Os média, as redes sociais e as palavras que morrem à míngua de quem as use
Os média, as redes sociais e as palavras que morrem à míngua de quem as use
As imagens impõem-se às palavras e escasseia a vontade de
sacudir o pó aos arcaísmos e retirar das páginas dos livros os vocábulos que o
tempo arrumou como imprestáveis. As palavras morrem quando quem as devia
cuidar, por moleza, tédio ou inópia, troca a riqueza cromática e os tons
variegados, que exornam o idioma pátrio, pela frugalidade léxica que guarnece
as reportagens.
Tortura a frequência com que o adjetivo complicado,
variando em género e número, passou a qualificar os incêndios, o défice, a vida
das pessoas, o orçamento de Estado, o estado do país e os factos avulsos que
desfilam pelos telejornais e imprensa escrita. Os incêndios que assolam o país,
incineram pessoas e solos e afligem povoações cercadas, são inexoravelmente
designados como complicados. Não há labaredas dantescas, fogos infernais,
dramas, coisas dolorosas, momentos dilacerantes, futuros pungentes ou vidas sem
futuro, há, seja qual for a conjuntura, situações complicadas.
Penso como se tornou inútil Camilo, o espantoso novelista,
como o definiu Unamuno, o escritor que deu vida a tantas palavras que fariam um
dicionário. Quando Augusto Abelaira escreveu «A Palavra é de Oiro» havia afogos
que impediam o uso de palavras, de certas palavras, e, daí, a metáfora do país
imaginário onde eram tributadas como são hoje os proventos do trabalho ou as
pensões de velhice.
Um povo que não cuida da sua própria língua, que se contenta
com algumas centenas de palavras, tão parco nelas como o anacoreta em
vitualhas, delapida o património herdado e larga-o à mercê do flagelo do tempo
como mato deixado à voracidade dos incêndios.
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