Quando terá lugar a homenagem a Marcelo Caetano?

Ontem, quando passaram dois anos sobre a morte de Edmundo Pedro, senti a infâmia da homenagem a Antunes Varela, o ministro da Justiça da ditadura, de agosto de 1954 a setembro de 1967, e percorri esses 13 anos em que o poder do ministro era enorme e os desmandos da ditadura obscenos.

Não digeri ainda a homenagem de que foi alvo, com encómios da ministra da Justiça, ao universitário e jurista, e o assustador entusiasmo do discurso do presidente do STJ.

Recordei Dias Coelho, assassinado a tiro numa rua de Lisboa, Humberto Delgado morto em Espanha, as prisões de Caxias, Peniche, Aljube e Tarrafal. Antunes Varela nomeou juízes para os Tribunais Plenários, silenciou torturas e assassinatos da ditadura, a censura, as prisões arbitrárias, as penas de degredo, as violações de correspondência, as medidas de segurança, enfim, foi dos cúmplices mais próximos do ditador e de poder vir a substituí-lo, e teve a homenagem do presidente do STJ e da impoluta ministra da democracia que, no discurso de homenagem, aparou a primeira nódoa.

É verdade que o cúmplice de Santos Júnior, como ministro do Interior, continua morto e não há homenagem que o restitua à vida, mas a normalização da mais longa ditadura da Europa, através da reabilitação dos seus cúmplices, tem um efeito demolidor na ética, na democracia e na honra republicana.

Se a qualidade do docente e a competência do jurista, esquecidos os crimes, são motivo de homenagem, não há razão para não ser homenageado Marcelo Caetano, que não foi menos brilhante na cátedra nem menos virtuoso como pedagogo.

Talvez não andemos longe da homenagem que faria corar de vergonha os democratas. Já andam aí, em altos cargos do Estado, os órfãos de Salazar, saudosos da censura e da PIDE, que Marcelo, o Caetano, crismou respetivamente de exame prévio e DGS.

Quando um país esquece os torcionários e lhes exalta as virtudes, normaliza práticas que levaram ao sofrimento, à morte e ao luto milhares de portugueses, durante 48 anos.
Por isso, nos anos que ainda me restarem, não calarei a indignação e revolta de quem foi vítima da guerra colonial, designada como guerra do ultramar, e integrou um exército de ocupação, cujos militares são referidos como heróis do ultramar, e gritarei a conivência da Igreja católica de que muitos, incluindo alguns amigos, me pedem silêncio.

Começa-se na adulteração semântica das palavras e acaba-se na justificação dos crimes da ditadura, esquecendo a liberdade oferecida numa madrugada de Abril, enquanto os heróis de então não passarem a ser designados por insurretos.
  
A pergunta do título é pertinente: “Para quando a homenagem a Marcelo Caetano?”, que não era mais fascista do que Antunes Varela nem menos brilhante como jurista?

Faz hoje 6 anos que faleceu o antigo diretor do campo de prisioneiros de S. Nicolau, em Angola, o general com que Sá Carneiro quis disputar as segundas eleições presidenciais contra Ramalho Eanes e que Cavaco reintegrou no ativo e promoveu a CEMGFA, numa ofensa às Forças Armadas, a Eanes, aos militares de Abril e ao povo português. 

Cavaco iniciaria a defunção política com o grau mais elevado da Ordem da Liberdade, outorgada pelo atual PR. Quem se indignou?

Comentários

Luis disse…
o Afilhado está a tratar do assunto .
Victor Nogueira disse…
Não foi Mario Soares que apesar dos golpes contra revolucionários de Spínola, com o argumento [d]«a sua importância no início da consolidação do novo regime democrático foi reconhecida oficialmente a 5 de Fevereiro de 1987, pelo então Presidente Mário Soares, que o designou Chanceler das Antigas Ordens Militares Portuguesas, tendo-lhe também condecorado com a Grã-Cruz da Antiga e Muito Nobre Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito (a segunda maior insígnia da principal ordem militar portuguesa), pelos «feitos de heroísmo militar e cívico e por ter sido símbolo da Revolução de Abril e o primeiro Presidente da República após a ditadura» a 13 do mesmo mês e ano»?

Não foi Veiga Simão, ministro de Marcelo Caetano ma Educação eleito deputado à Assembleia da República, pelo Partido Socialista, em 1983, tendo assumido o cargo de ministro da Indústria e Energia no Bloco Central, até 1985 e em novembro de 1997, António Guterres nomeou-o ministro da Defesa do XIII Governo Constitucional ?
Victor Nogueira:

Também o capitão de mar e guerra Alpoim Calvão teve todas as condecorações e foi o dirigente operacional do MDLP. A História está cheia de ironias.

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