Coimbra 2018 -- A bênção das pastas

Não há evidência estatística que prove que a bênção das pastas traga benefícios aos estudantes ou abra a porta ao primeiro emprego.

Não há ensaios duplo-cegos que provem a correlação positiva entre a fé e a preparação académica, entre a eucaristia e o conhecimento científico, entre as orações e o domínio das sebentas.

Tirando o colorido fotográfico de um bispo paramentado a rigor e estudantes com vestes talares, não há nos borrifos de água benzida, arremessados a golpes de hissope, a mais leve suspeita de que a benta humidade conserve o coiro da pasta ou do portador.

Há, todavia, no circo da fé, genuína alegria, uma absoluta demissão do sentido crítico, a força poderosa do «porque sim», que impele os universitários de Coimbra para a missa na Sé Nova a pedir a bênção da pasta e a prometer que vão espalhar a felicidade.

Vão ao confesso dizer os «pecados» para que se preparam, segue-se a eucaristia antes da cerveja, despacham umas ave-marias e mergulham na estúrdia da semana de todos os excessos.

Deus é um aperitivo que a tradição manda, a festa é o ritual que o corpo e os sentidos exigem. O bispo leva Deus para o Paço episcopal enquanto os estudantes vão fazer a digestão da hóstia em hectolitros de cerveja ou acabar no banco do Hospital em coma, espécie de êxtase místico provocado por excesso alcoólico.

Até à data não há registo de qualquer lavagem gástrica por excesso de hóstias. Talvez a eucaristia tenha lugar no início dos festejos porque, no fim, não há estômago que ainda aguente.

Neste ano de 2018, houve um aumento da fé e vieram mais famílias do que era costume, a seguir a cerimónia fora do templo, através de um ecrã gigante, ao longo de vários dias, para atender, com bênção programada, as almas agrupadas por Faculdades e Institutos.

Os alunos começaram a festejar o fim do curso, de joelhos. Podem acabar de rastos.

Comentários

Nuno Almeida disse…
Só vai a esta cerimónia quem quer.
Manuel Galvão disse…
Cada povo tem as suas manifestações folclóricas. Esta até que parece bem colorida.

Alguém acredita que os estudantes vão assistir a esta manifestação de folclore por fé no Deus Católico? Eu não acredito.

A Instituição Igreja Católica é hoje uma espécie de Loja Maçónica, serve essencialmente para facilitar o percurso dos seus "sócios" nos caminhos difíceis da sociedade civil; empregos, promoções, tachos...

Não é a fé que leva as pessoas a estas manifestações. É o interesse.
septuagenário disse…
É como o casamento religioso, faz parte do foclore, até a rainha da inglaterra não dispensa o bispo.

É muito parva aquela rainha!
Nuno Almeida:

Respeito e defendo a liberdade religiosa. Apenas me permito dar a minha visão de ateu.
Nuno Almeida disse…
Isso compreendo, eu também sou ateu. Só estava a frisar que nada daquilo é obrigatório e também concordo com aquilo que o Manuel Galvão disse de haver um componente folclórico muito grande naquela cerimónia em particular.

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