O catolicismo, os católicos e os direitos individuais

O catolicismo, os católicos e os direitos individuais

O catolicismo, extinta a Inquisição e perdidos os Estados pontifícios, agora sem o braço secular, permite acreditar no que cada um quiser e, conforme a evolução das sociedades, ter uma explicação diferente, por parte do clero, para exóticos versículos bíblicos, sem o risco de os incréus acabarem incinerados em vida.

O que surpreende é a dificuldade de tantos crentes aceitarem a modernidade, mesmo os mais instruídos, e a de respeitarem os direitos individuais. Quem aguarda a regulação da lei da eutanásia, para poder escolher a morte com dignidade, em situações intoleráveis e excecionais, lembra-se da crueldade de Marcelo, que tudo fez para a evitar, como tinha feito com despenalização da IVG.

Quando, ontem, elogiei a XIV e do bispo das Canárias, jamais imaginei o ódio que suscitaram, as diatribes de que foram alvo, inclusive o Papa, como se vissem desabar a justificação do ódio que cultivam e da raiva que os consome. (Aconteceu no meu mural do Facebook).

 E o que me surpreendeu em leitores católicos foi o regresso ao problema do aborto, onde a Igreja continua reacionária, a censurarem-me por só defender a Igreja quando concordo com as suas ideias, como se devesse igualmente defender as que discordo, entre elas, a proibição do aborto, que piedosamente qualificam como defesa da vida.

Eu, que julgava que a lei portuguesa, equilibrada e justa, tinha definitivamente resolvido os direitos das mulheres, deparei com quem lhes exigiria continuar a gravidez, inclusive às grávidas com fetos teratogénicos, vítimas de violações ou em risco de vida.

Há certamente um mundo que me é alheio, onde a pulsão de violência voltaria a exigir a prisão de mulheres que, por indicação médica ou decisão própria, se submetessem a um aborto. Já não sei quem vaticinou de forma perspicaz e bem-humorada que, se o aborto fosse nos homens, seria considerado sacramento.

Quanto à eutanásia, cujo direito defendo com determinação, indiferente ao que deseja a Igreja católica ou outra qualquer, só a vocação totalitária de quem o nega pode privar do direito quem o reclama sem que lhe seja imposto.

Ainda me recordo da menina do cartaz contra a eutanásia, Vera Guedes de Sousa, há 8 anos, aluna de medicina, que se tornou conhecida por empunhar o cartaz onde exonerou a inteligência e apelou ao medo. Será hoje uma razoável médica, mas há de continuar a medíocre cidadã e excelente rata de sacristia que saiu à rua a combater os meus direitos.


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