Um delicioso relatório da Pide
Um delicioso relatório da Pide
Sempre me surpreendeu um boato que corria a meu respeito,
sem qualquer consistência, que me acusava de «indivíduo bastante popular,
bem conceituado sob o aspeto moral, (é) muito dedicado ao seu trabalho, e tido
como muito culto e inteligente, pelo que colegas e superiores o admiram».
Que nas referências elogiosas englobassem a minha saudosa mãe,
é mais uma alusão desvanecedora desse insólito relatório sobre a devassa da
vida privada a que a ditadura sujeitava os democratas.
Só várias décadas depois, quando os arquivos da PIDE puderam
ser consultados, foi possível descobrir que tamanho elogio se devia a um
inspetor da temida polícia política, num relatório bem diferente de outros que,
algumas vezes, me infernizaram a vida.
Quase 64 anos depois [18 de setembro de 1962], entre o humor e a raiva, recordo um tempo de pesadelos cujo regresso alguns desejam e se esforçam por branquear.

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