60.º aniversário de uma eleição fraudulenta

Há 60 anos, no dia de hoje, Humberto Delgado, general da aeronáutica saído das fileiras do Estado Novo, recém-convertido à democracia, fez tremer Salazar e o regime fascista que o sustentava.

A ditadura percebeu nesse dia, nas eleições que o «general sem medo» ariscou disputar, que o voto popular não mais lhe permitia manter a fachada democrática, por maior que fosse a repressão, por mais retaliações que exercesse, por mais restrições que impusesse à liberdade de expressão e à circulação de ideias.

Humberto Delgado galvanizou o País e, quando um jornalista lhe perguntou o que faria a Salazar, se vencesse as eleições, e respondeu “obviamente demito-o”, o país perdeu o medo e entrou em euforia, antes de o regime consumar a fraude e redobrar a repressão.

Após a fraude, que alterou os resultados eleitorais, a ditadura redobrou a vindicta contra opositores, reforçou a censura e endureceu a vigilância e repressão que a Pide, a Legião e a União Nacional sempre tinham usado.

Seguiram-se as prisões, demissões da função pública a funcionários, a perseguição feroz aos oposicionistas, mas a ditadura nunca mais se sentiu segura. Até a lei para a ‘eleição’ do PR deixaria de ser universal. A nomeação de um biltre subserviente era a segurança do regime. Américo Tomás protagonizou, até ao 25 de Abril, o papel do lacaio de que o ditador precisava e que a guerra fria consentiu, indiferente a um país europeu que viveu meio século de ditadura.

O assassinato, em território espanhol, de Humberto Delgado e da sua secretária Arajaryr Campos, por uma brigada da Pide de que faziam parte Rosa Casaco, Casimiro Monteiro e Agostinho Tienza, foi prontamente atribuído pelo próprio Salazar aos comunistas, os suspeitos do costume e as maiores vítimas da ditadura.

Hoje, sessenta anos depois, recordar Humberto Delgado, é homenagear a sua coragem e determinação, a sua entrega à democracia e o sacrifício da vida, e agradecer a todos os que, durante a longa noite fascista, se bateram por um Portugal livre e democrático.

Glória a Humberto Delgado!

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