Pacheco Pereira / André Ventura, ontem na CNN, 22H00 / 23H00
Pacheco Pereira / André Ventura, ontem na CNN, 22H00 / 23H00
(É preciso
avisar a malta – Uma memória revisitada depois do debate de ontem)
Um dia
deparei com o José Manuel Tengarrinha na televisão e fiquei a ver um amigo a
quem me unia forte e recíproca amizade e simpatia. Ele gostava do humor e
sarcasmos com que eu mimoseava o clero e o regime, eu admirava-lhe a
inteligência, a cultura e a coragem do resistente antifascista.
Sabia das perseguições,
torturas e prisões que sofrera. Queria ouvir o que sabia e o que iria revelar. O
interlocutor, pasme-se, era um ex-inspetor da Pide. Ao que se sujeitou o Zé
Manel, debater com um torcionário a história do regime, a infâmia da ditadura, 48
anos de censura, prisões arbitrárias, torturas, assassinatos na via pública,
massacres na Guiné, Angola, Moçambique e S. Tomé, cárceres horrendos, guerra
colonial, violações de correspondência, partido único e as tropelias de que o
fascismo foi capaz.
Em
determinado momento, o Pide, com ar de gozo, disparou-lhe que o tratamento não
seria assim tão mau como ele, Tengarrinha, dizia, porque tinha ótimo aspeto.
Senti tal nojo do cinismo do algoz, para com a vítima, que mudei de canal. Não
aguentei ouvir o resto, naquele frente-a-frente.
Agora,
quando os ratos saem dos esgotos, os próceres do fascismo são homenageados e os
filhos dos bufos reescrevem a história, denigrem vítimas, escarnecem o
sacrifício dos resistentes e desafiam democratas, urge desmascarar essa canalha
que irrompe nas redes sociais, órgãos de comunicação social e em todos os meios
de propaganda onde germina a intriga, a mentira e o ódio à liberdade,
servindo-se desta.
Urge
impedir que os vermes infetem a democracia e organizem o regresso do fascismo,
agora de forma legal, através de eleições, sem respeito pelos princípios
básicos da frágil democracia liberal, a que esvaziam o conteúdo económico,
social e político, para acabar no ataque aos direitos individuais, à democracia
e aos direitos humanos.
Ontem,
Pacheco Pereira trouxe-me à memória o saudoso Zé Manel Tengarrinha. Do outro
lado estava um Pide.
Ontem, não
mudei de canal, bebi até à última gota o cálice de veneno. E, como já sabia,
não há pedagogia que medre na sarjeta nem fragrância que brote da sujidade.

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