Uma sondagem do Expresso – Que raio de gente somos?!
Uma sondagem do Expresso – Que raio de gente somos?!
Talvez pudesse ser pior ou não seja mesmo demasiado mau, mas
é inaceitável que haja quem não tolere a diferença e veja os adversários como inimigos.
A sondagem do Expresso desta semana revela que há 16% de
cidadãos que evitaram falar de política com familiares, por receio de conflitos
graves; 3% que cortaram relações com familiares e amigos, por discordâncias
políticas; e 8% que, em relação a algum partido, não gostariam que familiares próximos
cassassem com simpatizantes.
Cinquenta anos de vida democrática não nos prepararam para a
convivência cívica entre pessoas que pensam diferente. Talvez não devesse
admirar-me, depois de assistir toda a vida às discussões entre adeptos de
clubes diferentes e, depois do A/O 90, à sanha que dividiu quem o combatia e quem
o aceitava, e ao ódio aos hereges que o defendiam.
Estamos condenados à violência sectária, seja na política,
no futebol, na ortografia ou na política externa. Às vezes penso que voltámos à
ditadura, à verdade única, na religião e na política, recordando a antipatia a
quem questionasse a bondade de Salazar, a religião do Cerejeira ou o direito
histórico sobre o “nosso” Ultramar.
Curiosamente, foi na religião que nos tornámos mais
tolerantes, onde nos conformámos mais cedo com o pluralismo, antes do aparecimento
de novos e mais intolerantes credos.
Há um maniqueísmo herdado da ditadura vindo da religião e do
futebol para os partidos, a política internacional, a cor da pele, a etnia ou a
proveniência geográfica.
Uma passagem pelas redes sociais mostra o ódio de quem tem
verdades absolutas contra quem deseja compreender apenas a outra parte, seja na
invasão da Ucrânia ou na do Irão e a facilidade com que se confunde povos com
regimes e se opõe as emoções aos factos.
Os que odeiam as divergências ideológicas superaram os que
têm ideias, mostrando que os sentimentos e perceções não resultam do pensamento
estruturado ou de um módico de esforço e reflexão.
Enfim, resigno-me a aceitar a animosidade de quem pensa
diferente enquanto me recuso a retribuir, a confundir adversários com inimigos,
a pensar que sou detentor da verdade única ou a admitir, por um momento que
seja, que a censura resolva o que quer que seja. E não confundo tolerância voltairiana
com moleza na defesa das convicções.
Perante a perversidade dos nacionalismos que se exacerbam,
do belicismo que explode e das pulsões de extermínio que pululam, ouvir o Papa
católico, na sua visita a Espanha, tem sido um verdadeiro refrigério, no apelo
à paz e na recusa dos extremismos.
Se o magistério de Leão XIV frutificar, talvez a Europa que
se diz cristã faça um exame de consciência, a começar em Espanha, e evite os
extremismos políticos nos países onde a democracia ainda sobrevive. O discurso de
hoje, nas Cortes espanholas, foi notável.
O encontro fraterno entre um ateu, Pedro Sanchéz, e um crente, o Papa, foi um exemplo para Espanha, para a Europa e para o Mundo. E urgia ouvir falar de paz!

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