Pacheco Pereira / André Ventura, hoje na CNN, às 22H00
Pacheco Pereira / André Ventura, hoje na CNN, às 22H00
É impossível
comparar a postura de um Historiador probo com a do demagogo amoral. Entre a
náusea e a revolta, deixo aqui o texto que escrevi em 7 de julho de 2020:
Uma reflexão
sobre a descolonização por quem participou na guerra colonial durante 26 meses,
publicada no livro de crónicas ANCORADOURO.
«A
descolonização portuguesa e as feridas por sarar – 7 de julho de 2020
As
descolonizações foram sempre tragédias, agravadas com o prolongamento da
guerra. A portuguesa deveu-se ao ditador, leviano e sinistro, que ignorou os
sinais da História e recusou negociar a autodeterminação que os africanos e o
direito internacional exigiam.
Todas as
descolonizações carregaram sofrimento e injustiças, próprios de revoluções. A
portuguesa foi tão tardia que impediu minimizar o desastre e acautelar
interesses lícitos. Houve nessa tragédia apenas uma epopeia, a do único
exército do mundo capaz de uma retirada gigantesca sem uma única baixa.
Portugal
foi exemplar a acolher, como devia, os nacionais que voltaram. Ninguém ficou
alheio aos dramas de quem se viu espoliado de haveres, do conforto e do
habitat. Fomos melhores do que os franceses onde a síndrome dos «pés pretos»
ainda persiste.
A guerra
colonial portuguesa, começou quando a França estava a acabar de perder a sua,
na Argélia (1954/62). Em 1962, o PR francês, De Gaulle, reconheceu a
independência e resolveu o problema político de 132 anos de ocupação. O
colonialismo francês sofrera a última derrota. O português, demorou ainda 12
anos, e teve na Guiné o fim das bravatas imperialistas.
Salazar
inventou um mito exclusivo, Portugal, do Minho a Timor, como se a ditadura
pudesse perpetuar uma guerra votada ao fracasso. A História não se escreve ao
gosto de cada um. Confrange ver África, vítima da miséria, ignorância,
tribalismo, doenças, fome e guerras. Não tem um único país claramente
democrático ou próspero, e derrotou todos os países colonialistas. Portugal foi
o último.
Depois de
perdidos, em 1954, os enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli, em 18 de dezembro de
1961 as forças indianas anexaram Goa, Damão e Diu e exigiram a rendição,
perante o demente telegrama de Salazar que exigia a resistência ou morte de
todos os militares.
Nem aí o
ditador percebeu que só estava a inviabilizar as negociações e a prolongar uma
guerra inútil, injusta e criminosa. O nacionalismo fascista fez a guerra
colonial quando a moral, o direito e a comunidade internacional a condenavam.
Salazar perderia a guerra depois de morto, mas deixou os seus sequazes a
reescreverem a História.
As feridas
ocultam os erros e crimes do regime que moldou as mentalidades que alguns
procuram perpetuar, 46 anos após a derrota política, militar e moral. Portugal
não fez a catarse da tragédia para que a ditadura nos arrastou, nem entendeu
que, após o fim dos outros impérios coloniais, era insustentável a mística de
‘um país do Minho a Timor’.
Juntam-se
na mórbida nostalgia do “nosso Ultramar, infelizmente perdido”, a desolação de
quem perdeu os bens de uma vida e a vida de familiares, os dramas de um
regresso traumático, os saudosistas da ditadura, e ex-militares que recusam que
a guerra em que participaram fosse um crime de um exército de ocupação das
colónias.
Há
portugueses que ignoram que fomos o último país a aceitar o direito das
colónias à autodeterminação e que a guerra prolongou o sofrimento inútil e a
perda de vidas dos que lutavam por uma causa justa e dos que eram obrigados a opor-se lhe.
Foi o
nacionalismo fascista o responsável da guerra colonial, quando a moral, o
direito e a comunidade internacional já tinham condenado o colonialismo.
Defender
hoje o que já então era uma insana obsessão do salazarismo, que a cobardia de
Marcelo Caetano prolongou, é uma aleivosia. Quem se opõe ao branqueamento da
ditadura deve denunciar o que viu e soube no teatro de guerra onde caíram
militares dos dois lados e familiares dos combatentes da independência dos seus
povos.
Quando se
consagram, em monumentos ou na toponímia, ‘Heróis do Ultramar’, em vez de
“Vítimas da Guerra Colonial”, glorificam-se os de um lado e denigrem-se as
vítimas, civis e militares, do outro. A falsificação da história não honra os
militares da minha geração, dignos de melhor causa, que não mereciam os
horrores que sofreram e infligiram.
Como
antigo combatente, repudio os truques para branquear a ditadura. Não há, nunca
houve, «heróis do ultramar», há vítimas da guerra colonial.
De ambos
os lados. Civis e militares. Portugueses e africanos.»
In Ancoradouro Pg. 123/125 – À venda nas livrarias

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