Miguel Torga – 25.º aniversário da sua morte

A maior homenagem que se pode prestar a este transmontano, cujo rosto tinha esculpida a dureza da vida da terra onde nasceu e dos sítios por onde andou, é reler a vasta obra de um dos maiores e mais fecundos escritores portugueses do século XX.

O médico, poeta e contista, deixou nos seus Diários, em prosa e verso, o testemunho de um criador literário de notável gabarito. Ali, na Portagem, em Coimbra, a ver da janela do seu consultório a estátua de Joaquim António de Aguiar, pensou e escreveu páginas que merecem ser abertas à fruição de quem ama a língua e a literatura portuguesas.  

BRASIL

Brasil
onde vivi,
Brasil onde penei,
Brasil dos meus assombros de menino:
Há quanto tempo já que te deixei,
Cais do lado de lá do meu destino!

Que milhas de angústia no mar da saudade!
Que salgado pranto no convés da ausência!
Chegar.
Perder-te mais.
Outra orfandade,
Agora sem o amparo da inocência.

Dois pólos de atracção no pensamento!
Duas ânsias opostas nos sentidos!
Um purgatório em que o sofrimento
Nunca avista um dos céus apetecidos.
Ah, desterro do rosto em cada face,
Tristeza dum regaço repartido!
Antes o desespero naufragasse
Ente o chão encontrado e o chão perdido.

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