A Igreja católica, a paz e a tolerância
A Igreja católica, a paz e a tolerância
Não espero de nenhuma religião, ainda menos dos monoteísmos,
a defesa do pluralismo e dos direitos individuais, quase sempre obtidos sem as
religiões ou mesmo contra elas. Errado é, atualmente, considerá-las iguais, ou
negar o contributo positivo que podem dar à paz e à tolerância.
Os judeus continuam a reivindicar a herança dos territórios do
alegado contrato entre Deus e Abraão; os cristãos evangélicos estão cada vez
mais radicais e intolerantes; os muçulmanos insistem em impor o pensamento de
um beduíno analfabeto e amoral da Idade do Bronze, como Atatürk designou Maomé,
como código político, ético e social, avessos à laicidade e à modernidade, sem abdicarem
do proselitismo.
É neste contexto tóxico que os católicos, sob a liderança
centralizada no Papa, emergem como referência para o mundo, contra a vontade de
muitos, com a determinação que o Vaticano colocou na defesa a paz e da tolerância
através dos dois últimos pontífices.
Quando a Europa regressa aos preconceitos que a precipitaram
na guerra de 1939/45, preconceitos que exacerbam o racismo e a xenofobia de que
se nutre a extrema-direita, a voz do Papa Leão XIV, na continuação do
magistério do antecessor, Francisco, tem sido um refrigério e poderoso antídoto
contra a violência xenófoba.
Leão XIV fez da defesa da dignidade dos migrantes e do apelo
à paz os mais sólidos contributos da sua religião para morigerar a violência xenófoba
da extrema-direita.
Frases como “A dignidade humana não tem passaporte”, “Todos,
de algum modo, somos migrantes (…)”, “integrar não significa apagar a história
de quem chega (…)”, “A paz exige coragem diplomática e respeito pela identidade”
ou “paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante, que vem de Deus",
descontada a referência à divindade, merecem ser subscritas por todos os que
desejam a paz e a concórdia.
Não sei se a Igreja católica sobrevive às contradições que a
minam, mas ignorar o que devemos ao magistério dos dois últimos pontífices, na
defesa da paz e da convivência entre culturas diferentes, não é apenas uma
injustiça, é uma perigosa leviandade.
Independentemente do futuro da Humanidade, se o houver, os
esforços católicos para a convivência multiétnica e a coexistência entre
culturas e países, é um honroso ativo que a Igreja católica romana poderá
sempre exibir perante a intolerância política, religiosa e étnica que assola o
mundo.
Na visita do Papa a Espanha e na solidariedade expressa aos imigrantes na deslocação às Ilhas Canárias, o Papa encontrou uma expressiva ressonância no bispo local, D. José Mazuelos, no final da celebração eucarística presidida pelo Pontífice na noite de quinta-feira, 11 de junho: “Há quem defenda o respeito pela vida quando se trata do aborto, mas queira que se corte a cabeça dos imigrantes”, palavras duras para a extrema-direita que se reclama católica e tem na agenda a exploração dos ressentimentos para alimentar o ódio aos imigrantes.

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