No 1.º aniversário da tragédia de Pedrógão Grande

A comunicação social procede à mórbida celebração do incêndio. Enquanto requeima as vítimas em imagens repetidas até à náusea e se resssufragam as almas em remissas televisionadas, com mais pessoas do que crentes, impede-se o luto dos que sofrem a dor da ausência dos que o fogo devorou, ainda a sangrar por dentro.

Há nesta lúgubre ostentação da tragédia o aproveitamento que, desde o início, serviu objetivos políticos que apenas o delírio do presidente da Misericórdia e do PSD de Pedrógão atenuou com os suicídios que imaginou em transe partidário e oportunismo antidemocrático.

Foram mais respeitados os mortos que um carvalho paroquial esmagou no adro da igreja ao tombar sobre uma procissão, na Madeira, mas tiveram menos sorte os estropiados e os herdeiros dos falecidos porque os fundos da diocese eram para a salvação das almas e os do Estado para reparar os danos oriundos de matas particulares e da inclemência do tempo.

Das 13 pessoas mortas no Funchal, incluindo uma criança, pela queda da árvore, em 15 de agosto do ano passado, não mais se ouviu falar, nem dos 49 feridos, 12 dos quais em estado grave, se sabe quantos vieram a falecer. As famílias de 13 mortos e os numerosos estropiados terão certamente missa, mas não terão o PR, o PM e a Dr.ª Cristas, dois por exibição pia e um por chantagem ímpia, para os carpir.

Hoje, percorre-se a estrada da morte, em sucessivas romagens televisivas que dilaceram os sobreviventes, enquanto a presidente da comissão de vítimas, esgotada a angariação de inscrições no CDS, se desdobra em entrevistas, disponível e com visual cuidado.

Os mortos não merecem e os vivos podiam ser poupados ao chumbo derretido que lhes aviva as feridas por cicatrizar, com as imagens que alimentam a patologia televisiva.

Comentários

Manuel Galvão disse…
Grandes negociatas por trás ! helicópteros, ciresps satélite, bombeiros s.a.

Importantes serviços públicos transferidos à socapa para a área dos privados.

"Assim Vai o Mundo" era o meu documentário preferido no S. Jorge ou no Tivoli, no tempo da outra senhora...
e-pá! disse…
É obvio que a tragédia dos incêndios do ano passado (que não se circunscreve a Pedrogão) merece a solidariedade e o apoio dos portugueses com vista à rápida 'normalização' do interior fustigado.
Não é isso que está em causa. O que fere a sensibilidade dos cidadãos é o aproveitamento político dessa tragédia e o modo com tem sido alavancado (esse aproveitamento) pela comunicação social.
Começa a saturar o slogan de que 'o Governo falhou'. Na verdade falhamos coletivamente (incluindo os residentes nas áreas devastadas). E o falhanço tem um longo trajeto que contou com a tradicional displicência dos órgão públicos (não acontecerá nada!) e a negligência dos proprietários (a segurança é secundária). Aconteceu uma tragédia nas circunstâncias que muitos (para não dizer todos) fomos incapazes de prever e antecipar medidas.
É necessário tirar ilações dos trágicos acontecimentos para eliminar riscos de repetição. E, simultaneamente, parar com o 'massacre' da repetição ad nauseum de imagens traumatizantes que nada acrescentam ao esclarecimento dos factos, nem ajudam ao luto (ainda em curso).

É salutar que a sociedade civil se organize e crie movimentos orgânicos e estruturas associativas para ajudar à reconstrução psicológica, física e patrimonial dos variadíssimos danos elencados. Mas esses movimentos associativos devem ter um comportamento solidário (de solidariedade social) absolutamente transparente. O (natural) desejo de ressarcimento não se compadece com secretismos estratégicos políticos (ou pior partidários) nem pode assentar em conluios antigovernamentais. Se existirem responsabilidades a apurar relativas a esta tragédia elas recaem sobre os organismos públicos legalmente competentes para o fazer e em última análise aos Tribunais.

O objeito desse inquérito será o Estado e não o Governo em exercício (o que parece ser substancialmente diferente).
Não parece ser essa a postura, por exemplo, da Associação de Apoio às Vitimas de Pedrogão Grande onde os 'fumos' de colonização partidária começam a intoxicar o ambiente, como seja o não-convite ao primeiro-ministro e ao presidente da Câmara de Pedrogão para participarem na cerimónia evocativa do 1º. ano após os trágicos acontecimentos.
A tragédia dos incêndios do ano transato foi demasiado pesada, profunda e traumatizante para ser tratada desta maneira.

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