 

E num Parlamento democrático, republicano, laico e respeitador do Ser Humano (como é o nosso desde que se rege pela Constituição da República Portuguesa aprovada na Assembleia Constituinte em sessão plenária a 2 de Abril de 1976) aos grupos extremistas devia ser negado assento. 

Partidos racistas, xenófobos e desagregadores da sociedade, não me merecem crédito, e também não deviam merecer existência legal, exactamente por serem inimigos da ordem e da lei que a nossa Constituição regista e defende. 

E não é a Constituição que está errada!… O erro mora na mente de quem a quer destruir.


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Coimbra - Igreja de Santa Cruz, 11-04-2017

HUMOR – Frases de AMÉRICO TOMÁS, um troglodita que julgávamos não ter rival