Amadeu Carvalho Homem – Morreu um livre-pensador

Amadeu Carvalho Homem – Morreu um livre-pensador

Do pedagogo falam antigos discípulos, do anfiteatro a abarrotar onde chegavam alunos de outros cursos atraídos pelo comunicador de exceção, um orador pujante e pedagogo de eleição.

Dos laços afetivos com várias gerações de alunos, que ensinou e motivou para o estudo da História, andam aí os testemunhos doridos de quem sente a perda, sofre a ausência e está de luto. Amadeu Homem foi dos mestres mais amados e que mais profundamente marcou os discípulos.

É ocioso falar do amigo, com o risco de lembrar o convívio assíduo e intenso de muitos anos e acabar a falar de mim e não, como é devido, de quem partiu.

Nas notícias sobre a morte de Amadeu Carvalho Homem, surpreendeu-me a pobreza das referências à personalidade multifacetada na imprensa regional e a omissão quase total nos média nacionais, porque partiu uma personalidade carismática de grande dimensão académica, intelectual e cívica.

Amadeu Homem era, no seu ecletismo, cada vez mais raro, mais do que um Historiador. Dada a solidez e profundidade dos conhecimentos podia ter sido catedrático de Filosofia tão brilhante como o foi na História.  

Vale a pena revisitar os livros de investigação e textos académicos onde a vastidão dos conhecimentos e a qualidade da prosa deleitam os leitores. Recordo o escritor porque é a faceta menos conhecida do académico, às vezes em edições de autor, com tão pouca divulgação para tanto mérito.

Amadeu Homem cultivou com rara mestria o conto, a crónica e a poesia sem descurar a investigação de grandes escritores portugueses. Na sua obra, com fortes referências aos clássicos, espelha-se o homem de cultura e intelectual sólido e multifacetado.

Foi investigador da República e um honrado republicano na intervenção cívica. Figura de referência do Movimento Republicano 5 de Outubro, em Coimbra, foi um denodado lutador pela restauração do feriado do 5 de Outubro, obliterado pela indigência cívica e incultura de governantes que feriram a memória coletiva ao retirarem os dois feriados mais emblemáticos do povo que somos e do regime que temos, o 5 de Outubro e o 1.º de Dezembro.

Os jantares do 5 de Outubro, em Coimbra, tiveram em Amadeu Homem a sua referência maior e o seu eloquente orador.

Agnóstico, era surpreendentemente um caloroso defensor das religiões que via “como moderadoras dos instintos cruéis humanos”, ao arrepio da tradição dos republicanos.

Morreu o cidadão republicano, deixei-o há pouco, antes da celebração da palavra, seja lá isso o que for, uma cerimónia com vago odor a incenso que a pituitária de um agnóstico não aprecia em vida, quanto mais em defunção.

Deixei-lhe três cravos vermelhos de Abril, antes de ser pó, para vir encontrá-lo na memória que deixa, nos livros que guardo e no afeto que perdura.

Hás de acompanhar-me sempre, Amadeu. Fraternalmente.


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