Creio na ressurreição e no ámen, só não acredito na vida eterna
Creio na ressurreição e no ámen, só não acredito na vida eterna
(Texto autobiográfico de 12-06-2013, atualizado hoje.)
Há quinze anos senti-me suspenso, por duas jovens
enfermeiras, a caminho do banho. Pensei que quatro décadas antes não seriam
elas a levar-me, seria inversa a situação, e ignorava o que sucedera e porque
não me obedecia o corpo.
Descri da minha identidade, pedi a um enfermeiro para ver na
NET o meu nome, queria certificar-me de quem era. Vi a minha mulher,
reconheci-lhe a voz doce a segredar-me que fora grave a situação, dir-me-ia
tudo à medida que perguntasse e preveniu-me para ter cuidado com o que dizia,
tinha falsas memórias, mal comecei a falar logo inventei um cancro a uma amiga
comum, reformei outra, com 40 anos, e debitei tolices várias.
O lençol pesava como uma montanha que me esmagasse os dedos,
o corpo era como um vegetal movido pela força braçal de quem de mim cuidava.
Lembrei-me de ter saído de casa com vómitos incoercíveis e dores abdominais
violentas, e não estabelecia o nexo de causa e efeito. Não acreditaria ter
passado cinquenta e quatro dias sem memória.
Pedi o jornal e li, mas tiveram de segurar-mo. Pesava como
chumbo o diabo do papel. Li e fiquei feliz, sem euforia. Quis escrever e só
saíram riscos da luta da esferográfica contra o papel que fugia. Que raio de
vida! Afinal, não sustentava o peso da esferográfica. E não me fazia entender.
Devo ter ficado naquele quarto, isolado, a fazer o desmame do propofol.
Poucos dias depois tive alta. Ora de cadeira de rodas, ora
ao colo, entrei e saí do táxi, do hospital para casa. Levaram-me ao colo até ao
quarto, onde tudo era familiar. Não podia pôr-me de pé, mas sentia ter valido a
pena o quer que tivesse acontecido, para desfrutar, um dia que fosse, a ternura
da mulher, contida na exteriorização dos afetos, e intensa na dedicação e no
amor incessante de sempre.
Afinal, na sequência da colecistectomia laparoscópica, na
primeira vez que adoeci, uma bactéria tomou conta dos pulmões, primeiro, do
fígado a seguir e, finalmente, dos rins, à falsa fé, sem a mais leve noção da
minha parte, alvo de transfusões e diálises, sem saber, ainda hoje, porque não
desligaram a máquina que me amarrou 52 dias após a cirurgia que precedeu o coma
profundo e me reduziu a um vegetal esburacado com tubos, que a minha mulher
observava aflita e emocionada, todas as horas consentidas em cada dia.
Gozei as delícias do nada de que falava Schopenhauer.
Sofreram a mulher e os filhos, os irmãos e os amigos, e reiniciei a vida como
criança, precisando de mão alheia para dar os primeiros passos, comer, voltar
ao mundo dos vivos depois de ter experimentado a dimensão em que só existe o
nada, sem um ser imaginário para me julgar, um rio de mel ou, pelo menos, uma
das 72 virgens que aguardam os facínoras que a fé torna violentos.
Aprendi com a pseudomona multirresistente que vale mais um
só dia vivo do que morto toda a eternidade. E soube, como se não o adivinhasse
em cada dia de tantos anos, do que uma mulher pode, da dádiva da vida de que é
capaz, da reserva de amor que guarda.
Há quinze anos, no dia de hoje, 61 dias depois, regressei a
casa, desmorrido.
Comentários