A “dificuldade” de se ser ateu
Por Onofre Varela
O Ateísmo foi lançado à sarjeta mais imunda pelos religiosos fundamentalistas que não lêem, nem pensam, nada mais que não seja literatura usada na sua religião ou seita, e discursos do “bispo”.
Estou a lembrar-me da mulher de um amigo meu, com idade ligeiramente superior à minha, que quando o marido a informou de eu ser ateu, olhou-me com espanto e perguntou à queima-roupa, com um olhar misto de incredulidade e esperteza, de quem julga saber o que diz, querendo apanhar-me numa curva da minha ignorância: “Ai Deus não existe?!… Ai não?!… Então quem foi que nos criou?!…” (Heim?… Ora toma lá que é para aprenderes!).
Esta pergunta pertence ao rol das que não têm resposta imediata, porque quem a formula está a sublinhar a sua imensa ignorância… e esclarecê-la não é fácil. Responder-lhe de modo a que ela perceba o que se lhe quer dizer, obriga a começar pelo B+A=BA… o que demora um tempo inexistente nestes casos, e não sabemos se a nossa informação será entendida, sendo que o mais certo é não. Por isso a coisa tem de ficar pela pergunta sem resposta. Habitualmente dou um sorriso e digo: “Boa questão!… Um dia vamos falar sobre isso…” com a certeza de que jamais falaremos.
O mesmo aconteceu, há cerca de três décadas, no programa de televisão Você na TV, que ocupava as manhãs na programação da TVI. Fui entrevistado como ateu e havia a possibilidade (que eu desconhecia até ao momento crucial) de os telespectadores colocarem questões, em directo, ao entrevistado.
A clientela dos programas das manhãs e das tardes televisivas é composta por donas de casa, idosos, doentes acamados, crianças em idade pré-escolar e jovens em férias… e desde a investida da economia globalizada, também por um imenso número de desempregados. Digamos que, maioritariamente, não será a nata da inteligência nacional que está de olhos pregados nos ecrãs de televisão a essas horas (e nas outras também não…).
Manuel Luís Goucha, o apresentador do programa, já me conhecia de outras participações que tive nos estúdios da RTP do Porto, no programa da manhã do Canal 1 no final da década de 1980, e apresentou-me não só como ateu, mas também como artista plástico. Uma das poucas participações telefónicas no programa (penso que a única), foi a de uma senhora com voz chorosa que disse, entre soluços, que eu não era crente mas tinha umas mãos “que Deus me deu para desenhar” e por isso deveria dar graças a Deus por essa dádiva, e que Deus queira não me viesse a acontecer como a ela, a quem a vida reservou o pior. E chorou por força das amarguras que lhe infernizavam a vida.
Perante isto, Manuel Luís Goucha perguntou-me: “E agora, Onofre, o que tens para dizer a esta senhora?”. Respondi: “Minha senhora, nunca deixe de crer. Peça ajuda a Deus e não desespere. Deus vai ajudá-la”.
Que outra coisa podia eu ter dito enquanto cidadão responsável e respeitador do semelhante? Dizer-lhe o contrário disto era magoá-la por não respeitar o seu profundo sentimento religioso e o seu sofrimento, dos quais estava impossibilitada de se distanciar. A sua religiosidade era ela própria. Contrariá-la era o pior serviço que lhe podia prestar naquele momento em que demonstrava fragilidade. Não tenho formação que me permitisse debitar outro discurso que a apaziguasse.
Isto sublinha o quão difícil é dizer às pessoas crentes, de modo a que compreendam sem se sentirem ofendidas nas suas convicções religiosas, que entregaram a vida e a consciência a um engano.
É minha convicção de que entre os devotos religiosos assistentes de missas que vão à igreja com a mesma necessidade de quem toma refeições, se encontram, maioritariamente, os mais débeis e subservientes cidadãos que são meras vítimas, impedidas, por educação, de usar melhor raciocínio, seja qual for o grau académico que detenham…
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