Monumento ao 25 de Abril em Almeida

Monumento ao 25 de Abril em Almeida* (3942 caracteres)

Sinto que recebi da vida mais do que dei e fui largamente beneficiário do labor alheio. E isso aconteceu também com a vitória saborosa do maior projeto em que me empenhei.

A minha mãe usou a convicção e a simpatia de que gozava para promover um abaixo-assinado em Almeida, a exigir, era a palavra em voga, um monumento ao 25 de Abril.

Reunida uma comissão ad hoc, que logo me elegeu presidente, comecei a luta junto da Câmara Municipal onde acabara de assumir a presidência um economista que tinha sido meu contemporâneo e condiscípulo no liceu da Guarda.

O contacto era fácil pela relação pessoal, mas dissimulado o seu interesse no projeto, fosse pelo ressentimento da agitação que promovi e pelo destaque no pós 25 de Abril, em comícios a que presidi em nome da CDE, e que levaram à destituição do elenco autárquico fascista e à substituição por uma comissão administrativa, fosse pelo medo de que lhe disputasse a edilidade, o que jamais esteve no pensamento de quem não se sentiria competente, sequer, para exercer o cargo de vogal de uma junta de freguesia.

Foram doze anos penosos de contactos com escultores, arquitetos, entidades ligadas ao património e frequentes idas de Coimbra a Lisboa e a Almeida com os escultores Lagoa Henriques e Carlos Amado e o arquiteto José Fava, deslocações e trabalho pro bono de todos por fervor democrático. Decorreram mais de catorze anos de luta.

Valeu-me o mensário local Praça Alta onde ao longo de vinte anos dispus de uma página onde publicava as «Notas Soltas», vinte e duas ou vinte e três notas sintéticas de análise política, em que a última era sempre «Monumento ao 25 de Abril em Almeida», forma de pressão sobre a edilidade onde o autarca Costa Reis se manteve doze anos.

Não cabem neste texto os reveses sofridos, com os chumbos sucessivos, dos locais de implantação, do monumento e de ambos, pelos institutos nacionais que tutelam novos monumentos em localidades históricas e pela própria autarquia.

Só a substituição do autarca pelo novo presidente, António Baptista Ribeiro, permitiu que o projeto chegasse a bom termo. Pelo caminho desapareceu o abaixo-assinado popular, como já antes se tinha apagado o rasto da comissão administrativa que dirigiu o município até às primeiras eleições livres que deram a vitória ao CDS, que a substituiu.

Ficou uma belíssima maquete de um monumento ao 25 de Abril no ateliê e residência comum dos escultores Lagoa Henriques e Carlos Amado, onde jantei muitas vezes, o trabalho de implantação do arquiteto José Fava, e a memória da luta pertinaz e profícua.

No dia 2 de julho de 2012, o Monumento ao 25 de Abril, projeto público lançado e pago integralmente pelo Município, do escultor José Guimarães, foi inaugurado. De Lisboa, a meu convite, vieram Vasco Lourenço, Eugénio de Oliveira, capitão demitido com Varela Gomes, após o golpe de Beja, e o coronel Barroso, da Associação 25 de Abril.

Na foto do Monumento que exorna este espaço, desde sempre, estão ainda os militares de Abril, Monteiro Valente, Gertrudes da Silva e outros, além dos acima citados.

Na foto da cerimónia de inauguração do Largo 25 de Abril, onde está implantado o monumento, perante a minha estupefação, que pretendia Vasco Lourenço no lugar que o edil Batista Ribeiro me destinou, lá fiquei eu, de um lado, e do outro a então presidente da CCDR Centro, ora autarca de Coimbra, Ana Abrunhosa, e o presidente da Câmara a recolher o pano que ocultava a placa antes da inauguração.

Faltou a minha mãe, falecida dez anos antes.

* Há um trabalho de investigação sobre o Monumento ao 25 de Abril em Almeida, dos escultores Lagoa Henriques e Carlos Amado, e da memória descritiva do modo de execução da obra, não erigida, do arquiteto José Fava. É autor o académico e jornalista António Valdemar destinada a uma Revista que lhe o encomendou e cujo nome esqueci. Guardo o texto de António Valdemar que teve a amabilidade de me o enviar.  



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