Minicrónica

Quando remexo papéis e tropeço em retalhos da memória, que era apaziguador olvidar, salta a raiva de um tempo onde os bufos e rebufos andavam à solta a vigiar as pessoas e a controlar-lhes o pensamento.

Quando somos apenas nós que estamos em causa, é fácil esquecer os esbirros, sobretudo quando são cadáveres que já não fedem, mas quando a figura da mãe surge no contexto das perseguições, mistura-se o luto que nunca termina e a raiva por quem a perseguiu ou lhe devassou os sentimentos.

A Guarda é a cidade que está no meu devocionário, a urbe onde conhecia quase toda a gente, e onde os facínoras da ditadura espiavam e perseguiam quem não era devoto da ditadura.

Os documentos que restam da longa noite são o ferrete que acicata o desprezo por uma época onde o despotismo era a norma, a delação um hábito e a canalhice o emprego.
Ali, a 10 km da Guarda, sem água canalizada, telefone ou luz elétrica, com 40 alunos para ensinar e quatro filhos para criar, com horta, uma cabra e numerosas galinhas, para que os frescos, a carne, os ovos e o leite não faltassem, ainda era objeto de investigação ao pensamento e aos sentimentos que nutria pelos filhos.

A PIDE era assim, mesquinha, persecutória e a viver da delação. Portugal não era um país, era a cela comum de um povo oprimido. Não lhe bastava vigiar um indivíduo, devia também espiar-lhe a mãe.

Minha saudosa professora e mãe!

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