O Eixo do Bem e as ditaduras
O Eixo do Bem e as ditaduras
É indiscutível
que são horríveis os regimes da China, onde um partido comunista gere o capitalismo,
sem liberdades políticas, ou a Coreia do Norte, onde uma exótica dinastia
eterniza a ditadura, e repelente a teocracia do Irão, onde clérigos medievais
perpetuam a anacrónica visão do mundo de um “beduíno analfabeto e amoral” como
Kemal Atatürk designou Maomé.
Todas as
ditaduras são horríveis, especialmente as confessionais que trocam os direitos
individuais por preconceitos e a liberdade pelas virtudes da fé, atingindo o
auge as monarquias teocráticas que juntam a patologia religiosa e a herança
uterina.
Mesmo quem
viveu no salazarismo tem dificuldade em imaginar a crueldade de que são capazes
algumas ditaduras, especialmente as que se reclamam de inspiração divina, e, no
entanto, as ditaduras, agora em expansão, constituem já a maioria dos regimes.
Esta
convicção faz-me insurgir contra democracias que abdicam do direito, das
regras, do multilateralismo e do respeito pelas instituições que são suas
guardiãs. Por isso não perdoo à atual presidência dos EUA, que devia ter sido
travada, nem aos governos e líderes que apoiaram a sua deriva provocatória e
autoritária através de um presidente cujos sintomas de demência narcísica já
eram evidentes no anterior mandato.
Invocar que
devemos estar ao lado das democracias contra as ditaduras levou Portugal a
comprometer-se na invasão do Irão, cedendo a Base das Lajes para a agressão. O
PM manteve silêncio perante a invasão e condenou o invadido quando ripostou, ao
lado do algoz contra a vítima. Não foi acaso, foi desfaçatez. E o que é grave é
a derrota, não só dos EUA, de todo o Ocidente, a derrota da decência, da confiança
e da previsibilidade.
Por mais
estranho que pareça fico desolado com a derrota dos EUA, apesar de merecida,
triste com a decadência do País que tem uma excelente Constituição,
envergonhado por ver o Irão atacado durante as conversações, consternado com o
sofrimento do povo que os aiatolas oprimem e Israel e EUA massacraram.
Custa ver as
democracias tornarem-se iguais ou piores do que as teocracias, assistir à conduta
que não perdoaria aos países agredidos e sentir que a superioridade ética de
que as julgava merecedoras se esvaiu na conduta obscena dos invasores e de quem
ficou em silêncio ou foi cúmplice.
O Papa Leão
XIV não podia almejar mais, para robustecer a sua autoridade religiosa e ética,
ultrapassando o universo dos crentes, do que o adversário desvairado e
narcisista.
Trump é um
presidente tóxico e perigoso, e o mais interessante opositor para prestigiar os
adversários. Graças a ele emergiu como grande estadista Pedro Sánchez e cobriram-se
de opróbrio os dirigentes que lhe prestaram vassalagem e prometeram gastar 5%
do PIB para lhe comprar armamento e agradar, sacrificando a dignidade, a honra
e o bem-estar das populações dos seus países.
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