Carta aberta a Sua Excelência o sr. Presidente da República em quem votei

Carta aberta a Sua Excelência o sr. Presidente da República em quem votei

Excelência,

Salvo o devido respeito à pessoa e órgão uninominal a quem cabe a defesa da CRP (Constituição da República Portuguesa) errou profundamente ao dar aval à cerimónia da inauguração da escola secundária de Cascais, ao estilo do Estado Novo.

Excelência, ao vê-lo junto do tartufo Luís Montenegro, este de cerviz dobrada, a fazer o sinal da cruz, junto do ministro a quem o seu Deus não o ajudou a fazer bom trabalho, e do autarca de Cascais, cuja existência ignorava, todos em franca compunção e convicta persignação, julguei que o PR em quem votei apenas ajeitava os óculos, vexado por ter caído numa cilada urdida pelo patriarcado e o edil local.

Excelência, interroguei-me mesmo, que raio de Casa Civil terá o PR para tê-lo deixado expor ao vitupério público, à execração de quem espera a defesa intransigente da CRP e da mais democrática e irrevogável das suas exigências – a laicidade do Estado.

Só quando vi a placa comemorativa da cerimónia, dei conta de que Vossa Excelência se prestou voluntariamente a participar na cerimónia pífia, a aceitar a presença do bispo de Lisboa, o veículo litúrgico da fé católica paramentado, a exercer o múnus com os fiéis em subserviente participação.

Excelência, se eu me atrevesse a censurar a fé de quem quer que fosse, seria um cidadão indigno, mas não é da fé que se trata, é da traição à laicidade, da decência republicana, da hipoteca da escola pública a uma confissão religiosa particular.

O Sr. Rui Valério é um respeitável cidadão cujo cargo anterior foi o de bispo das Forças Armadas e de Segurança, isto é, comandante-chefe dos católicos fardados, militares ou polícias, então major-general, competência alargada pela Concordata que o governo de Durão Barroso assinou, pior que a de Salazar. O ex-general, agora patriarca de Lisboa, terá direito a barrete cardinalício no primeiro consistório depois de o cardeal Clemente entregar a alma ao Criador ou atingir os 80 anos, idade em que lhe caduca o alvará para participar na eleição de um novo Papa.

Excelência, a placa está lá, com o seu nome a encimar a vã vaidade dos parasitas da fé, incluindo o do Sr. Bispo Valério, à entrada da escola «(…) benzida por Sua Eminência Reverendíssima, o Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério».

Excelência, na próxima carta aberta falar-lhe-ei do oiro e marfim que custou o barrete cardinalício para todos os bispos vindouros da Sé de Lisboa, do oiro vindo do Brasil e dissipado pelo sr. D. João V que obteve para si o título de Senhor Fidelíssimo, quiçá, por fidelidade ao convento de Odivelas
onde a madre Paula lhe acalmava a lubricidade.

Em tempo, ainda lhe digo, Excelência, que o tratamento de «Eminência» que ficou na placa para o sr. Rui Valério é de analfabetismo clerical, pois o título correto lá da casa é «Excelência Reverendíssima», não Eminência Reverendíssima, exclusivo de cardeais.

E o ministro da Educação foi excluído da placa por castigo à sua ação governativa!?

Excelência, espero não o ver numa qualquer outra inauguração, com meninos e meninas fardados da Mocidade Portuguesa, a entrar numa sala de aula com a cruz ao meio, a foto de Vossa Excelência à direita e a do Sr. Presidente do Conselho, Luís Montenegro, à esquerda.

Excelência, apresento-lhe as minhas saudações republicanas, laicas e democráticas.

a)     Carlos Esperança

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