Miguel Sousa Tavares -- Uma voz imprescindível
OS DIAS DO QUERIDO MÊS DE AGOSTO
Já a nossa velha Europa continuava como sempre, entre a
cumplicidade com o terrorismo de Estado de Israel e a imbecilidade estratégica
na Ucrânia: lá foram todos eles outra vez em excursão a Kiev, não para pensarem
no fim da guerra, mas para prometerem mais dinheiro e mais armas para que a
guerra não acabe, Deus nos livre!
Quando desapareci para férias, estava Agosto a entrar e
Bordéus e a Estremadura espanhola a lutarem contra incêndios de uma ferocidade
nunca vista. Mas aqui, já íamos com três semanas da operação mediática
destinada ao linchamento de Luís Neves. Nos jornais, nas televisões, nas
rádios, editores, comentadores, humoristas e jornalistas, todos sem
desfalecimento, empurravam-se para ver quem chegaria primeiro ao último
estertor do acossado. Acusado de crimes tão graves como, enquanto director
nacional da PJ, aceitar os serviços de um empreiteiro que tinha contratos com a
mesma PJ e de também aceitar a sua oferta para armazenar um furgão apreendido
com componentes químicos que a PJ não tinha onde armazenar, Luís Neves era,
sobretudo, acusado de dois pecados imperdoáveis: ter construído um tanque de
rega que também podia servir de piscina sem autorização e ter
“impermeabilizado” uns metros quadrados de terreno no fim do mundo para poder
chegar a casa sem pisar na lama. O suficiente para lhe cortarem a cabeça, mesmo
que, num país onde tanto se suspeita de corrupção, ninguém se detivesse a
pensar que aquele homem que servira durante 30 anos numa posição exposta como
raras outras a abordagens de corrupção, tudo o que tinha para apresentar como
património era uma casinha herdada de família no deserto alentejano, alvo de
“sumptuosas” obras de 15 mil euros e um carro com 15 anos.
Entretanto, o mundo avançou Agosto adentro e tragicamente:
aos incêndios apocalípticos seguiram-se imagens dos dois maiores rios da
Europa, o Reno e o Danúbio, quase transformados em riachos, as verdes paisagens
inglesas parecendo o Magrebe, Londres sob 39 graus de canícula e Bruxelas 37,
terramotos em vários lados e, por fim, as neves dos Himalaias derretendo-se e
tornando-se súbitos rios diluvianos, destruindo e matando tudo à sua frente.
Mas aqui, à falta de catástrofes, de incêndios e de crimes tipo-CMTV,
continuava tudo na mesma: Luís Neves, Luís Neves, Luís Neves. E o planeta a
explodir à volta.
Agosto aproximava-se do fim quando Trump, desvairado pelo
atoleiro do Irão, onde a sua soberba e estupidez o enfiaram, voltava a ameaçar
a anexação da Gronelândia e agora também Omã, enquanto prosseguia a sua
ofensiva de raiva contra o Canadá, cujo primeiro-ministro tem a rara ousadia de
o desafiar. Já a nossa velha Europa continuava como sempre, entre a
cumplicidade com o terrorismo de Estado de Israel e a imbecilidade estratégica
na Ucrânia: lá foram todos eles outra vez em excursão a Kiev, não para pensarem
no fim da guerra, mas para prometerem mais dinheiro e mais armas para que a
guerra não acabe, Deus nos livre! Mas aqui, eis que afortunadamente surgia novo
dado gravemente incriminatório de Luís Neves: afinal, além do Ford Focus com 15
anos, o homem “tinha” outro carro, um Nissan Micra, que o sogro oferecera à sua
mulher e que, sendo eles casados em comunhão de adquiridos, pertencia também ao
suspeito — e viva a autonomia conjugal!
E assim, a novela prosseguiu ainda até final do mês e
continua Setembro adentro, sem que, por um só momento, fossem levantadas as
questões políticas que interessa levantar a um ministro da Administração
Interna: continua o caos nos aeroportos? Resposta: não. Aumentou o número de
mortes nas estradas? Resposta: não, diminuiu em Agosto. Aumentou a
criminalidade violenta? Não. Aumentou a área ardida até agora? Não, diminuiu
quatro vezes, comparado com igual período de 2025. Mas isso que interessa,
quando toda esta operação — obviamente soprada e alimentada de dentro da PJ, e
certamente por razões de desforra pessoal — visa, antes de mais, servir o Chega
e vingar a ofensa feita por Luís Neves a André Ventura, quando, com números e
estatísticas na mão, desmentiu publicamente as suas alegações de que os
imigrantes pobres faziam aumentar a criminalidade?
2 - No pelotão de fuzilamento de Luís Neves não poderia
faltar João Miguel Tavares, o grande pregador moral do regime. Depois de ter
esgotado os factos e os argumentos contra Neves, o nosso comissário para a
Promoção da Virtude e Repressão do Vício atirou-se a Luís Montenegro, que,
tendo declarado que não tiraria férias este Verão, foi fotografado um dia numa
praia, por um desses também zelosos “jornalistas balneares”. Eu conheço este
discurso populista e sei bem o que se pretende com ele. O melhor exemplo
prático desta espécie de franciscano-fascismo foi-nos dado longamente pelo
doutor Oliveira Salazar. Sem mulher nem filhos, “casado com a Pátria”, que lhe
sustentava todas as necessidades financeiras até que uma cadeira o derrubou —
do poder, mas não das benesses do Estado —, Salazar era um poço de proclamadas
virtudes e um deserto de vícios, ou até mesmo de prazeres. Não frequentava
restaurantes, nem cinemas, nem livrarias, nem concertos; nunca foi visto num
estádio, numa tourada ou sequer numa praia; senhor de um Império que proclamava
ir do Minho a Timor, nunca pôs um pé no estrangeiro, excepto numa ida a Sevilha
para se encontrar com Franco. Foi o exemplo perfeito do governante que a
ditadura exaltava e alguns ainda ensaiam promover. Pelo contrário, o melhor
exemplo de um governante em tudo diferente, que a democracia nos deu, foi Mário
Soares. Soares amava a vida, a praia, as viagens, os almoços com amigos, os
prazeres da vida; gastava dinheiro em livrarias, em galerias de arte, em idas a
museus ou concertos de música. Não é apenas o facto de eu preferir gente que
aproveita e celebra a vida àqueles que, com inveja e medo de viver, se tornam
reclusos de si próprios e castradores da liberdade alheia: é que me sinto mil
vezes mais seguro com um primeiro-ministro que se atreve a fugir um dia ao
trabalho para ir à praia do que com aqueles que vigiam os dias de praia
alheios.
3 - Apenas 3% dos alunos mais pobres conseguiram entrar este
ano nas universidades. Como disse um reitor, a constatação obrigatória é a de
que falhou o elevador social — que a educação pública deveria garantir, depois
de milhares de milhões nela investida ao longo dos anos. E falhou onde? No
ensino secundário público — aquele onde “os professores a lutar também estão a
ensinar”, lembram-se? Eis o resultado de 50 anos de luta da Fenprof, e não só,
contra a avaliação séria de desempenho. Ou seja, na protecção dos medíocres,
dos absentistas, ou dos grevistas das sextas-feiras. Ou haverá outra leitura
possível para este número vergonhoso?
4 - Do Expresso: o Colégio de Cirurgia Torácica da Ordem dos
Médicos enviou uma carta à ministra da Saúde “recusando as definições e os
valores a receber” segundo as novas regras para cirurgia nos hospitais do SNS,
estabelecidas após o escândalo no serviço de dermatologia de Santa Maria. Nessa
carta, os cirurgiões avisavam a ministra de que já estavam a surgir, em
protesto, atrasos nas cirurgias dos doentes com cancro de pulmão — o que,
segundo os subscritores, “poderá significar a perda de anos de vida para
doentes que poderiam beneficiar de tratamento cirúrgico adequado”. E assim
encostada à parede, a ministra cedeu e recuou. Mas vale a pena lembrar que
todos os anos a mesma Ordem dos Médicos leva a cabo várias sessões solenes do
“Juramento de Hipócrates”, em que os novos médicos juram, entre outras coisas,
que “a saúde e bem-estar dos meus doentes serão a minha primeira preocupação”.
Pobre Hipócrates, estes são mesmo tempos novos!
5 - E a Europa com que tantos sonharam e sonhavam morreu
neste mês de Agosto, em Ceuta. O tratamento que tantos líderes europeus deram a
Espanha (incluindo países como a Finlândia ou a Dinamarca, que beneficiam do
apoio político e militar de Espanha) foi de uma absoluta indecência e,
simultaneamente, a consequência da autodestruição do ideal europeu levada a
cabo por uma leva de dirigentes sem visão nem vergonha. Aos olhos deles, havia
que tirar uma desforra de Pedro Sánchez, um exemplo raro de um líder que pensa
pela própria cabeça, que se recusa a aceitar os ultimatos de Trump e da NATO, a
alinhar na histeria anti-imigração ou a ser conivente com o branqueamento dos
crimes de Israel. E que, ainda para mais e para desespero do PP espanhol, a
mais estúpida direita europeia, vive uma situação económica próspera, comparada
com a dos países que lhe querem dar lições. Por isso o quiseram matar: mas
mataram, sim, a Europa, doravante uma simples associação de pedintes e
contabilistas.
(Miguel Sousa Tavares, in "Expresso", 04.09-2026)
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Só hoje deixo aqui este artigo de MST que foi divulgado imediatamente à saída do Expresso.
Defendo que devemos respeitar o trabalho jornalístico e comprar o jornal.

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